sábado, 29 de setembro de 2012

NOSTALGIA E DEPRESSÃO

As síndromes de infelicidade cultivada tornam-se estados patológicos mais
profundos de nostalgia, que induzem à depressão.
O ser humano tem necessidade de auto-expressão, e isso somente é
possível quando se sente livre.
Vitimado pela insegurança e pelo arrependimento, torna-se joguete da
nostalgia e da depressão, perdendo a liberdade de movimentos, de ação e de
aspiração, face ao estado sombrio em que se homizia.
A nostalgia reflete evocações inconscientes, que parecem haver sido ricas
de momentos felizes, que não mais se experimentam. Pode proceder de existências
transatas do Espírito, que ora as recapitula nos recônditos profundos do
ser, lamentando, sem dar-se conta, não mais as fruir; ou de ocorrências da
atual.
Toda perda de bens e de dádivas de prazer, de júbilos, que já não
retornam, produzem estados nostálgicos. Não obstante, essa apresentação

inicial é saudável, porque expressa equilíbrio, oscilar das emoções dentro de
parâmetros perfeitamente naturais. Quando porém, se incorpora ao dia-a-dia,
gerando tristeza e pessimismo, torna-se distúrbio que se agrava na razão direta
em que reincide no comportamento emocional.
A depressão é sempre uma forma patológica do estado nostálgico.
Esse deperecimento emocional, faz-se também corporal, já que se
entrelaçam os fenômenos físicos e psicológicos.
A depressão é acompanhada, quase sempre, da perda da fé em si
mesmo, nas demais pessoas e em Deus... Os postulados religiosos não
conseguem permanecer gerando equilíbrio, porque se esfacelam ante as
reações aflitivas do organismo físico. Não se acreditar capaz de reagir ao
estado crepuscular, caracteriza a gravidade do transtorno emocional.
Tenha-se em mente um instrumento qualquer. Quando harmonizado, com
as peças ajustadas, produz, sendo utilizado com precisão na função que lhe diz
respeito. Quando apresenta qualquer irregularidade mecânica, perde a
qualidade operacional. Se a deficiência é grave, apresentando-se em alguma
peça relevante, para nada mais serve.
Do mesmo modo, a depressão tem a sua repercussão orgânica ou viceversa.
Um equipamento desorganizado não pode produzir como seria de desejar.
Assim, o corpo em desajuste leva a estados emocionais irregulares, tanto
quanto esses produzem sensações e enarmonias perturbadoras na conduta
psicológica.
No seu início, a depressão se apresenta como desinteresse pelas coisas e
pessoas que antes tinham sentido existencial, atividades que estimulavam
àluta, realizações que eram motivadoras para o sentido da vida.
À medida que se agrava, a alienação faz que o paciente se encontre em
um lugar onde não está a sua realidade. Poderá deter-se em qualquer situação
sem que participe da ocorrência, olhar distante e a mente sem ação, fixada na
própria compaixão, na descrença da recuperação da saúde. Normalmente,
porém, a grande maioria de depressivos pode conservar a rotina da vida,
embora sob expressivo esforço, acreditando-se incapaz de resistir à situação
vexatória, desagradável, por muito tempo.
Num estado saudável, o indivíduo sente-se bem, experimentando também
dor, tristeza, nostalgia, ansiedade, já que esse oscilar da normalidade é característica
dela mesma. Todavia, quando tais ocorrências produzem infelicidade,
apresentando-se como
verdadeiras desgraças, eis que a depressão se está fixando, tomando corpo
lentamente, em forma de reação ao mundo e a todos os seus elementos.
A doença emocional, desse modo, apresenta-se em ambos os níveis da
personalidade humana: corpo e mente.
O som provém do instrumento. O que ao segundo afeta, reflete-se no
primeiro, na sua qualidade de exteriorização.
Idéias demoradamente recalcadas, que se negam a externar-se —
tristezas, incertezas, medos, ciúmes, ansiedades contribuem para estados
nostálgicos e depressões, que somente podem ser resolvidos, à medida que
sejam liberados, deixando a área psicológica em que se refugiam e libertandoa
da carga emocional perturbadora.
Toda castração, toda repressão produz efeitos devastadores no
comportamento emocional, dando campo à instalação de desordens da
personalidade, dentre as quais se destaca a depressão.
É imprescindível, portanto, que o paciente entre em contato com o seu
