domingo, 13 de janeiro de 2013

DESPERSONALIZAÇÃO

O ser humano, embora antropologicamente seja portador de uma herança
animal, é, antes de tudo, um Espírito, com possibilidades inimagináveis, que se
lhe encontram em germe, e que à educação cumpre o mister de despertar e
desenvolver.
Em razão da sua realidade transpessoal, a finalidade da sua existência é
crescer, alcançando os patamares que lhe estão reservados, por fatalidade
evolutiva. No entanto, face à sua natureza animal, que não poucas vezes
desconhece ou que lhe dá predominância, aturde-se, sem saber como avançar.
Se não valoriza a condição na qual se encontra — as exigências do corpo
— faz-se um autômato, porque lhe cumpre vivê-las, educando-as, superando
os impulsos dos instintos básicos, para desenvolver os valores espirituais
latentes.
Vencendo, a pouco e pouco, os automatismos psicológicos, que vão

sendo orientados pelo senso crítico e pela razão, deve conduzir o corpo sem
paixão, nem escravidão, realizando-se física e emocionalmente.
O corpo, como é natural, impõe inúmeros anseios e necessidades, que
fazem parte da sua constituição biológica, e devem ser levados em conta, não
obstante a sua realidade espiritual ser o comando básico da existência. O ego,
por conseqüência, tem suas raízes fincadas nele, e se as mesmas são
arrancadas violentamente, corre o perigo de tornar-se esquizóide.
Faz-se necessário, portanto, que seja mantida uma inter-relação entre o
passado — animal — e o presente, a fim de que, negando o seu corpo, não se
tome um Espírito sem envoltório material, o que lhe tomaria improvável o
processo de evolução. Alterando, porém, subvertendo a natureza animal — por
falta de consideração pelo Espírito que é — transforma-se em um títere, um
demônio, que desconhece os direitos dos outros e somente cultiva o
primarismo dos instintos.
A luta travada pela cultura e pela civilização, a fim de que o corpo seja
superado, tem propiciado situá-lo em nível mais elevado, em razão do
raciocínio, do aprofundamento da consciência, tornando mais radioso e belo o
Espírito. Como efeito inevitável, tornou-lhe o corpo mais sensível, mais
estético, portador de sensibilidade apurada, de percepção parafísica,
alimentandoo com equilíbrio, exercendo-lhe as funções com respeito.
Sem necessidade de agredir o corpo, mediante cilícios nem considerações
deprimentes que o denigrem, vem o mesmo recebendo a consideração que
merece, face ao valor que representa no processo de elevação mental e moral
do ser.
Não obstante esse reconhecimento, vários fatores se apresentam como
responsáveis pela despersonalização, tais como os sentimentos de terror, de
culpa, que produzem a inibição respiratória e a dos movimentos, enjaulando o
paciente nas celas escuras e sem paredes dos conflitos.
Essa conduta produz sensações indescritíveis, que o organismo procura
vencer através da morte da sua realidade. O corpo, então, enrijece, a
respiração faz-se com dificuldade e a falta de oxigênio no organismo produz
males psicológicos e físicos variados.
A autopercepção é profundamente afetada e os pacientes passam a sofrer
emocionalmente sensações de difícil catalogação, que os levam ao desespero.
O eminente Eugen Bleuler, analisando a despersonalização que afeta os
indivíduos incursos nessa distorção, considera que os sofrimentos creditados
àqueles que lhe são vítimas, variam desde surras e queimaduras, a espetadas
com agulhas, lâminas e punhais em brasa viva; amputações de membros, o
semblante deformado... e suplícios indescritíveis são experimentados em um
clima de horror crescente, que mais piora a patologia da personalidade.
A ausência de sentimentos responde por esses efeitos, tendo-se em vista
que o paciente matou o corpo, em mecanismo psicológico inconsciente, para
fugir dos sintomas anteriores produzidos pelo terror. Concomitantemente, o
portador de esquizofrenia, porque destituído da capacidade de direcionar os
sentimentos, tomba no vazio da sua própria realidade.
O indivíduo saudável é aquele que orienta as emoções organizadamente,
lutando contra os obstáculos que se lhe apresentam, e que são parte do
