sexta-feira, 12 de novembro de 2010

LEOPOLDO MACHADO

Rememorando os 50 anos do I Congresso de Mocidades e Juventudes Espíritas do Brasil, em 1948, na cidade do Rio de Janeiro, na época Capital Federal, o dileto confrade Prof. Dr. Luiz Carlos Formiga faz referencias a Leopoldo na RIE de agosto/98. Julguei por bem, depois de uma amistosa conversa telefônica que mantive com ele, escrever alguma coisa sobre Leopoldo Machado, sobretudo para recordá-lo aos mais antigos da seara espírita e apresentá-lo aos novatos num sincero misto de gratidão e de saudade. Devemos trazer sempre acesa a lembrança destes pioneiros valentes!
Hoje em dia é relativamente fácil ser espírita no Brasil. Não há mais aquelas encarniçadas perseguições de que foi vítima também o gigante pioneiro Cairbar Schutel, em Matão, interior de São Paulo, em seu labor doutrinário-evangélico. Mas naqueles tempos iniciais havia a perseguição religiosa dos irmãos padres; perseguição científica dos irmãos médicos e perseguição policialesca dos irmãos dirigentes políticos de então. Só mesmo alguém revestido de uma enorme coragem moral é que dizia abertamente sua condição de espírita convicto e atuante!
Recordemos, então, Leopoldo Machado Barbosa, coisa que andamos fazendo em 91, por ocasião do Centenário de seu nascimento. Sim, filho de Eulálio de Souza Barbosa e de Anna Izabel Machado Barbosa, nasceu a 30 de setembro de 1891 em Cepa Forte no interior do Estado da Bahia. Porque o pai, por motivos políticos, tivesse de afastar-se do convívio familiar, desde cedo o guri atirou-se ao exercício de atividades árduas. Teve apenas oito meses de uma escola elementar, o que não o impediu de fazer-se, mais tarde, poeta, teatrólogo, jornalista, escritor, orador, dotado de vasta cultura na condição de professor.
Recebeu, da parte da mãe, orientação católica. Escrevendo, porém, na Revista Internacional de Espiritismo, parte de sua vida (sob a rubrica “Memórias de um Espírita Baiano”), deu a perceber que não era lá muito afeito aos dogmas eclesiásticos. Basta que lembremos o que sucedeu no dia em que fez a primeira comunhão, consoante seu depoimento pessoal. Estava ainda todo vestido de branco quando, saindo da igreja, onde o padre dizia: “Ah, não fosse sacrilégio, bom seria se vocês todos morressem agora, purinhos, limpinhos, fossem logo para o céu” – passou a atirar pedras contra umas vacas que pastavam perto da igreja. Vendo aquela peraltice de Leopoldo, o padre adverte: “Mas você fazendo esta maldade, menino. Ainda há pouco estava eu desejando o ingresso de vocês todos no céu...” Ao que retruca o menino, já arguto: - “Ora, padre, depois eu me confesso e volto a ficar todo puro, todo limpo e poderei entrar no céu...”.
Seu pai só volta ao lar anos mais tarde, tornando-se pai de uma menina em 1910. Não gostou. Todos os filhos anteriores eram homens. Desejava mais outro garoto. Leopoldo, diante disto, assumiu o compromisso de cuidar daquela irmãzinha. Eis o que me revelou aquela menina que é, atualmente, a sua única parenta direta ainda encarnada (1998) – a Professora Leopoldina Machado, de quem sou amigo desde 1960, nela encontrando uma das qualidades características do irmão: a sinceridade, dizendo lealmente tudo quanto sente e pensa! Exatamente por isso que eu a tenho na conta de amiga, porque modéstia à parte, também procuro ter a mesma conduta, embora isto nem sempre agrade por aí. Mas voltemos ao Leopoldo.
Uma febre muito alta o acometeu. Os médicos, que o atenderam, prognosticaram: “Se este menino escapar, ficará retardado mental”. Para alegria da mãezinha Anna Izabel a criança escapa e nunca apresentou nenhum sinal de deficiência da inteligência; pelo contrário, viajou por todo o Brasil defendendo o ideal espírita com destemor, inclusive defendendo-a do ataque dos padres. Certa ocasião, doente, com febre, em Nova Iguaçu, polemizou com um padre e, no final, saiu carregado nos braços do povo que o aplaudiu entusiasticamente, para desespero do sacerdote.
Rapazola, descrente das pregações religiosas, durante uma quadra de sua vida chegou a ser materialista. Mas, casado com Marilia Barbosa, em 1917, graças ao desvelo desta companheira, fez-se espírita e mais que isto, tornou-se um de seus maiores defensores na tribuna, no rádio, no livro e no jornal.
Em 1913, viera da Bahia para fixar-se no Rio de Janeiro. Veio, mas não se fixou. Casou-se, como já informei, em 1917, com Marília Ferraz de Almeida, e em 1921 veio com ela para a então Capital Federal, apenas por vir, não querendo aqui se fixar. E acabou ficando e aqui vivendo até desencarnar, em 1957.
