sexta-feira, 12 de novembro de 2010

TAYLOR CALDWELL

Entre a Revolta e a Dor

Não era permitida a presença de mulheres ali porque elas profanavam o sagrado recinto da sinagoga, mas Hannah subira pela escadaria e lá estava, atrás de uma cortina, ao lado de uma jovem senhora que ela conhecia apenas de nome. A moça era linda, de olhos azuis como o céu. Seus cabelos eram quase brancos, como se sobre o dourado claro flutuassem reflexos de prata. Hannah afastou a cortina para que ambas pudessem ver melhor. Lá embaixo, um jovem lia, de pé, um texto sagrado. Teria uns cinco anos mais que Miriam, a filha de Hannah. Como era bela a voz dele, pensou Hannah, e, voltando-se para a sua companheira, traduziu seu pensamento em palavras:

- Que bonita voz tem ele.

- É meu filho, disse a outra.

Hannah olhou-a. Era também uma nazarena e parecia tão jovem para ser mãe de um homem no vigor da sua força, aos vinte anos. E, por algum tempo, ali ficaram lado a lado, em silêncio, atrás da cortina, Hannah, de Magdala e Miriam, enquanto do recinto sagrado subia a bela voz de Jesus.

*

A cena é da mais tocante poesia e está descrita, não exatamente com essas palavras, no livro “The Search for a Soul – Taylor Caldwell´s Psychic Lives” (“À Procura de uma Alma – As Vidas Psíquicas de Taylor Caldwell”), do escritor americano Jess Stearn (edição da Doubleday, Nova York, 1973).

O livro reúne todos os ingredientes de êxito. Jess Stearn é autor experimentado, com excelente formação jornalística e há muito se interessa pelo tema fascinante da pesquisa científica, sobre o qual já escreveu várias obras de enorme sucesso, sobre as quais “Edgar Cayce – O Profeta Adormecido”, que por longo tempo encabeçou a lista dos “best-sellers” americanos. Seu novo livro não destoa dos anteriores. É uma narrativa de quem conhece bem a arte de comunicar-se com elegância e precisão.

Taylor Caldwell é romancista mundialmente famosa, autora de uma serie respeitável de livros, alguns dos quais traduzidos em português, outros que serviram de tema para filmes. Destacamos, apenas como lembrete, o notável “Dear and Glorious Pysician”, biografia romanceada de Lucas, o evangelista e médico, e “The Great Lion of God” (“O Grande Leão de Deus”), o romance do apóstolo Paulo de Tarso.

O assunto do livro de Stearn é a reencarnação, pesquisada através da regressão de memória. Taylor Caldwell, aliás, Janet Taylor Caldwell, nasceu na Inglaterra, em 1990, mas vive há muitos anos nos Estados Unidos, onde se realizou como grande romancista. Aos setenta anos de idade, cansada de uma existência que já se alonga, a seu ver, mais do que deveria, até o êxito profissional lhe pesa, depois que Marcus Reback, seu marido e companheiro de 40 anos, partiu para a outra vida, em 1970. Reencarnação? Deus me livre! Para a Sra. Caldwell uma vida já é demais. “Se não fosse católica – disse ela a Stearn -, com uma leve suspeita de que alguma coisa talvez exista depois da morte, eu me mataria. Não tenho nada que me prenda à vida. Quando meu marido morreu, todo o sol retirou-se de minha vida”.

Pouco antes, referindo-se à sua pressão arterial “tremendamente alta”, dissera que tudo quanto esperava era um enfarte para morrer logo.

A doutrina da reencarnação, para ela, é deprimente, “pois estremeço à simples idéia de nascer novamente neste mundo. A vida, para mim, praticamente desde a infância, foi uma coisa monstruosa, penosa, angustiante e a idéia de repetir tal existência – mesmo sob melhores condições – me horroriza. Acho que preferiria o esquecimento total. Pelo menos no esquecimento, como no sono, você está livre do revoltante mecanismo da existência e de se tornar uma presa ultrajante do destino”. Além do mais, diz ela, essa gente que mergulha no passado sempre surge com encarnações glamourosas, nas quase foram princesas ou rainhas ou alguém de grande porte histórico. Nunca se encontra um lixeiro, um engraxate...

Como se enganava a ilustre romancista nas suas observações! Primeiro, que o processo das vidas sucessivas não precisa da nossa opinião para existir e funcionar. Se a vida é penosa e difícil, a culpa é nossa mesmo. Nós próprios criamos, no passado, com o nosso livre-arbítrio, o determinismo da dor presente. A colheita é exatamente conforme a semeadura. Que adianta a gente se horrorizar ante a idéia do renascimento? Que adianta a gente preferir o esquecimento total? Por outro lado, a Sra. Caldwell desconhece totalmente o processo do sono. Nós não ficamos livres do “revoltante mecanismo” da vida enquanto dormimos; apenas nossa consciência de vigília não é usualmente informada do que se passa nas horas de repouso físico. Na realidade, o Espírito está sempre consciente, quer o corpo esteja dormindo ou não. Finalmente, nas pesquisas de regressão feitas com seriedade, não descobrimos apenas vidas importantes. É possível, de fato, que aqui ou ali, no tempo e no espaço, tenhamos tido a provação de projeção, vivendo existências que a História guardou, mas há também – e quantos – longos períodos de anonimato, de dor, de frustrações, de desencanto, de angústias, de misérias, tudo rigorosamente de acordo com os nossos compromissos, supervisionados de perto pela lei de causa e efeito. A própria Sra. Caldwell desmentiu, nos seus transes, todas as suas queridas teorias de vigília, como veremos.

Interessante que ela mesma foi quem propôs, em conversa com Jess Stearn, a experiência de regressão, embora achando que ninguém conseguiria hipnotizá-la, porque certa vez arrancou um dente sob hipnose, mas sentiu a dor. È uma pena não poder reproduzir aqui o diálogo entre a Sra. Caldwell (em vigília, naturalmente) e o autor. É uma conversa muito viva entre duas pessoas inteligentes sobre o tema inesgotável da vida. A vida continua? A gente se reencarna? Por que acontecem certas coisas ditas inexplicáveis?