conflito, que o libere, desse modo superando o estado depressivo.
Noutras vezes, a perda dos sentimentos, a fuga para uma aparência
indiferente diante das desgraças próprias ou alheias, um falso estoicismo
contribuem para que o fechar-se em si mesmo, se transforme em um
permanente estado de depressão, por negar-se a amar, embora reclamando da
falta de amor dos outros.
Diante de alguém que realmente se interesse pelo seu problema, o
paciente pode experimentar uma explosão de lágrimas, todavia, se não estiver
inte
ressado profundamente em desembaraçar-se da couraça retentiva, fechandose
outra vez para prosseguir na atitude estóica em que se apraz, negando o
mundo e as ocorrências desagradáveis, permanecerá ilhado no transtorno
depressivo.
Nem sempre a depressão se expressará de forma autodestrutiva, mas
com estado de coração pesado ou preso, disfarçando o esforço que se faz para
a rotina cotidiana, ante as correntes que prostram no leito e ali retêm.
Para que se logre prosseguir, é comum ao paciente a adoção de uma
atitude de rigidez, de determinação e desinteresse pela sua vida interna, afivelando
uma máscara ao rosto, que se apresenta patibular, e podem ser
percebidas no corpo essas decisões em forma de rigidez, falta de movimentos
harmônicos...
Ainda podemos relacionar como psicogênese de alguns estados
depressivos com impulsos suicidas, a conclusão a que o indivíduo chega,
considerando-se um fracasso na sua condição, masculina ou feminina,
determinando-se por não continuar a existência. A situação se torna mais
grave, quando se acerca de uma idade especial, 35 ou 40 anos, um pouco
mais, um pouco menos, e lhe parece que não conseguiu o que anelava, não se
havendo realizado em tal ou qual área, embora noutras se encontre muito bem.
Essa reflexão autopunitiva dá gênese a estado depressivo com indução ao
suicídio.
Esse sentimento de fracasso, de impossibilidade de êxito pode, também,
originar-se em alguma agressão ou rejeição na infância, por parte do pai ou da
mãe, criando uma negação pelo corpo ou por si mesmo, e, quando de causa
sexual, perturbando completamente o amadurecimento e a expressão da libido.
Nesse capítulo, anotamos a forte incidência de fenômenos obsessivos, que
podem desencadear o processo depressivo, abrindo espaço para o suicídio, ou
se fixando, a partir do transtorno psicótiço, direcionando o paciente para a
etapa trágica da autodestruição.
Seja, porém, qual for a gênese desses distúrbios, é de relevante
importância para o enfermo considerar que não é doente, mas que se encontra
em fase de doença, trabalhando-se sem autocomiseração, nem autopunição
para reencontrar os objetivos da existência. Sem o esforço pessoal, mui
dificilmente será encontrada uma fórmula ideal para o reequilíbrio, mesmo que
sob a terapia de neurolépticos.
O encontro com a consciência, através de avaliação das possibilidades
que se desenham para o ser, no seu processo evolutivo, tem valor primacial,
porque liberta-o da fixação da idéia depressiva, da autocompaixão, facultando
campo para a renovação mental e a ação construtora.
Sem dúvida, uma bem orientada disciplina de movimentos corporais,
revitalizando os anéis e proporcionando estímulos físicos, contribui de forma
valiosa para a libertação dos miasmas que intoxicam os centros de força.
Naturalmente, quando o processo se instala —nostalgia que conduz à
depressão — a terapia bioenergética (Reich, como também a espírita), a
logoterapia (Viktor Frankl), ou conforme se apresentem as síndromes, o
concurso do psicoterapeuta especializado, bem como de um grupo de ajuda,
se fazem indispensáveis.
A eleição do recurso terapêutico deve ser feita pelo paciente, se dispuser
da necessária lucidez para tanto, ou a dos familiares, com melhor juízo, a fim
de evitar danos compreensíveis, os quais, ocorrendo, geram mais
complexidades e dificuldades de recuperação.
Seja, no entanto, qual for a problemática nessa área, a criação de uma
psicosfera saudável em torno do paciente, a mudança de fatores psicossociais
no lar e mesmo no ambiente de trabalho constituem valiosos recursos para a
reconquista da saúde mental e emocional.
O homem é a medida dos seus esforços e lutas interiores para o
autocrescimento, para a aquisição das paisagens emocionais.