E aquele que foi um autodidata autêntico – fez-se professor admirado por todos quantos dele se aproximasse. Posso dar um exemplo concreto disto. No ano de 1961, prestando prova oral de francês a fim de ingressar no curso de História Natural da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da então Universidade do Estado da Guanabara, porque a professora examinadora me pedisse em francês, uma frase usando uma dada preposição, respondi de imediato, naturalmente no idioma de Victor Hugo:
“Apesar de tudo, fui aluno do Colégio Leopoldo”.
Ouvindo estas palavras, aquela examinadora passou a conversar comigo em português, com um enorme brilho no olhar: “- Colégio Leopoldo!? Você sabe o que está dizendo, um filho?”. Respondi-lhe:
“- Claro! Ali fiz o curso científico de 1958 até o ano passado (1960). Ali comecei a lecionar ano passado (Março de 1960). E desde o primeiro sábado de Abril do ano passado sou da Mocidade Espírita de Iguaçu, adesa ao Centro Espírita Fé, Esperança e Caridade, em Nova Iguaçu”.
Para encurtar a história, a examinadora esqueceu-se do exame e passou a conversar comigo, em português, sobre Leopoldo Machado; e, detalhe importante, ela, professora universitária, sempre dizia: O Professor Leopoldo fez isto, o Professor Leopoldo escreveu aquilo, quer dizer, ela sempre frisava a palavra Professor. E no final do exame, deu-me nota 10! Claro que me atribuiu tal grau não porque eu dominasse a língua de Kardec, mas porque em mim estava vendo um discípulo de Leopoldo Machado. (Se bem que só fui para seu colégio meses depois de sua morte).
Tendo vindo para o Rio de Janeiro, em 1921, andou dando aulas e dirigindo colégios alheios, como o Colégio Nacional, em Paraíba do Sul, de propriedade do comandante Paim Pamplona, ao que me consta também espírita. Em 1929, visitando Nova Iguaçu, gostou da cidade da laranja e para ela decidiu transferir-se logo...
No ano seguinte, instalava, com o apoio da esposa, da mãe e da irmã, o Ginásio Leopoldo Ltda. Devo dizer que ali eu lecionei desde 1960 até 1972. Já Leopoldo deu aulas até 1951, quando um infarto do miocárdio passou a exigir-lhe mais repouso. Afinal, estava com 60 anos de idade numa vida de intenso labor.
Uma das pessoas com as quais travou amizade em Nova Iguaçu foi o jornalista Luiz Martins de Azeredo, que, em março de 1917, havia ali fundado o semanário “Correio da Lavoura”, até hoje em circulação. Em 1929, começa Leopoldo Machado a escrever neste órgão, sendo seu primeiro escrito um libelo contra a jogatina...
Havia em Nova Iguaçu o padre João Musch, a quem eu conheci pessoalmente. Muitas vezes ele ia até a Escola Municipal França Carvalho, onde fiz do 1º. Ao 4º. Ano do curso primário, dar aulas de moral cristã. Pois bem, para provocar, este padre alemão pedira permissão a Leopoldo para dar aulas de catecismo no Ginásio. Leopoldo replica:
“- Sim, concordo em que o senhor vá ao meu Colégio ensinar o seu catecismo. Mas há de permitir que eu vá à sua igreja dar aulas do meu catecismo, concorda?”.
Como o João Musch não concordasse com isso, então o padre jamais ali entrou para pregar o Catolicismo...
Vale recordar que o Ginásio Leopoldo foi o primeiro colégio particular de ensino secundário na Baixada Fluminense a ser reconhecido pelo Governo Federal. E de lá saíram muitos alunos que se projetaram no Brasil.
Um dos fatos pitorescos de sua vida, antes de ser espírita, merece citação: De todas as disciplinas, a que dificilmente entendia era justamente a Matemática. Rapazola, economizando uns trocados, conseguira comprar uma fantasia de índio com a qual brincaria o carnaval. Ora, em chegando o tríduo momesco, alguém lhe propõe uma troca tentadora: aquela fantasia de índio por um livro de aritmética. E eis que o moço não pensou duas vezes: deu-lhe a fantasia e passou os três dias de folia resolvendo exercícios de Matemática!
Há quem pense que Leopoldo tenha sido um dos fundadores do Centro Espírita “Fé, Esperança e Caridade”. Mas é um engano! Com efeito, Leopoldo foi durante anos a fio seu presidente. Foi, até, o presidente que mais projetou o “Fé, Esperança e Caridade” no Brasil e no mundo, porque sempre o citava em suas crônicas para jornais e em seus livros. Mas não foi o seu fundador, não! O Centro foi fundado um ano antes de Leopoldo se fixar no Rio de Janeiro. Foi fundado em 20 de julho de 1920 por outros confrades, conforme cito no livro “Antes Que Me Esqueça”, obra que organizei com material póstumo do saudoso Victoriano Eloy dos Santos, num lançamento da Ed. Mnêmio Túlio.