O capítulo segundo é uma especulação acerca do extraordinário conhecimento revelado pela Sra. Caldwell nos seus livros, sobre os tempos apostólicos, sobre medicina antiga, sobre certos episódios históricos, tudo isso analisado com grande beleza e dentro de uma lógica e uma autenticidade impressionantes. Será que esse conhecimento provém das habituais fontes de inspiração artística ou seriam revivescências de antigas encarnações da autora a aflorarem dos seus arquivos perispirituais?

Stearn conversa a respeito com um eminente médico, seu amigo, o Dr. Cadvan Griffiths.

- Você acha que isso pode ser explicado pela reencarnação? – pergunta o escritor.

O médico dá uma gargalhada e responde:

- Você quer dizer a gente nascer outra vez? De jeito nenhum.

- Como é que você sabe?

- Porque sou um homem cientificamente orientado. Não vejo evidência em favor da reencarnação.

No entanto, os dois livros da Sra. Caldwell sobre medicina revelam um conhecimento tão profundo da matéria que surpreende e intriga os médicos, o Dr. Griffiths inclusive: técnicas operatórias, aulas sobre assuntos médicos, diálogos ao pé da cama do doente, enquanto mestre e discípulo percorrem o hospital. É tudo duma irretocável genuinidade. Stearn cita neste capítulo trechos notáveis de “Dear and Glorious Psysician” (o livro sobre Lucas) e “Testimony of Two Men” (“Testemunho de Dois Homens”), aquele revelando conhecimentos estarrecedores sobre a medicina antiga, e este desenvolvendo sua história em ambiente moderno.

Mas o Dr. Griffiths, “como outros médicos que juraram preservar a vida, jamais considerou a perspectiva da sobrevivência da alma humana”, escreve Stearn.

Assim, a posição de Taylor Caldwell é ao mesmo tempo de invencível descrença com relação à sobrevivência da alma (e muito menos ainda de sua possibilidade de reencarnar-se) e uma certa curiosidade, ou, pelo menos, uma predisposição para mergulhar no mistério da vida.

Havia um pequeno problema a vencer: a romancista é bastante deficiente da audição; mas o hipnotizador – que no livro não é identificado – venceu com habilidade a barreira e até mesmo conseguiu melhorar o estado da paciente. Taylor Caldwell foi rapidamente ao transe profundo e imediatamente condicionada para, de futuro, adormecer apenas com um leve toque do hipnotizador em sua testa.

As primeiras explorações foram realizadas na vida atual, suas dificuldades, problemas e angústias. A romancista não teve infância feliz, nem mesmo tolerável. Quando tinha nove anos – contou em transe – sua mãe lhe disse com toda calma:

- Nunca desejamos que você nascesse. Há um rio no final da rua. Por que você não vai se afogar?

“Olhei para minha mãe e vi que ela estava falando sério. Era a nossa casa na Rua Albany. Não sei por que ela disse aquilo. Olhei-a nos olhos e pensei que ela estava louca. Não é possível, ela está louca, disse a mim mesma”.

Não havia afeto na sua vida, nem segurança, nem conforto. Na verdade, as dificuldades financeiras se prolongaram por muitos anos, mesmo depois que ela, já adulta, lutava bravamente para sobreviver. Aos trinta anos, está sozinha e tem uma filha para sustentar com um salário de 25 dólares por semana. Mora num cômodo miserável, frio e úmido e, muitas vezes, não tem o suficiente para comer.

Quando o hipnotizador remete sua memória ao período pré-natal, o próprio Stearn, que assiste a todas as experiências, se pergunta: será que um embrião é capaz de pensar? É; não o embrião, mas o Espírito ali presente.

- Meu Deus! Aqui estou eu novamente. Mas desta vez vai ser a última. Desta vez não serei impaciente de novo, para ter que voltar para cá. Depois desta vez não voltarei mais. Tenho a impressão de que alguém está tentando me matar. Ouço alguém dizer: “Não a terei, não a quero!”. Será que ela se refere a mim?

E depois:

- Vou fechar os olhos e fingir que não estou aqui. Fui-me embora e tudo foi apenas um sonho e eu não existo.

Não é preciso dizer mais para sentir o drama do Espírito atormentado que enfrenta os problemas e dificuldades de uma encarnação que se anuncia extremamente penosa. Já no limiar da nova existência, a própria mãe a rejeita e tenta eliminá-la. O Espírito insiste em viver e, se fosse possível, se fingiria de morto, porque espera que esta seja a última vez que se entrega à dura prisão da carne e suas angústias.

Ao despertar, poucos minutos depois, totalmente inconsciente do que disse, nem sabe que adormeceu.

- Por que estava eu chorando? – pergunta.

E Jess Stearn, muito diplomata:

- Eu também não gostaria de voltar se tivesse uma vida igual à sua.

E assim foi a primeira sessão. Ficou combinado que Taylor Caldwell não ouviria nenhuma gravação. Somente depois de concluído o trabalho, ela tomaria conhecimento de suas revelações.

*

Muitas pistas se abriam diante dos pesquisadores no desconhecido mundo psíquico de Taylor Caldwell: sua vaga recordação de Mary Ann Evans, que viveu no século passado, na Inglaterra, e escreveu sob o nome masculino de George Eliot; seus sonhos – e até visões – da época em que viveu e morreu na fogueira frei Savonarola; sua vívida descrição da Atlântida, ainda em criança, quando ensaiava, como escritora, os primeiros passos que a levariam ao renome internacional. Decidiram os pesquisadores começar pela mais próxima do tempo, provocando suas possíveis conexões com George Eliot. Assim foi feito, na segunda sessão.

- Vamos levá-la ao período vitoriano, propôs o escritor, e ver se ela diz alguma coisa sobre Mary Ann Evans.

- E quem é Mary Ann Evans? – perguntou o hipnotizador. Stearn explicou que foi uma novelista inglesa ao tempo da Rainha Victoria e que escreveu, sob o pseudônimo George Eliot, alguns livros famosos como “Silas Marner”, “The Mill on de Floss”, “Adam Bede” e, curiosamente, uma longa história chamada “Romola”, baseada na vida de frei Savonarola...

Era evidente que o hipnotizador estava completamente “por fora” de todos aqueles nomes e títulos.

