quinta-feira, 19 de abril de 2012

COMO A PALAVRA DE DEUS FICOU SUJEITA AO HOMEM

Os estudos bíblicos se processam no mundo em duas direções
diversas: há o estudo normativo dos institutos religiosos, ligados às várias
igrejas, que seguem as regras de hermenêutica e a orientação de pesquisas
destas igrejas; e há o estudo livre dos institutos universitários
independentes, que seguem os princípios da pesquisa científica e da
interpretação histórica. O Espiritismo não se prende a nenhum dos dois
sistemas, pois sua posição é intermediária. Reconhecendo o conteúdo
espiritual da Bíblia, o Espiritismo estuda à luz dos seus princípios, em
harmonia com os métodos da antropologia cultural e dos estudos históricos.
Somente às religiões dogmáticas, que se apresentam como vias
exclusivas de salvação, interessa o velho conceito da Bíblia como palavra
de Deus. Primeiro, porque esse conceito impede a investigação livre.
Considerada como palavra de Deus, a Bíblia é indiscutível, deve ser aceita
literalmente ou de acordo com a "interpretação autorizada da igreja". Por
isso, as igrejas sempre se apresentam como "autoridade única na
interpretação da Bíblia". Segundo, porque essa posição corresponde aos
tempos mitológicos, ao pensamento mágico, e não à era de razão em que
vivemos.
Vimos rapidamente as contradições insanáveis em que se afundam
os hermeneutas religiosos. Vêemse
eles obrigados a perigosas ginásticas
do raciocínio, apoiadas em fórmulas préfabricadas,
para se safarem das
contradições do texto. Mas não escapam jamais à contradição fundamental,
que é esta: consideram a Bíblia como a palavra de Deus, mas estabelecem,
para sua interpretação, regras humanas. Dessa maneira, é o homem que
faz Deus dizer o que lhe interessa.
Há no meio espírita alguns críticos agressivos da Bíblia. São
confrades ilustres e estudiosos, que tomam essa posição em face das
agressões religiosas à Doutrina, com base nos textos bíblicos. A posição da  Doutrina, porém, não é essa, como já vimos em Kardec. As supostas
condenações do Espiritismo pela Bíblia decorrem das interpretações
sacerdotais. A Bíblia é um dos maiores repositórios de fatos espíritas de
toda bibliografia religiosa. E os textos bíblicos estão eivados de passagens
tipicamente espíritas, como veremos.