Em 1936, instalou a Escola de Alfabetização João Batista, para as crianças que não dispusessem de recursos para custear seus estudos. Dois anos depois instalou o Albergue Noturno “Allan Kardec”; ambas as instituições, a escola e o albergue, nas dependências do “Fé e Esperança”. Em 1942, coube à mãe Marília (que só tivera um único filho, natimorto) a alegria de instalar o Lar de Jesus, no bairro do Caonze. Desnecessário dizer que tudo isto se deve ao apoio de Leopoldo, de Marília, de Leopoldina e dona Anna Izabel. E Leopoldina casou-se com Newton Gonçalves de Barros. Em 1947, faleceu-lhe a mãe Anna Izabel. E dois anos após é Marília que volta ao mundo espiritual. Lamento! Não privei da amizade dele! Só o vi três vezes...
Muito escreveu Leopoldo em jornais e revistas, sendo que nesta mesma RIE manteve durante longos anos três colunas mensais, uma sobre os livros que lia, outra onde relatava suas memórias e uma terceira colaboração sobre algum assunto doutrinário do momento. Ao lado de João Pinto de Souza, ele e a esposa levaram o Espiritismo ao ar através da “Hora Espiritualista”. Muito colaborou com Alziro Zarur para que se fundasse a 1º. De Janeiro de 1950 a Legião da Boa Vontade, sendo até o legionário número 2. Antes de morrer, visitou sua terra escrevendo o poema “À Bahia, de novo”. Ah! Leopoldo colaborou para o progresso cultural de Nova Iguaçu; escrevendo no Correio da Lavoura, lutou para que ali fosse instalada uma Biblioteca Pública, evento que não pôde assistir. Todavia, ao lado de outros intelectuais, sobretudo professores e advogados, em 15 de novembro de 1956, viu instalar-se a Arcádia Iguaçuana de Letras, porque naquela ocasião tomava ele posse da cadeira número 1, cujo patrono era o Duque de Caxias, sobre o qual escreveu o livro “Caxias, Eminente Iguaçuano” (porque a fazenda onde nascera o patrono do Exercito, em Estrela, ficava em terras do futuro município de Nova Iguaçu). Na ocasião, seu concunhado Dr. Waldomiro Pereira, casado com uma das irmãs de Marilia (Maria de Lourdes) leu até parte deste livro de Leopoldo, numa solenidade alegre, a que o Leopoldo, já doente, compareceu, realizada no Fórum Itabaiana, com a presença de todos os demais nove árcades e do escritor Prof. Dr. Pedro Calmon, da Academia Brasileira de Letras. Aquela criança que, após uma crise febril, se escapasse, seria um débil mental, ale estava como intelectual entre intelectuais de vasto saber.-
Muito teria a escrever sobre ele; talvez, um dia, escreva um livro sobre esta grande vida. Vou pondo um ponto final relacionando seus livros que foram os seguintes:
Poesias: 1 - Saudades (duas séries – 1918); 2 – Idéias; 3 – Iluminação, em homenagem à esposa querida (1948); 4 – Guerra ao Farisaísmo.
Contos: 5 – Prosa de calibam; 6 – Para o Alto; 7 – Consciências...; 8 – Para a Frente e Para o Alto.
Relatos de Viagem: 9 – Ide e Pregai (1942); 10 – Caravana da Fraternidade.
Teatro: 11 – Teatro Espiritualista (duas séries); 12 – Teatro da Mocidade.
Polêmicos: 13 – Julga, leitor, por ti mesmo (1937); 14 – Sensacional Polemica (1938); 15 – Doutrina Inglória (relativamente ao controle da natalidade) (1941); 16 – Pigmeus contra gigantes.
Estudos: 17 – Nada lhe é maior no momento; 18 – O Natal dos Cristãos Novos (1943); 19 – Observações e Sugestões (1948); 20 – Cruzada de Espiritismo de Vivos (1948); 21 – Cientismo e Espiritismo (editado em Lisboa – Portugal – 1948).
Teses: 22 - Brasil, berço da Humanidade; 23 – O Espiritismo é Obra de Educação; 24 – Das Responsabilidades dos Espíritas do Brasil.
Bibliográficos: 25 – Graças sobre Graças, sobre sua esposa; 26 – Uma Grande Vida, sobre Cairbar Schutel (1952) e 27 – Caxias, Eminente Iguaçuano (1956).
Na sua biblioteca havia duas fotos: uma de Lincoln, outra de Thomas Edison.
Vale lembrar que compôs, de parceria com Oli de Castro, o hino-canção “Alegria Cristã”. Veio a desencarnar no Lar de Jesus, às 22 horas e 20 minutos do dia 22 de agosto de 1956, sendo sepultado no cemitério de Nova Iguaçu, levado até ali, seu corpo, por uma enorme multidão, a ponto de o fato ser citado no programa oficial “A Hora do Brasil”, transmitido pela Agencia Nacional.