A lenda do O Homem que Plantava Relógios *****

 

Na última rua de uma vila norueguesa encolhida entre o mar e os fiordes, havia uma casa de madeira envelhecida, de pintura desbotada e janelas sempre abertas. Era ali que morava Erik, um homem de idade incerta, cabelos prateados e olhos de quem já tinha visto o tempo em todas as suas formas: rápido, cruel, lento, gentil.

O que o tornava figura de conversa nos cafés e feiras da vila, no entanto, não era sua solidão, mas seu jardim.

Erik não cultivava flores. Não criava ervas ou verduras. Em vez disso, dedicava-se a enterrar relógios. Relógios de bolso, de parede, de pulso, despertadores antigos, ponteiros sem vidro, máquinas sem corda. Enterrava-os como quem enterra uma lembrança — com cuidado, com reverência. E depois, com um velho regador azul, regava a terra como se de fato esperasse algo brotar dali.

Ao lado de cada buraco, fincava uma pequena plaquinha de metal com uma data. Algumas passadas: 23/06/1981, 04/01/1994. Outras ainda não tinham chegado.

— “Um jardim de loucura”, dizia o padeiro.

— “Ou de saudades”, arriscava a moça da papelaria.

Erik pouco respondia. Apenas sorria e dizia, sem pressa:

— “O tempo também precisa de solo pra descansar.”

As crianças, é claro, inventavam histórias. Diziam que à meia-noite os relógios falavam entre si. Que podiam voltar no tempo se deitassem sobre a terra. Mas nunca ninguém teve coragem de tentar.

Certa noite, uma tempestade caiu sobre a vila com fúria. Ventos arrancaram placas, o mar avançou um pouco além do costume, e a luz faltou por horas. Quando o sol finalmente retornou, o que se viu no jardim de Erik foi diferente.

Pequenos brotos haviam surgido onde antes havia apenas terra. Mas não eram plantas comuns. Tinham hastes finas, metálicas, algumas com engrenagens visíveis, outras com pequenos ponteiros nas extremidades. Giravam levemente, acompanhando o vento. Emitiam sons suaves, como tic-tacs tímidos, quase orgânicos.

A vila inteira se amontoou em frente à casa, fascinada. Ninguém entendia. Nem os cientistas que foram chamados dias depois, nem os jornalistas que tentaram documentar. Nada explicava.

Erik, como sempre, limitou-se a regar as novas “plantas”. E sorria.

Foi então que, num fim de tarde de céu cor de cobre, uma mulher chegou à vila. Trazia uma carta amarelada nas mãos e um mapa antigo dobrado no bolso do casaco. Seu nome era Anna.

Buscava Erik.

E o encontrou de pé no jardim, cercado de engrenagens vivas.

— “Você escreveu. Nunca enviou.” — ela disse, mostrando a carta.

Ele reconheceu o papel, e com ele, o tempo que não viveu.

Anna fora seu amor de juventude. Tinham se conhecido num trem, partido para rotas diferentes, prometido reencontros. Mas a vida, com seus descompassos e distrações, tinha os afastado. E o silêncio — esse relógio cruel — preencheu os anos entre eles.

Erik estendeu a mão sem dizer nada. Anna entrou no jardim, e enquanto caminhava, uma das plantas maiores — a que nunca havia se mexido — girou lentamente, depois rapidamente, até que sua flor dourada se abriu com um som seco, como um relógio despertando.

Marcava: 16h17.

Anna sorriu, como quem escuta uma voz antiga chamando pelo nome.

— “Era a hora do nosso trem.”

Erik riu, e pela primeira vez em muitos anos, chorou.

Sentaram-se em silêncio. Como quem enfim consegue esperar junto.

Na vila, ainda falam sobre o homem que plantava relógios. Sobre a mulher que chegou com uma carta. E sobre o jardim onde o tempo não passa nem corre — apenas floresce quando está pronto.

Alguns chamam de milagre. Outros de loucura.

Mas há quem diga, com convicção:

Foi só o tempo... voltando pra casa.


Denise Galvão


Comentários