processo no qual se encontra mergulhado, o que mais lhe desenvolve a
capacidade de crescimento e de armazenamento de conhecimentos.
Esse terror, gerador do grave mal, está quase sempre vinculado a
condutas vivenciadas na infância, quando se foi vítima da negligência ou da
crueldade de pais insensíveis, que promoveram cenas aterradoras e perversas,
que o paciente atual associou inconscientemente aos fenômenos desafiadores
da atualidade.
Comportamentos sexuais promíscuos dos adultos, sob a observação
infantil ignorante, expressões agressivas e temerárias, que não puderam ser
absorvidas nem superadas pela criança, tormentos decorrentes de agressões
físicas e morais destituídas de compaixão e respeito, não podendo ser
liberadas, por associação conduzem a vítima ao estado de despersonalização.
O corpo passa a ser detestado, e a falta de um conceito como de uma
imagem corporal saudável, empurra-o para o atendimento dos impulsos
sexuais mais primários e de maneira promíscua.
Quando o corpo, porém, é recuperado pelo discernimento, e toma-se
aceito, ganhando vida e significado, modifica-se-lhe o comportamento sexual
para melhor, equilibra-se-lhe a conduta emocional, fácilitase-lhe a aspiração da
busca do amor e do afeto, pela necessidade de relacionamento estimulador e
prazenteiro.
Muitas vezes, também, os pais, inadvertida ou conscientemente, passam a
nutrir pelo descendente, um sentimento apaixonado, no qual está oculto o
desejo de um relacionamento sexual perverso, anulando-lhe a natural
constituição da personalidade, que se deveria ir firmando a pouco e pouco de
forma correta.
Essas condutas estranhas e esdrúxulas de muitos pais, com
características incestuosas, refletem os seus próprios conflitos e perturbações,
que os não auxiliaram no desenvolvimento de um comportamento pessoal
saudável, tanto quanto de um desenvolvimento sexual harmônico.
Aturdidos e viciados mentalmente, vêm nos filhos somente objetos para o
autoprazer, preservando a sua personalidade incompleta e insatisfeita interiormente.
A reconquista da personalidade, no entanto, épossível, mediante a
recuperação dos movimentos e da respiração, por meio de exercícios de
reflexão e auto-análise, eliminando as associações negativas e buscando-se,
racionalmente direcionar a ocorrência dentro do quadro de valores que possui,
sem superestima, nem mecanismo traumatizante.
A aquisição da personalidade equilibrada está no relativismo do ego para
com o Self, nas aspirações do corpo para com as da mente, no processo de
busca de valores e de vivências geradores de alegria e portadores de paz.
Dentro do quadro da psicogênese da despersonalização, é-nos possível
também adir, que muitos aspectos desse terror procedem de vivências em
outras experiências carnais, passadas, que imprimiram suas marcas tão
profundamente, que somente na juventude e na idade adulta o inconsciente
consegue liberar em forma de clichês e recordações que passam a confundir e
a atormentar, aprisionando os seus agentes nesses cárceres da respiração
insuficiente e dos movimentos paralisados.
Todos os fatos que são praticados pela crueldade, pela insensatez e
vilania, mesmo quando ocorre o fenômeno biológico da morte, não
desaparecem, porque os danos morais continuam gerando conseqüências, até
que o seu causador se recupere e reorganize a paisagem moral afetada.
Conhecendo a própria debilidade, e consciente do abuso perpetrado, o ser
transfere de uma para outra experiência carnal a carga das responsabilidades,
sendo compulsoriamente convidado à regularização. Essas reminiscências
emergem como consciência culpada, terrores sem próxima justa causa,
ansiedade, atitudes autopunitivas e autodestrutivas, que lhe alteram o
comportamento pessoal, modificando, totalmente a personalidade que fica
marcada.
Quanto mais se consiga autoconscientização das responsabilidades para
com o corpo e para com o Espírito, mais facilmente se fazem a luta pela
preservação da saúde física e mental, e as experiências propiciadoras do
progresso moral e cultural, que contribuem para a existência realmente feliz.