A ESTAÇÃO DOS QUE FICAM***

 

No coração de uma cidade pequena, onde os dias pareciam sempre iguais e as manhãs vinham com cheiro de pão fresco e saudade antiga, havia uma velha estação de trem.

Ela não era mais usada. Os trens já não passavam ali há décadas. Mas toda sexta-feira, ao entardecer, uma mulher aparecia e sentava-se no mesmo banco de madeira, carregando um buquê de flores do campo e um olhar que parecia esperar por algo impossível.

Seu nome era Dona Iolanda. Tinha cabelos brancos como nuvem e mãos que tremiam como folhas ao vento. Ninguém sabia exatamente por que ela ia até lá. Diziam que esperava alguém que prometeu voltar. Outros diziam que era apenas rotina de uma senhora solitária.

Mas ninguém perguntava. Porque havia certa reverência naquele silêncio.

O MENINO DO JARDIM

Numa dessas sextas-feiras, Tomás, um menino de 10 anos, que morava perto e adorava andar de bicicleta, parou curioso ao vê-la ali, tão parada, tão imóvel, como parte da paisagem.

No começo, só a observava de longe. Depois, começou a sentar num banco mais afastado. Até que um dia criou coragem e perguntou:

— A senhora está esperando alguém?

Dona Iolanda olhou para ele, sorriu de leve, e respondeu:

— Sempre. Mas às vezes, a gente espera mais por dentro do que por fora.

Tomás não entendeu. Mas sentiu que aquela frase tinha peso. E ficou.

OS DIAS EM QUE NADA ACONTECIA — E TUDO MUDAVA

Sexta após sexta, eles se encontravam ali. Não falavam muito. Às vezes, ele levava um quebra-cabeça. Outras vezes, ela levava pão de queijo. E, aos poucos, aquela estação que só tinha eco começou a ganhar vida: risos baixos, migalhas de pão, histórias trocadas aos pedaços.

Tomás contava sobre os pais que brigavam muito. Sobre a vontade de fugir. Sobre como às vezes se sentia invisível.

Dona Iolanda apenas ouvia. E no fim, sempre dizia:

— Ninguém é invisível quando alguém espera por você.

O TREM QUE NÃO CHEGAVA

Um dia, Tomás chegou correndo, suado, com um desenho nas mãos: era um trem gigante, colorido, chegando à estação. Ele escreveu embaixo:

“Talvez o que a gente espera não seja uma pessoa. Mas um recomeço.”

Dona Iolanda ficou em silêncio por alguns segundos. Depois riu. E disse:

— Então você entendeu. Antes mesmo de mim.

O ADEUS SEM LÁGRIMAS

Na sexta seguinte, ela não apareceu. Nem na outra. Nem na outra.

Tomás, preocupado, foi procurá-la. Descobriu que Dona Iolanda havia partido — tranquila, dormindo. No criado-mudo dela havia um bilhete com seu nome, escrito com letra tremida:

“Você foi o trem que chegou.

Obrigada por me lembrar que ainda valia a pena esperar.”

O NOVO GUARDIÃO DA ESTAÇÃO

Hoje, Tomás é adulto. Mas toda sexta-feira, ainda volta à estação. Leva pão de queijo e às vezes algum desenho feito pelos filhos. Ensina que esperar nem sempre é sobre o que falta. Às vezes, é sobre dar tempo ao que está nascendo.

E aquela estação velha, onde os trens pararam de passar, virou um pequeno ponto turístico chamado:

“A Estação dos Que Ficam” — onde o tempo para, o silêncio fala e os encontros curam.


Denise Galvão

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