Bandeirante Crístico do Infinito

Bandeirante Crístico do Infinito

Lançando um olhar sobre a estrada percorrida nesses decênios, verifico, Senhor, que eu, no início da minha vida Crístico-teotrópica, era mais dogmático do que hoje. Hoje sou mais cético que dogmático, não por que menos creia em Ti e no Teu reino, mas porque mais consciente se me tornou a minha fé, fé no sentido de fidelidade ao Teu Propósito-Plano para o Universo e o Homem.
Cético, no verdadeiro sentido da palavra, não é aquele que de tudo duvida, que acha tudo incerto, vacilante, mal-seguro. Cético vem de "skepsis", isto é, investigação, pesquisa, exame. Cético é, pois, aquele que investiga, pesquisa, examina, procura - é o Bandeirante Crístico do Teu Reino, meu Deus.
O dogmático afirma, abraça, encampa simplesmente a verdade, ou melhor, o que ele julga ser verdade, num absoluto processo de normóse, onde não se questiona nada, apenas se aceita o que já está pré-estabelecido... Que tipo de resultado colhe?
O cético, de início, não afirma nem nega; mentem-se em equilíbrio lábil, silencioso, entre dois extremos, o que nós compreendemos como terceiro Resultado Crístico; pensa, estuda, compara, analisa, pondera os prós e os contras; procura descobrir uma solução objetiva Crística, real, para aquilo que o dogmático aceita como já solucionado.
O cético é, por isto mesmo, um resoluto e magnânimo Bandeirante Crístico da Verdade, não da verdade dos homens, mas da Verdade Objetiva do Creador, porque sabe que o finito não esgota jamais o Infinito; sabe que, por mais que ande e corra, nunca lhe faltarão horizontes ilimitados, pois no Crístico, por se tratar de Qualidade e não de quantidade, não há repetição! Nunca eliminará a distância que vai entre o seu ideal Crístico Vertical e a realidade horizontal palpável. Não para em ponto algum. Nunca diz "cheguei ao fim", porque se sabe eterno itinerante. Não levanta casa maciça, sólida, definitiva à beira da estrada, ergue apenas ligeira tenda de nômade, que lhe dê guarida para uma noite, para um dia chuvoso e nevoento - e logo prossegue no seu itinerário de todos os dias, de todos os meses, de todos os anos e decênios, por ínvias florestas e desertos inóspitos, rumo a mundos ignotos...
Sempre com olhos no horizonte Crístico...
Sempre em busca de algo que nunca viu, mas que sempre intuiu, através do seu Essencial Crístico...
Sempre com saudades duma pátria que o coração lhe diz existir...
O dogmático não procura propriamente a verdade, porque julga possuí-la definitivamente. Vai apenas em busca de provas que apóiem o seu dogma e o justifique perante a própria consciência ou em face de inteligência alheia.
O dogmático é antes estático que dinâmico - ao passo que o cético é mais dinâmico que estático.
Pode o dogmático viver em paz e tranqüilidade, gozando a certeza e doçura da sua fé, que sem o referencial devido, certamente o conduzirá para a Sobrevivência, e não para a tão almejada e imperativa Imortalidade ("Deixa aos mortos o sepultar os seus mortos") - enquanto o cético, confessor e mártir do Infinito, vive sempre na atmosfera duma dolente e insatisfeita espiritualidade, busca esta motivada pelo Crístico, que sempre terá sede, até ser alimentado com a "Fonte da Água Viva que jorra para a Vida Eterna"...
O cético não se acha no ponto inicial da viagem, como o agnóstico; nem no pretenso ponto final, como o dogmático - mas entre o princípio e o fim, entre o "não" daquele e o "sim" deste, em qualquer ponto da jornada. Diz como o Apóstolo Paulo: "Não tenho a pretensão de já ter atingido o alvo, mas vou-lhe à conquista na certeza de atingi-lo".
Assim, Senhor, era eu, naquele tempo, Bandeirante Crístico das tuas selvas existenciais imensas, dos teus vastos desertos, dos teus horizontes sem fim... Tudo manifestação da Tua Grandiosidade!
Dava-me inefável satisfação saber que, na direção em que caminhava, estavas Tu e estava o teu reino - e enchia-me de dor a distância que havia entre o termo da jornada e o ponto onde estava...
E assim será sempre, enquanto o meu finito não for absorvido pelo teu Infinito, enquanto este pequenino arroio não desaguar na vastidão do teu oceano Crístico...
Nem admira que seja assim. Como poderia o finito permanecer tranqüilo em faço do Infinito?...
Como poderia a pedra ficar suspensa no ar quando o seu centro de atração, de gravitação está no âmago da terra?...
Como poderia a planta deixar de estender no espaço os sensíveis tentáculos da sua grande nostalgia, atração heliotrópica, quando tão longe está da querida claridade do sol que a chama para si com silenciosa veemência?...
Não me dou por infeliz, Senhor, por ser hoje mais cético do que dogmático, mais dinâmico que estático. Creio hoje mais firmemente do que nunca na tua palavra, mas esse crer não é um inerte repousar nem um indolente estacionar. O lago plácido do meu antigo dogmatismo converteu-se em impetuosa torrente de bandeirismo, e essa torrente vai em demanda dos teus mares divinos... Podia eu tomar o meu lago de ontem por um mar - mas nunca a minha torrente de hoje me parecerá o teu oceano, meu Deus. Naquele tempo cria em Ti e em mim - Hoje creio em Ti e descreio de meu ego Anti-Crístico - isto é, do meu Eu físico-mental-emocional, que compreendo como meio para a formação do meu Eu Crístico divino, que é manifestação de Ti mesmo...
Dou-Te graças, Senhor, por esta dolorosa inquietude do meu espírito. Não é a inquietude do desespero - é a inquietude duma grande esperança...
Uma coisa te rogo, Senhor: não permitas que eu venha a cair vítima de um ceticismo narcisista; que não me enamore das águas do próprio Eu-ego, da formosura do meu semblante mental. Preserva-me deste perverso masoquismo de eu me deliciar nos martírios íntimos da minha intelectualidade itinerante, sem extrair o Terceiro Resultado Crístico necessário para a minha formação... Não permitas que eu me intoxique com a entorpecente droga da minha nostalgia metafísica, apaixonando-me e parando em algum oásis convidativo desta misteriosa viagem e esquecendo-me do seu termo, isto é, chegar ao ser mais elevado que possa haver. Sei que esse funesto narcisismo acabaria por me embalar num sono mortífero e sustaria a minha marcha rumo ao teu horizonte eterno...
Sou um Bandeirante Crístico finito rumo ao Infinito, em demanda ao Infinito...
O que nos revelaste é Infinito - o que compreendemos é finito. Em face do teu Ser Infinito compete ao homem ser dogmático - mas em face do meu conhecer finito só me compete ser cético...
Vivemos ainda no mundo do "espelho e do enigma" - e não no mundo da realidade direta.
Vivemos na atmosfera do Símbolo, que é relativo ao Humano - um dia viveremos na atmosfera Crística do Simbolizado, que é Absoluto e Divino...
E a inquietude do meu Bandeirismo Crístico dinâmico terminará na quietude, ao mesmo tempo dinâmica e estática, do Teu "Descanso Eterno"...
(parafraseado, do texto de Huberto Rohden, por J.B. Castro)
"Ainda que o Cristo nascesse mil vezes em Belém,enquanto não nascer dentro de ti,a tua alma continuará extraviada.Olharás, em vão, a cruz do Gólgota,enquanto ela não se erguer em teu coração também."
Ângelus Silesius

Comentários