Parece que a primeira impressão de Jess Stearn era a de que a própria Taylor Caldwell teria sido George Eliot no passado, o que, de certa forma, explicaria seus talentos literários de hoje. Para surpresa sua, no entanto, a romancista em transe começou a falar com forte sotaque irlandês, revelando intensas dores, ignorância e pobreza. Sim, ela conheceu muito bem Mary Ann Evans; chamava-se, então Jeannie McGill e foi empregada domestica da famosa romancista. De onde veio ela para a casa de Mary Ann Evans? Não sabia ao certo, mas morava antes numa casa onde havia muitas mulheres bonitas que os homens visitavam à noite. E sua mãe, onde estava? Não tinha mãe; vivia com as moças e não sabia como havia ido parar ali. Tanto quanto se lembrava, sempre vivera naquela casa, antes de empregar-se com Mary Ann, aí por volta dos dez anos de idade. A romancista tratava-a com carinho e às vezes lia para ela seus livros, porque a menina era analfabeta. Mary Ann vivia, algo irregularmente para a rígida era vitoriana, com um Lewes, aliás George, de quem ela provavelmente tomou o nome para compor seu pseudônimo. Lewes era casado com outra mulher e tinha filhos, mas a ligação com Mary Ann perdurou ao longo dos anos.

Havia outros empregados na casa e uma de maior responsabilidade, por certo, era a Sra. Glassen, que perseguiu e martirizou a pobre menina o quanto quis. Dava-lhe murros que acabaram por arrebentar-lhe os tímpanos, provocando-lhe a surdez. Por fim, a Sra. Glassen acusou-a de ter roubado um anel valioso de Mary Ann, enquanto a patroa se achava na Europa, em viagem turística. A menina foi presa e condenada a dez anos, mas não cumpriu a pena porque conseguiu enforcar-se.

“Curiosamente – escreve Jess Stearn -, na posição de uma personalidade completamente subconsciente ela presenciou sua própria morte em retrospecto e isso somente seria possível, naturalmente, se algo da sua essência, sua alma, espírito ou o que quer que seja, sobrevivesse para lembrar sua própria morte”.

A idéia se afigura “exciting” (excitante) ao autor. Parece que pela primeira vez na vida encontra ele a evidência de que o Espírito passa pela “morte” e segue em frente, pensando, sentindo, vivendo.

Taylor Caldwell acordou chorando, mais uma vez. Pouco antes de despertar e antes ainda da trágica cena do suicídio dissera, num dramático sopre de voz:

- Nunca mais ouvir os pássaros.

E depois, num gemido:

- Que Deus tenha pena de minha alma.

Como se sentia? Otimamente. Até mesmo a misteriosa e persistente dor que sempre teve no pescoço havia desaparecido.

- De onde você pensa que vem essa dor? – perguntou Stearn.

- Não sei, mas eu sentia às vezes como se a minha pele tivesse sido estrangulada por uma corda, como num enforcamento. Mas, poderia isso ter acontecido?

*

Na sessão seguinte, Taylor Caldwell mergulhou numa existência transcorrida no século XVIII; outra vida em que muitas dores se concentraram em poucos anos. Era novamente uma pobre copeira em uma casa de família. Ainda não completara catorze anos e estava, evidentemente, assustada e, como em várias outras existências, sempre morrendo de frio. Evidentemente, a menina não gostava de um tal de Johnston (“Um homem tão sujo”, dizia ela), tio da sua patroa e que, às vezes, os visitava. O hipnotizador resolveu levá-la até o seu próximo aniversário, quando teria completado catorze anos.

- Você está agora com catorze anos, você tem catorze anos de idade.

E a resposta veio inesperada:

- Mas eu não vivi até os catorze anos. Eles me mataram.

A cena descrita é terrível. Praticaram com ela atrocidades inomináveis. Era um grupo composto de seu patrão, dois filhos, o tio da patroa e mais dois homens. A dona da casa tinha saído, naturalmente, e os homens se encontravam embriagados.

Concluída a penosa narrativa da sua desgraçada vida no século XVIII, os pesquisadores desejaram saber o que acontecia entre uma vida e outra. “Se é que a alma existe – escreve Stearn -, se a sobrevivência é um fato, seria interessante verificar se ela se lembrava de algo nesse interlúdio, livre da Terra”.

- Você morreu em 1898, disse-lhe o hipnotizador tocando-lhe a fronte. Diga-me agora algo sobre o período entre 1898 e 1900. (Sua vida como Taylor Caldwell começou em 1900) Onde esteve você e o que fazia?

Há um momento de expectativa, de vez que os pesquisadores também não se acham convencidos nem um pouco da sobrevivência.

“Surpreendi-me inclinado para a frente em expectativa – diz Stearn. Se ela nada tivesse a dizer, nada haveria de vida espiritual, nada de alma vivente; poderíamos perfeitamente abandonar nosso projeto de uma vez”.

A mulher adormecida, no entanto, continuava perfeitamente calma e, com uma voz estranhamente distante, informou:

- Estive em casa, em Melina, por algum tempo. Fui muito feliz, muito feliz...

Segundo ela, Melina seria um planeta, onde ela tem vivido ocasionalmente em companhia de alguns Espíritos que lhe são familiares. O planeta é mencionado no seu recente e curiosíssimo livro intitulado “Dialogues with the Devil” (“Diálogos com o Demônio”). Provavelmente é uma colônia espiritual dominada, ao que diz ela, por um Espírito que ela chama de Darios, terrivelmente temperamental, autoritário e “very quick to anger”, ou seja, pronto nos seus impulsos de cólera. Segundo se depreende, ao juntar os muitos fragmentos de suas vidas ao longo dos séculos, o Espírito Taylor Caldwell tem oscilado entre dois estranhos amores: Darios e alguém que ela chama de Estanbul. Este seria um Espírito afável e culto, que na última existência foi seu marido Marcus Reback. O outro, no entanto, ela chama-o cheia de respeito e temor, “my Lord Darios”, meu Senhor Darios. Tais ligações se reportariam aos tempos longínquos de perdida Lemúria. O diálogo entre o hipnotizador e a paciente torna-se, aqui, muito rarefeito e, ao meu ver, algo fantasioso. Não desejo, porém, emitir julgamento porque as informações se apresentam de maneira fragmentária e refletem naturalmente o conhecimento e as idéias da paciente. Há, entretanto, coisas inesperadas. Em certo ponto, a mulher adormecida expõe a sua concepção da divindade e, a uma pergunta que lhe parece inadequada, ela responde:

- Você está fazendo perguntas tolas. O Consolador ainda não veio. Ele virá depois que o Messias vier à Terra.

