domingo, 2 de setembro de 2012

O ADOLESCENTE, O AMOR E A PAIXÃO

Período de exuberância hormonal, a adolescência se caracteriza pelos
impulsos e desmandos da emotividade. Confundem-se as emoções, e todo o
ser é um conjunto de sensações desordenadas, num turbilhão de impressões
que aturdem o jovem. Irrompem, naturalmente, os desejos da sensualidade, e
se confundem os sentimentos, por falta da capacidade de discernir gozo e
plenitude, êxtase sexual e harmonia interior.
É nessa fase que se apresentam as paixões avassaladoras e
irresponsáveis que desajustam e alucinam, gerando problemas psicológicos e
sociais muito graves, quando não são controladas e orientadas no sentido da
superação dos desejos carnais.
Subitamente o jovem descobre interesses novos em relação a outro,
àquele com quem convive e nunca antes experimentara nada de original, que
se diferenciasse da fraternidade, da amizade sem compromisso. A libido se lhe
impõe e propele-o a relacionamentos apressados quão ardorosos, que logo se
esfumam. Quando não atendida, por circunstâncias violentas, dá surgimento a
estados depressivos, que podem perturbar profundamente o adolescente, que
passa a cultivar o pessimismo e a angústia, derrapando em desajustes
psicológicos de curso demorado.
O ideal, nesse momento, é a canalização dessa força criadora para as
experiências da arte, do trabalho, do estudo, da pesquisa, que a transformam
em energia superior, potencializada pela beleza e pelo equilíbrio. Nesse
sentido, deve-se recorrer aos desportos, à ginástica, às caminhadas e
atividades ecológicas que, além de úteis à comunidade, também gastam o
excesso hormonal, tanto físico quanto psíquico.
As licenças morais da atualidade e os veículos de comunicação
pervertidos contribuem para um amadurecimento precoce, indevido, e a
irrupção da libido, em razão das provocações audio-visuais, das conversações
insanas, que têm sempre por base o sexo em detrimento da sexualidade, do
conjunto de valores que se expressam na personalidade, leva os jovens
imaturos a relacionamentos inoportunos, por curiosidade ou precipitação,
impondo-lhes falsas necessidades, que passam a atormentá-los, seviciando-os
emocionalmente, ou empurrando-os para os mecanismos exaustivos da autosatisfação,
com desajustes da função sexual em si mesma agredida e
mentalmente mal direcionada.
O amor, na adolescência, é um sentimento de posse, que se apresenta
como necessidade de submeter o outro à sua vontade, para que sejam
atendidos os caprichos da mais variada ordem. Por imaturidade emocional,
nessa fase, não se tem condições de experimentar as delícias do respeito aos
direitos do outro a quem se diz amar, antes impondo sua forma de ser; não há
capacidade para renunciar em favor daquele a quem se direciona o afeto, mas
se deseja receber sempre sem a preocupação da retribuição iúevitável, que é o
sustentáculo basilar do amor.
O amor real é expressão de maturidade, de firmeza de caráter, de
coerência, de consciência de responsabilidade, que trabalham em favor dos
envolvidos no sentimento que energiza, enriquecendo de aspirações pelo bom,
pelo belo, pela felicidade. Envolve-se em ternura e não agride, sempre disposto
a ceder, desde que do ato resulte o bem-estar para o ser amado. Rareia, como
é natural, no período juvenil, que o tempo somente consolida mediante as
experiências dos relacionamentos bem sucedidos.
Há jovens capazes de amar em profundidade, sem dúvida, por serem
Espíritos experientes nas lutas evolutivas, encontrando-se em corpos novos,
em desenvolvimento, porém investidos da capacidade vigorosa de sentir e
entender.
Celebrizaram-se, na História, os amores-lendários de Romeu e Julieta,
terminando em tragédia, em razão da imaturidade dos enamorados. Enquanto
eles se entregaram ao autocídio inditoso, surgem as imagens alcandoradas da
ternura de Dante e Beatriz, de Abelardo e Heloísa, amadurecidos pela própria
vida e dispostos à renúncia, desde que redundando em felicidade do outro.
O amor produz encantamento e adorna a alma de beleza, vitalizando o
corpo de hormônios específicos, porém oferecendo capacidade de sacrifícios
inimagináveis.
Maria de Madalena, jovem pervertida e enferma da alma, encontra Jesus
e O ama, tocada nos sentimentos nobres que estavam asfixiados pela lama
das paixões servis, levantando-se para a dignificação pessoal.
Saulo de Tarso, ainda jovem, perseguidor inclemente dos homens do
caminho, encontra Jesus e enternece-se, deixando-se dominar pela Sua
presença e dá-se-Lhe até o holocausto.
Mais de um milhão de vidas, que foram tocadas pelo Seu amor,
facultaram-se banir, ultrajar, morrer, sem qualquer reação, confiantes na
compensação afetiva que deflui do amor, e que experimentavam.
Não somente o amor na sua feição espiritual, mas também o maternal, o
fraternal, o sexual, quando não tem por meta somente o relacionamento célere,
mas sim, a convivência agradável e vitalizadora que se converte em razão da
própria vida.
A paixão é como labareda que arde, devora e se consome a si mesma
pela falta de combustível. O amor é a doce presença da alegria, que envolve as
criaturas em harmonias luarizantes e duradouras. Enquanto uma termina sem
deixar saudades, o outro prossegue sem abrir lacunas, mesmo quando as
circunstâncias não facultam a presença física. A primeira é arrebatadora e
breve; o segundo é confortador e permanente.
Desse modo, explodem muitas paixões na adolescência, e poucas vezes
nasce o amor que irá definir os rumos afetivos do jovem.
É nesse período que, muitos compromissos se firmam, sem estrutura para
o prosseguimento, para os desafios, para o futuro, quando as aspirações se
modificam por imperativo da própria idade e os quadros de valores se
apresentam alterados. Tais uniões, nessa fase de paixões, tendem ao
fracasso, se por acaso não forem assentadas em bases de segurança bem
equilibradas. Passado o fogo dos desejos, termina a união, acaba o amor, que
afinal jamais existiu...
É indispensável que, no período juvenil, todos se permitam orientar pela
experiência e maturidade dos pais e mestres, a fim de transitar com segurança,
não assumindo compromissos para os quais ainda não possui resistência
psicológica, moral, existencial.
Cabe, portanto, ao adolescente, a submissão dinâmica, isto é, a aceitação
consciente das diretrizes e roteiros que lhes são apresentados pelos genitores,
no lar, pelos educadores, na Escola, a fim de seguirem sem deixar marcas na
retaguarda.
A disciplina sexual, nessa ocasião, contribui muito para equilibrar as
emoções e dinamizar as experiências físicas, dando resistência para enfrentar
os apelos das paixões traumatizantes que surgem com freqüência no curso da
vida.
A paixão, na adolescência, quando cultivada no silêncio da timidez,
transforma-se em verdugo caprichoso que dilacera por dentro, conduzindo a
sua vítima a estados patológicos muito graves, de onde podem nascer
manifestações psicóticas portadoras de tendências criminosas e perversas.
Realizar a catarse das paixões, comunicando-se com todos e vivendo
fraternalmente, em clima de legítima amizade, abre campo para as
manifestações da afetividade sadia, que se converte em amor, à medida que
transcorre o tempo e a pessoa adquire compreensão e discernimento a
respeito dos objetivos essenciais da sua reencarnação.