A viagem era simples. Um fim de semana no interior para visitar a avó doente. Nada de especial. Só mais uma ida e volta no velho ônibus da viação Confiança, que partia às 6h45 da rodoviária.
Clara sentou-se na janela da poltrona 17. Fones no ouvido, livro no colo, coração apressado. Estava tão focada em seus próprios pensamentos que nem percebeu quando a senhora da poltrona ao lado chegou. Até que ouviu uma voz suave, quase tímida:
— Desculpa, querida. Esse assento é o 18?
Clara tirou os fones e sorriu. Ajudou com a bolsa e se ajeitou.
A mulher devia ter uns 70 e poucos anos. Elegante, mas sem ostentação. Vestia um casaquinho lilás e tinha os olhos de quem já viu muito — e calou mais ainda.
O ônibus partiu. Alguns minutos de silêncio. E então, como se algo dentro dela pedisse pra ser ouvido, a senhora falou:
— Você vai visitar alguém?
Clara respondeu com um aceno afirmativo. E devolveu a pergunta:
— E a senhora, vai pra onde?
A resposta veio com um suspiro:
— Pra lugar nenhum… ou pra qualquer lugar. Tanto faz.
Clara franziu o cenho, curiosa.
— Depois que meu marido se foi, a casa ficou... grande demais. E o silêncio, pesado. Então de vez em quando eu viajo. Escolho um destino qualquer. Gosto de ouvir pessoas contando suas histórias. Faz com que a minha pareça menos... esquecida.
Fez uma pausa. Depois riu:
— Parece estranho, eu sei. Mas nessas viagens, às vezes encontro alguém que me faz companhia por alguns quilômetros. E isso já é suficiente pra aquecer um pouco o coração.
Clara sorriu. Guardou o livro. Tirou os fones. E começaram a conversar.
Falaram sobre tudo: infância, sabores preferidos, o cheiro da terra molhada, o medo de perder quem se ama, a beleza dos detalhes que passam despercebidos. A senhora se chamava Noêmia. Gostava de orquídeas, adorava bolos simples e tinha um neto que nunca mais voltou pra casa depois de uma briga boba. E Clara? Descobriu que, mesmo jovem, também andava se sentindo sozinha.
A viagem de duas horas passou como um suspiro.
Quando o ônibus chegou ao destino de Clara, ela hesitou. E então disse:
— A senhora quer tomar um café comigo? Lá na casa da minha avó sempre sobra bolo… e histórias.
Dona Noêmia ficou em silêncio por um segundo. Depois, seus olhos se encheram de algo bonito.
— Eu adoraria.
Naquele dia, duas solidões se encontraram por acaso.
E fizeram companhia uma à outra.
Porque às vezes, o que parece um simples assento no ônibus...
É, na verdade, o ponto de partida de uma conexão que o mundo inteiro estava esperando acontecer.
✍️ Texto copiado da web.

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