Curioso é que, ao despertar, Taylor Caldwell, conversando com Jess Stearn, é informada de que falou a respeito de Darios, “o primeiro e único” – diz Stearn brincando. E ela muito séria:

- Jamais faça troça com Darios. Nunca brinque com o nome dele.

- Que pode fazer ele? – pergunta o escritor.

- Não há quase nada que ele não possa fazer.

- E Estanbul?

Ela deu de ombro:

- Não é a mesma coisa... ele é igual a nós. No entanto – ela riu -, isso tudo pode ser mera fantasia.

*

Na experiência seguinte, o hipnotizador deseja levá-la à época de Gengis Kahn, sobre quem ela escreveu um notável romance chamado “The Earth is the Lord´s”. O hipnotizador sugere-lhe que recue ao ano 1200 e ela balança a cabeça.

- Eu não vivi em 1200.

Estava novamente em Melina.

Pouco depois, por sua própria iniciativa, mergulha num período entre os séculos XIV e XV, quando foi uma freira num convento espanhol. Estanbul, sempre presente, seria um certo padre Francisco, a quem ela secretamente amava e que era seu confessor. Ambos eram judeus convertidos, então conhecidos por marranos, e ela chamava-se irmã Teresa. A cidade era Barcelona e o convento Santa Maria de las Rosas. Quando o hipnotizador lhe sugere a idade de 21 anos, irmã Teresa já havia partido da vida terrena e encontrava-se novamente nos domínios de Darios, alhures no Universo.

Foi uma trágica história de amor que abreviou a sua vida. Teresa fugiu com Francisco, mas foram ambos apanhados a caminho do barco que tomariam para a liberdade e o amor. Francisco, acovardado, declarou que a jovem o havia seduzido no confessionário. E ela, por amor, concordou perante o inquisidor.

- Senhor, o padre está inocente. Eu o seduzi. Lancei encantamento sobre ele para fugir comigo...

Parece que Estanbul – ou seja, Francisco – é levado num barco para destino ignorado e ela o vê partir, desesperada, e atira-se à água para morrer afogada.

- Ah, Estanbul, eu te perdôo...

Mais uma vida de dores e frustrações, terminada em morte violenta, em plena mocidade.

*

Nesse ponto há um interlúdio no livro. Autor, paciente e alguns pouquíssimos e íntimos amigos iniciam uma peregrinação em busca de médiuns que possam trazer do mundo espiritual alguma corroboração ou desmentido àquelas fantásticas histórias tão humanas que estão emergindo da sombra dos séculos, nas sessões de regressão de memória.

Taylor Caldwell concorda com o projeto, mas não cede um milímetro da sua descrença.

- Se há Espíritos – diz ela -, por que viriam eles correndo ao simples chamado de algum médium?

Não acredita mesmo “nessas coisas”.

O primeiro médium é George Daisley, a quem o famoso bispo James Pike também procurou para conversar com o Espírito de seu filho. (Ver o artigo “O Bispo e os Espíritos”)

Marcus Reback, o marido recém-desencarnado de Taylor Caldwell, transmite pelo médium algumas informações, mas a romancista não se impressiona, nem parece comovida.

Os Espíritos mandam também dizer-lhe que é importante convencê-la dessas verdades. A sua vida na Terra deve prosseguir, porque ela ainda não realizou o trabalho de que se incumbiu. Marcus, seu marido, insiste dramático:

- Pelo amor de Deus, diga-lhe que estou vivo!

Ao cabo da longa sessão, a Sra. Caldwell emite sua opinião:

- Foi tudo muito interessante aquilo que ouvi. Mas, simplesmente, não acredito nessa história de Espíritos.

*

A médium Dorothy Raulenson faz estranhas e fascinantes revelações. Taylor Caldwell estaria muito envolvida com o autoritário Espírito Darios, que ela identifica numa de suas encarnações, com Gengis Khan, sobre o qual, aliás, a Sra. Caldwell escreveu notável romance, como vimos. Curiosamente, porém, a obra termina quando o guerreiro, ainda jovem, chega à soleira da sua verdadeira e sangrenta glória terrena. Segundo Raulenson, a futura Taylor Caldwell disputou com o guerreiro uma batalha de amor e poder e foi destruída, quando ele ainda não havia atingido o ápice da sua carreira.

A Sra. Caldwell teria vivido também como dançarina na corte do Imperador Domiciano, em Roma. Naquela existência, teria sido convertida ao Cristianismo pelo próprio apóstolo João, no seu exílio, na ilha de Patmos, isto, de certa forma, explicaria sua familiaridade com as figuras de Paulo e de Lucas, que ela trata com muito carinho e minúcia em dois dos seus melhores livros.

A médium menciona ainda a posição religiosa do Espírito Senhora Caldwell: ela vem oscilando milenarmente entre o amor e o ódio, perante a figura de Deus. Ainda hoje, escreve sobre ele com certas tonalidades amorosas, mas o repudia.

- O mais curioso, diz a médium, é que lá, muito no fundo, ela pensa que é uma parceira de Deus.

Seria, pois, esse invencível orgulho o terrível aguilhão que a leva a atravessar todas as vidas angustiosas e cheias de frustrações?

- Às vezes, prossegue a médium, ela acha que deve tomar para si esse papel e dizer a Deus o que Ele deve fazer. Mas enquanto, as coisas correm segundo sua vontade, ela se mostra submissa. Quando algo a bloqueia, ela coloca Deus de lado. Ao longo de todas essas vidas, ela se sente ora de um lado ora de outro.

Evidentemente, não temos como conferir essa informação, mas ela soa estranhamente genuína quando contemplamos as aflições e o imenso talento da romancista, massacrada entre a revolta e a dor.

Dorothy prevê para ela uma futura existência como líder religiosa, aí por volta do ano 2002. Terá então revertido às suas experiências com João, em Patmos, onde teria escrito muita coisa que se perdeu. Na atual existência, o melhor do seu trabalho, segundo a médium ainda não foi realizado.

