terça-feira, 25 de setembro de 2012

FERIDAS E CICATRIZES DA INFÂNCIA

Tem sido estabelecido através da cultura dos tempos, que a infância é
o período mais feliz da existência humana, exatamente pela falta de discernimento
da criança, e em razão das suas aspirações que não passam de
desejos do desconhecido, de necessidades imediatas, de ignorância da
realidade.
Os seus divertimentos são legítimos, porque a eles se entrega em
totalidade, sem qualquer esforço, graças à imaginação criadora que a
transporta para esse mundo subjacente do crer naquilo que lhe parece. Não
estando a personalidade ainda formada, não há dissociação entre o que tem
existência real e aquilo que somente se fundamenta na experiência mental.
A criança atravessa esse período psicologicamente feliz, sem o saber, com
as exceções compreensíveis de casos especiais, porque tampouco sabe o que
é a felicidade. Só mais tarde, na idade adulta é que, recordando os anos
infantis, constata o seu valor e pode ter dimensão dos acontecimentos e
prazeres.
Como a criança não sabe o que é felicidade, facilmente identifica-a no
divertimento, aquilo que a agrada e a distrai, os jogos que lhe povoam a imaginação.
É na infância que se fixam em profundidade os acontecimentos, aliás,
desde antes, na vida intra-uterina, quando o ser faz-se participante do futuro
grupo familiar no qual renascerá. As impressões de aceitação como de rejeição
se lhe insculpirão em profundidade, abençoando-o com o amor e a segurança
ou dilacerando-lhe o sistema emocional, que passará a sofrer os efeitos
inconscientes da animosidade de que foi objeto.
Da mesma forma, os acontecimentos à sua volta, direcionados ou não à
sua pessoa, exercerão preponderante influência na formação da sua
personalidade, tornando-a jovial, extrovertida ou conflitada, depressiva,
insegura, em razão do ambiente que lhe plasmou o comportamento.
Essas marcas acompanhá-la-ão até a idade adulta, definindo-lhe a
maneira de viver. Tornam-se feridas, quando de natureza perturbadora, que
mesmo ao serem cicatrizadas, deixam sinais que somente uma terapia muito
cuidadosa consegue anular.
Por sua vez, o Espírito, em processo de reencarnação, acompanha mui
facilmente os lances que precedem à futura experiência, e porque podendo
movimentar-se com relativa liberdade antes do mergulho total no arquipélago
celular, compreende as dificuldades que terá de enfrentar mais tarde, ao sentirse
desde então indesejado, maltratado, combatido.
Certamente, essa ocorrência tem lugar com aqueles que se vêm impelidos
ao renascimento para reparar pesados compromissos infelizes, retornando ao
seio das suas anteriores vítimas que agora os rechaçam, o que é injustificável.
A bênção de um filho constitui significativa conquista do ser humano, que
se deve utilizar do ensejo para crescer e desenvolver os sentimentos
superiores da abnegação e do amor.
As reações vibratórias que podem produzir os Espíritos antipáticos na fase
perinatal, produzem, não raro, mal-estar. Não obstante, a ternura e a
cordialidade fraternal substituem as ondas perturbadoras por outras de
natureza saudável, preparando os futuros pais para o processo de
aprimoramento e de educação do descendente.
Na raiz de muitos conflitos e desequilíbrios juvenis, adultos, e até mesmo
ressumando na velhice, as distonias tiveram origem — efeito de causa transata
—no período da gestação, posteriormente na infância, quando a figura da mãe
dominadora e castradora, assim como do pai negligente, indiferente ou
violento, frustrou os anseios de liberdade e de felicidade do ser.
Todos nascem para ser livres e felizes. No entanto, pessoas
emocionalmente enfermas, ante o próprio fracasso, transferem para os filhos
aquilo que gostariam de conseguir, suas culpas e incapacidades, quando não
descarregam todo o insucesso ou insegurança naqueles que vivem sob sua
dependência.
Esse infeliz recurso fere o cerne da criança, que se faz pusilânime, a fim
de sobreviver ou leva-a a refugiar-se no ensimesmamento, na melancolia,
sentindo-se vazia de afeto e objetivo de vida. Com o tempo, essas feridas
purulam, impelindo a atitudes exóticas, a comportamentos instáveis, às fugas
para o fumo, a droga, o álcool ou as diversões violentas, mediante as quais extravasam
o ressentimento acumulado, ou mergulham no anestésico perigoso
da depressão com altos reflexos na conduta sexual, incompleta, insatisfeita,
alienadora...
A sociedade terá que atender à infância através de mecanismos próprios,
preenchendo os espaços deixados pela ausência do amor na família, na
educação escolar, na convivência do grupo, nas oportunidades de
desenvolvimento e de auto-afirmação de cada qual. Para tal mister, torna-se
necessário o equilíbrio do adulto, do educador formal, que pode funcionar como
psicoterapeuta, orientando melhor o aprendiz e reencaminhando-o para a
compreensão dos valores existenciais e das finalidades da vida.
Inveja, mágoa, ciúme, instabilidade, ódio, pusilanimidade e outros
hediondos sentimentos que afligem as crianças maltratadas, carentes,
abandonadas mesmo nas casas onde moram, desde que não são lares verdadeiros,
constituem os mecanismos de reação de todos quantos se sentem
infelizes, mesmo que inconscientemente.
A compreensão dos direitos alheios e dos próprios deveres, o contributo
da fraternidade, a segurança afetiva, a harmonia interior, a compaixão, a
lealdade se instalarão no ser, cicatrizando as feridas, à medida que o meio
ambiente se transforme para melhor e o afeto dos outros, sincero quão
desinteressado, substitua a indiferença habitual.
Qualquer ferida emocional cicatrizada pode reabrir-se de um para outro
momento, porqüanto não erradicada a causa desencadeadora, os tecidos
psicológicos estarão muito frágeis, rompendo-se com facilidade, pela falta de
resistência aos impactos enfrentados.
A questão da felicidade, por isso mesmo, é muito relativa. Se a felicidade
são os divertimentos, ou é o prazer, ei-la de fácil aquisição. No entanto, se está
radicada na plenitude, muito complexa é a engrenagem que a aciona.
De certo modo, ela somente se expressa em totalidade, quando o artista
conclui a obra a que se entrega, o santo ao ministério de amor a que se devota,
o cientista realiza a pesquisa exitosa, o pensador atinge com a sua mensagem
o mundo que o aguarda, o cidadão comum se sente em paz consigo mesmo...
O dar-se, a que se refere o Evangelho, certamente é a melhor metodologia
para alcançar-se essa ventura que harmoniza e plenifica.
Toda vez, portanto, que alguém sinta incompletude, insegurança, seja
visitado pelos sentimentos inquietadores da insegurança, do medo, da raiva e
da inveja injustificáveis, exceção feita aos estados patológicos profundos, as
feridas da infância estão ainda abertas ou reabrindo-se, e necessitando com
urgência de cicatrização.