A romancista, no entanto, mantém-se irredutível. Tudo quanto deseja é retirar-se desta vida, pois não acredita na sobrevivência do Espírito, mesmo após as experiências por que está passando.

*

Infelizmente, não podemos tomar muito espaço para comentar aqui tudo quanto merece ser comentado deste livro extraordinário. Procurarei limitar-me aos episódios essenciais.

No século XV vamos encontrá-la em Florença, na Itália, na personalidade de uma freira por nome Maria Bernardo, consumida de um amor impossível pelo famoso Savonarola, em quem mais uma vez identifica Estanbul.

Há aqui um pormenor que vale a pena mencionar. Desde muito jovem, ainda na Inglaterra, Taylor Caldwell sonhava, com freqüência aterradora, um episodio, sempre o mesmo. Estava presa numa torre e via, pela janela, lá embaixo, os telhados de uma antiga cidade renascentista. Seria na Espanha ou na Itália? De repente, ouvia passos de gente subindo implacavelmente as escadarias. Teria ns vinte e poucos anos de idade. A cela era gelada; havia apenas um leito rústico, uma mesa e uma cadeira. Os passos que soavam na escadaria eram de três homens, um dos quais ela conhecia muito bem. Vestiam-se com hábitos brancos dos dominicanos. Ela sabia que eles vinham torturá-la e matá-la. Quando a chave virou na fechadura, ela correu para a janela e saltou para a morte lá embaixo.

Este sonho tenebroso repetia-se dúzias de vezes, sempre exatamente igual.

Um belo dia, já adulta e casada com Marcus Reback, seu eterno Estanbul, Taylor Caldwell foi à Itália. Em Florença, hospedou-se na mansão de um nobre italiano, o conde Moretti. Ao chegar ao seu cômodo, abreiu as cortinas e viu, lá embaixo, uma grande praça para a qual convergiam muitas ruas. No meio da praça havia uma pilastra alta, na qual se assentava a estatua de um cavaleiro medieval. A Sra. Caldwell teve uma impressão desagradável de tudo aquilo, cerrou as cortinas e foi dormir.

No dia seguinte, ao abrir as janelas, olhou novamente para baixo e nada havia lá da grande praça, nem estátua; apenas uma ilha de concreto com um monumento modernista implantado.

Ao mencionar o estranho fenômeno ao seu hospedeiro, o conde Moretti foi à sua biblioteca e trouxe um livro, no qual lhe mostrou a gravura da antiga praça com o seu monumento medieval, exatamente como Taylor Caldwell tinha visto no dia anterior.

Andando pela cidade, mais tarde, a romancista teve outra visão inexplicável: no centro de uma pequena praça, cercado por monges dominicanos, um homem estava sendo queimado vivo. Quase sem querer, ela disse em voz alta:

- Savonarola!

A condessa que estava ao seu lado disse:

- Isso mesmo. Aquele monumento ali foi erguido em sua homenagem.

E, no entanto, na sessão em que Taylor Caldwell se identificou com a irmã Maria Bernardo, quando despertada para um pequeno repouso, ela virou-se perfeitamente lúcida (ou não é bem essa a palavra?) para Jess Stearn e disse:

- Espero sinceramente que você não esteja desperdiçando o seu tempo, pois você nunca provará a reencarnação por meu intermédio.

Sem comentários. Mais uma vida de frustração, angústia e tragédia terminada em suicídio.

*

Em seguida, aflora à sua memória uma longínqua existência entre os maias. Ela sugere que esses povos teriam vindo em “navios voadores” de uma terra chamada Egypta que um cataclismo submergiu no oceano. Interessante observar que Edgar Cayce dizia que os atlantes também possuíam máquinas voadoras e emigraram para o país que hoje se chama Egito, e deram tremendo impulso à civilização que ali encontraram. Teriam sido esses emigrantes avisados psiquicamente de que o continente que habitavam estava condenado ao sepultamento sob as águas do Atlântico.

Depois disso, nova menção a Gengis Khan. O hipnotizador remete-a ao ano 1200. E ela, provando mais uma vez que a sugestão não vale nesses estados profundos de consciência, responde firme:

- Jamais conheci Gengis Khan.

A explicação é que ela somente conviveu com ele enquanto o temido guerreiro chamava-se Temujin. Nesse ponto ela parece fazer a conexão da antiqüíssima existência no século XIII com a atual, e diz:

- Eu escrevi um livro sobre ele, mas alguém me contou a história, não sei quem.

Em seguida, explicou: em estado de vigília começava a perceber imagens e ouvir nomes. Era como se estivesse assistindo a uma peça de teatro com todos os sons, as vozes e os cenários. Bastava descrevê-los. Nesse ponto, fez uma pausa e acrescentou:

- O homem estava no cômodo onde eu estava, sentava-se ao meu lado e ditava. Eu não sabia o que escreveria a seguir... ele me dizia.

*

Havia, porém, outras vidas para serem investigadas. Parecia inesgotável o imenso porão de memórias da grande romancista. Novos dramas e aflições explodiam em seu dramático relato perante os pesquisadores.

Falemos de Wilma Sims. Nessa existência nasceu novamente num reformatório em Battersea, subúrbio de Londres. Outra vida miserável e sem horizontes: frio, fome, trabalho, pobreza, frustrações. Aos 16 anos de idade, a rota da sua existência cruza novamente com o infalível Estanbul, encarnado então na pessoa de um jovem bancário.

- Quando eu o vi, eu o reconheci, mas ele não me reconheceu. Quis dizer-lhe: “Oh, aqui está você novamente e desta vez você jamais me deixará”. Quis perguntar-lhe: “Você me ama, não é?”.

Estanbul, porém, tinha outros interesses. Chamava-se então Ephraim Jacobs e era judeu. Foi promovido na sua função no banco e mudou-se da pensão pobre onde também morava Wilma Sims. A moça tinha ainda esperanças de reencontrá-lo alhures, mas ficou doente e em breve morreu tuberculosa, em 1898, dois anos antes de se reencarnar como Taylor Caldwell, ainda na Inglaterra. Conseguiu durar até os 21 anos, o que, na sua experiência espiritual do passado, já é muito.

Mais uma encarnação em que ela foi buscar uma figura glamurosa e importante para justificar a sua própria teoria de que os reencarnacionistas sempre querem passar por figurões históricos.

Antes dessa, os pesquisadores encontraram-na numa outra vida, na Inglaterra. Chamava-se, então, Lucy Moss e vivia em Reddish. Pais? Não os tinha. Vira a mãe apenas uma vez e o pai morrera atropelado por uma carruagem. Era criada pela avó Moss. Não sabia em que ano estava, mas lembrava-se de que a data era 1º. De agosto.

- Você agora está ficando mais velha, diz o hipnotizador para fazê-la caminhar no tempo.

E mais uma vez a resposta inesperada.

- Não, não, jamais eu ficarei mais velha...

Novo drama: morreu afogada, pois ali, à beira do rio, costumava encontrar-se com Darios, embora seus companheiros de infância jamais acreditassem na sua história. Tinha apenas cinco anos de idade e partiu novamente para a casa de “my lord Darios”, em Melina.

*

Nos capítulos seguintes são reproduzidas as suas fascinantes experiências médicas, no remoto passado grego. A atual romancista chamava-se então Helena e, a princípio, quando muito jovem, vivia na casa de Aspásia mas, afinal de contas, naqueles tempos a prostituição não era uma nódoa desprezível e Helena conseguiu emergir ao longo dos anos, como uma das mais notáveis médicas da sua época, façanha extraordinária para uma mulher. Explicou que os homens amavam mais aquelas alegres companheiras do que as esposas que os pais haviam escolhido para eles.

- É verdade que as esposas nos chamavam de prostitutas, mas não éramos prostitutas. Muitas de nós nos tornamos escritoras, escribas, escultoras, professoras e matemáticas.

Helena descreve sua brilhante carreira pelos caminhos da medicina, com todos os pormenores e práticas daqueles recuados tempos. Tornou-se, com o tempo, mestra respeitadíssima de jovens médicos, diante dos quais dava aulas práticas, realizando delicadas operações que descreve com riqueza incrível de detalhes. Uma dessas operações foi uma trepanação feita num jovem que ela própria teria hipnotizado. Precisava remover um tumor cerebral que estava provocando a cegueira no seu paciente. Era um câncer.

- Alguns doutores chamam-no de caranguejo. Cada um desses tentáculos tem que ser removido, senão eles voltarão a se desenvolver.

A aula prossegue e, às vezes, ela parece divagar sobre pontos correlatos, explicando por exemplo a técnica egípcia da trepanação, praticada para liberar o Espírito nas pessoas agonizantes. Na sua opinião, o câncer era transmissível por contágio.

Com o tempo, Aspásia tornou-se a companheira de Péricles e Helena fundou sua própria clínica. É com satisfação que ela conta que tratou daquele eminente cidadão de Atenas, mas não é sem uma ponta de ironia que fala dos seus berros apavorados ante a dor. Ridículo, diz ela. Refere-se a ele, porém, com muito carinho e com grande orgulho, pois considerava-o, muito justamente, aliás, como um rei, embora Atenas fosse a grande precursora da democracia.

Na sua opinião, muitas doenças provêm de desarranjos da mente. Assim era sua teoria a respeito do diabetes. A doença – explicou – era descoberta através do exame de urina que, depois de evaporada pela fervura, deixava um resíduo extremamente doce. O doente, com o tempo, fica sofrendo da vista e tem um apetite insaciável, especialmente por mel e doces. Por isso, muita gente pensa que são os doces que causam o diabetes. Helena, porém, estava convencida de que a causa “está aqui” – e apontava para a cabeça. “Eles não conseguem mitigar a sede insaciável, porque também não conseguem saciar sua avareza”.

No intervalo entre essa sessão e a seguinte, Jess Stearn leu nos jornais que os cientistas chegaram à conclusão de que algumas variedades de câncer são realmente transmissíveis. Helena estaria, assim, alguns séculos adiante de sua própria época...

A essa altura, Taylor Caldwell já não sentia mais o peso dos seus 70 anos de idade. Parecia ter renovado suas energias e demonstrava um novo interesse pela vida. Planejava uma longa viagem de recreio e vários enredos de livros circulavam pela sua mente. Não tinha ainda ouvido, porém, nenhuma das gravações de regressão de memória. Além disso, não tinha mais a dor no pescoço, as dores de cabeça desapareceram e a audição estava surpreendentemente melhor.

Retomando a existência de Helena, prosseguiu incansável a sua narrativa fascinante. Fez inúmeras operações; somente não tocou no coração, uma das “câmaras sagradas de Hipócrates”. Era uma entusiasta da medicina psicossomática, embora a palavra não esteja mencionada.

- É minha crença, apesar de que nem Herácleos me acredita, que as emoções do homem podem destruir qualquer órgão no seu corpo, especialmente o coração que, como você sabe, é um músculo forte.

Pesquisou e descobriu estranhos remédios para a época, como um certo pozinho amarelo que conseguiu isolar “não apenas da teia da aranha, como de certas substancias em decomposição”. Não tinha ainda inventado um nome para o novo remédio. Jess Stearn pensa em sugerir o nome de penicilina... Notável mulher essa remotíssima Dra. Helena, amiga de Aspásia que, por sua vez, era dedicada companheira do grande Péricles.

Quanto à raiva, divergia de Hipócrates, que a considerou incurável. Sabia muito bem que quanto mais próximo a mordida do cérebro mais rápido o ciclo da infecção. É sempre fatal. Estudando, porém, em livros egípcios, isolou a essência de uma planta com a qual alega ter livrado da morte nove pacientes dos onze que tratou. E ainda informa que as mordidas foram nos ombros e algumas na garganta.

Além de ter esse saber, Helena achava que cada parte do corpo é controlada por determinada região do cérebro. Estudou o assunto com seu amigo e companheiro Herácleos, mas este achava que o cérebro era todo igual, sem diferenças entre as diversas regiões. Ela, porém, notou que o ferimento em certas seções afetava sempre os mesmos membros.

Discutiu também o problema das drogas, assustada diante do poder de uma substancia retirada da rauwolfia, uma planta da Índia, para “controlar gente e conservá-los plácidos como animais”. Essa planta fornece hoje a reserpina, usada no controle da hipertensão arterial.

Finalmente, resolveram os pesquisadores levar a paciente ao tempo do Cristo, que ela demonstrou conhecer tão bem nas suas novelas de sucesso.

Realmente lá está ela, naqueles tempos. Chamava-se, então, Hannah e morava na cidade de Magdala, com o marido, uma filhinha de nome Miriam e sua irmã Halla. Sob o transe, parece embalar Miriam no colo, ao mesmo tempo em que conversa com Halla, a quem conta um sonho estranho e muito nítido. Sonhou que o Messias havia nascido há cinco anos, na cidade de David. Ela sabia que, segundo as profecias, o Ungido viria envolto em glória e rodeado de anjos, mas ela, Hannah, ouvira os sábios e eles disseram que ninguém o reconheceria e ninguém poria as mãos sobre ele. Ela ouvira isso quando escutava, escondida atrás da cortina, a discussão dos eruditos doutores da lei. Sonhou também que o nome da sua Miriam jamais seria esquecido porque tanto ela, Miriam, como Hannah estariam com o Messias um dia.

- Sonhei isso apenas uma vez – diz ela a Halla. Sonhei que a minha querida Miriam seria muito chegada a ele. Vejo-a ajoelhada a seus pés e ele ajudando-a a levantar-se.

Suspirou feliz e acrescentou:

- Mas ela é então uma mulher feita, uma linda moça, e ele levanta-a e põe seu braço em torno dela. Como todos nós, nazarenos, seu cabelo é vermelho-dourado, olhos azuis e, em meu sonho, ela nasceu na Casa do Pão, que em nossa linguagem quer dizer Belém. Vê você, eu sei um pouco de hebraico, mas não é permitido falar essa língua às mulheres.

Hannah gostava de falar especialmente acerca dos seus sonhos. Se eles fossem verdadeiros, pensava ela, toda Israel saberia no devido tempo.

Conta, mais adiante, a belíssima cena com que abri este breve comentário. Jesus, ainda jovem de 20 anos, ensaia sua pregação no templo, enquanto Hannah, ao lado de Maria, ouve atrás da cortina, porque n ao era permitido mulheres no recinto sagrado. Estavam em Magdala, visitando alguns parentes, mas viviam em Nazaré. José e Jesus eram carpinteiros; faziam móveis muito bonitos que até em Jerusalém eram vendidos, segundo Hannah.

Dez anos depois, Hannah encontra-se, já viúva, morando na famosa Rua dos Queijeiros, em Jerusalém, a cidade sagrada. Não suportou mais o peso dos impostos romanos, veio para a cidade, com a velha mãe. Hannah tinha então 40 anos de idade. Fabricava queijo para vender. Sua bela filha Miriam há muito estava desaparecida e Hannah trouxe para Jerusalém a esperança de encontrá-la. Hannah estava cansada, velha e pobre. Como seria bom recuperar a sua linda Miriam! Estaria agora com 25 anos de idade. Será que se casara? Hannah oferecia o sacrifício de uma pomba no Átrio das Mulheres, rogando a Deus para que ajudasse Miriam a encontrar sua mãe.

A certa altura, porém, ela parece tomar uma decisão. Perguntaria pela filha ao novo profeta Yeshua. Pausa. Parece que caminha na direção da praça do mercado, ponto de encontro e de pregação. De repente, sua voz se eleva num crescendo aterrador. Estão matando sua filha a pedradas. A agonia desesperada de Hannah atravessa quase vinte séculos para sacudir de uma terrível emoção o corpo de Taylor Caldwell, na Califórnia do século XX.

- Vocês não devem matá-la. Vocês não devem apedrejá-la até à morte. Meu Deus! Miriam, minha filha! Estão matando-a! Estão matando minha filha! – gritava ela repetidamente.

Taylor Caldwell estava já sentada no sofá, tinha os braços estendidos e dos seus olhos fechados escorriam lágrimas abundantes, enquanto seus gritos enchiam toda a casa. Os pesquisadores acharam prudente despertá-la. Ela olhou os companheiros com uma expressão de perplexidade.

- Há algo errado com uma das minhas filhas? – perguntou. Tenho uma terrível impressão de que há alguma coisa errada com uma de minhas filhas.

- Não, é apenas um sonho que você estava tendo acerca de uma filha numa existência passada.

A resposta foi pronta e definitiva:

- Não existe essa história de vida passada ou reencarnação. Isso é um amontoado de tolices.

Antes de retomar o trabalho, em outra sessão, Jess Stearn releu o episodio do apedrejamento de Maria de Magdala, no Evangelho. As perguntas eram muitas e algumas foram respondidas na sessão subseqüente.

Ao correr desesperada para a filha, Hannah tropeçou nas pedras e morreu aos pés de Jesus. Segundo sua versão, Jesus teria dito o seguinte aos fariseus que corriam atrás de Miriam:

- Aquele que não se deitou com ela, atire a primeira pedra.

Hannah reconstituiu toda a cena. Miriam estava no centro de um círculo de homens enfurecidos, sofrendo uma barragem de pedradas. Jesus correu na sua direção, ajoelhou-se para socorrer a moça já caída. E aí o sonho de Hannah tornou-se realidade: Jesus ajudou-a a levantar-se e passou o braço por cima do ombro dela enquanto falava com os homens que a perseguiam. Hannah correu para eles e tropeçou. Os homens gritavam e chamavam Miriam de prostituta e berravam: “Anátema! Anátema! Miriam de Magdala é uma adúltera!”.

No momento em que a morte começou a libertá-la da sua prisão carnal, Hannah teve, afinal, a visão inesquecível de Jesus. Vamos procurar traduzir suas palavras:

- Meu coração explodiu em fogo. Uma escuridão me envolveu. E então eu vi Yeshua ben Joseph antes de partir. Ele era muito alto e brilhava como um sol. Sua barba e seu cabelo rutilavam como fogo dourado e fagulhas emanavam dele. Seus olhos eram mais brilhantes do que qualquer estrela. E ele me disse: “Vai em paz, minha filha”. Ele estava mergulhado na glória e engrandecido, enquanto raios de luz fluíam de suas mãos. Seu manto cinzento se transformara em fogo branco e havia marcas nos seus punhos. (O Evangelho registra idêntica frase de Jesus para Magdala).

Sua voz tornou-se extática, quando acrescentou:

- Certamente ele é o Messias. Ele salvou o seu povo do pecado.

*

Pouco maia adiante, Jess Stearn encerra a narrativa e passa a expor algumas de suas próprias especulações, o que seria impraticável reproduzir aqui sem mutilar o seu pensamento. Creio oportuno, entretanto, mencionar que ele nada encontrou que pudesse abalar a hipótese da reencarnação na longa narrativa de Taylor Caldwell. Uma única vez as vidas estiveram separadas apenas por dois anos, quando a atual romancista morreu como Wilma Sims, em 1898, para renascer como Taylor Caldwell, em 1900, o que é perfeitamente possível. A propósito, Stearn conta uma decepção que teve e que criou no seu espírito um bloqueio de cepticismo com referência à reencarnação. Um médium lhe disse, certa vez, que ele, Stearn, teria sido, no passado, o poeta inglês Robert Browning, o que o deixou muito orgulhoso, segundo confessa. Outro, porém, declarou que ele fora Bramwell Bronté, “o ignominioso irmão das famosas irmãs Bronté”. Acontece que Bronté e Browning foram contemporâneos e Stearn não poderia ter sido os dois ao mesmo tempo. Donde se pode concluir o dano que às vezes causam certos médiuns imprudentes.

Esse livro fascinante termina, porém, de maneira melancólica. Ao regressar Taylor Caldwell da sua longa viagem de recreio, empreendida logo depois das sessões, Jess estava com o seu livro pronto. Entregou os originais à sua amiga e pediu-lhe que escrevesse um epílogo.

A famosa romancista escreveu, pois, as últimas paginas do livro, depois de ler a narrativa do seu fabuloso mergulho no passado. Confirma suas vívidas impressões acerca da vida com George Eliot, na Inglaterra vitoriana, mas se pergunta de maneira desconcertante:

- Será minha imaginação de romancista? Ou memória? Não sei dizer. Posso apenas sentir que se Deus existe, então Ele foi particularmente severo comigo e a minha breve “existência” naquela encarnação foi sem sentido e certamente não resultou em nenhum “beneficio” para mim como “carma” ou “esclarecimento”. (O grifo é meu, mas as aspas estão no texto original).

Declara, a seguir, que acha repulsiva a idéia de que podemos nascer como homens ou mulheres, dado que “alguns reencarnacionistas dizem que a alma não tem sexo”. (Por que repulsiva?) Sente-se feliz, porém, de ter sido constantemente mulher. Está “profundamente convencida” de que a felicidade não existe nem neste mundo nem em nenhuma forma de vida póstuma. Ficaria “muito feliz de ficar livre da vida para sempre”.

Nem por convicção, nem por crença religiosa aceita a reencarnação.

- Não obstante ser católica praticante, tenho sérias dúvidas acerca da sobrevivência da personalidade humana ou “alma”, depois da morte.

Sua vida, em suas próprias palavras, tem sido “trágica e desastrosa, desde o nascimento”. Sob a pressão da desgraça – fome, desabrigo, desespero, doenças e privações até mesmo das mais elementares necessidades da vida -, várias vezes pensou em suicídio, para acabar com tudo, segundo pensa. Foi sempre explorada sem piedade até mesmo por aqueles a quem mais ardentemente amou e em quem confiou.

A idéia da reencarnação, que encontrou em muitos dos livros que leu, sempre a horrorizou. A seu ver, nenhuma pessoa inteligente poderia suportar outros turnos nesta existência, que acha pavorosa, num mundo igualmente pavoroso. Não vê como considerar a reencarnação uma promessa e uma esperança. “Certamente, uma vida é suficiente para suportar a vida!”.

Houve tempo em que temia (a palavra é sua) que a personalidade humana pudesse sobreviver à morte e que, afinal de contas, a reencarnação pudesse ser uma verdade. Exatamente para provar que tudo isso era falso entrou em contato com seu amigo Jess Stearn e se ofereceu para a pesquisa. Estava em dezembro de 1971, “num total estado de espírito suicida”, pois o mundo lhe parecia apenas uma instituição penal. (E é) Assegura que evidentemente, deve ao seu amigo e ao hipnotizador o novo interesse pela vida, e até mesmo certa alegria de viver “que nunca havia experimentado antes, nem mesmo na infância, na juventude ou na mocidade”. E, estranho como pareça, a “cura” foi definitiva. Reencontrou até o amor, casando-se novamente com um homem de sua idade, tal como havia sido previsto, aliás, por um dos médiuns que consultou com Stearn. Está com novos livros planejados.

Depois de ler com muita atenção o livro de Stearn, continua rejeitando a idéia da reencarnação, muito embora, sem ela, não consiga explicar uma porção de coisas que ela própria revelou, como seu conhecimento de hebraico, espanhol, italiano, ou de medicina. Mesmo assim, acha que a reencarnação, “se é que existe, é uma gigantesca maldição e não uma esperança”.

Propõe ao leitor que faça seu próprio julgamento acerca da teoria da reencarnação e do comovente material contido no livro. “Sou ainda a céptica dos cépticos. Contudo, sou grata pela experiência. Se para nada serviu, pelo menos me proporcionou material para um novo romance”. (Grifo meu) Abandonou uma história passada no período das Cruzadas, ao tempo de Saladino (outra possível encarnação?), par escrever um livro sobre Péricles e Aspásia. Confessa que sabe tudo acerca de suas “personagens”, sendo totalmente familiarizada com os lugares e aquela gente: Helena, Herácleos, Hipócrates e todos aqueles gregos maravilhosos.

*

É assim o fecho do livro. Uma prece para Taylor Caldwell, romancista genial que nem um rosário enorme de vidas conseguiu dobrar para as realidades do espírito. Nem mesmo aquela existência tão dramática e tão bela, da qual Jesus a despediu com uma palavra de amor:

- Vai em paz, minha filha...

Hannah partiu, mas não encontrou a paz. Sacudida entre a dor que a revolta e a revolta que lhe traz a dor, não conseguiu ainda escapar ao círculo de fogo das suas muitas angústias. E, não obstante, é tão fácil partir os grilhões da dor, só que temos de quebrar antes as douradas correntes do orgulho