— Moço… só me escuta um pouco? Eu só queria ser ouvido. Morri sem saber o que era ser amado. ****

 

Era por volta das 3h da madrugada quando, em meio ao silêncio da prece, Divaldo Franco percebeu uma presença sutil, como um sopro vindo de um lugar esquecido pelo mundo. Não era um vulto, nem uma visão nítida — era uma dor. Um sentimento cru, quase palpável, que atravessava os véus invisíveis com a força de quem grita em silêncio.

Aproximava-se um espírito. Não havia revolta, nem fúria em seu semblante. Apenas um cansaço antigo e um pedido tão singelo que dilacerava.

— Moço… só me escuta um pouco? Eu só queria ser ouvido. Morri sem saber o que era ser amado.

Divaldo, tomado por uma comoção profunda, sentiu como se estivesse diante de uma alma que jamais conhecera um abraço, um carinho, um “você importa”. Aquela presença não queria redenção, não pedia salvação. Queria colo.

— Fala, meu irmão… eu estou aqui, sim — respondeu com a voz embargada, como quem oferece a palavra como forma de amparo.

E ali, entre dois mundos, estabeleceu-se um instante de humanidade. O espírito, aliviado, chorava como uma criança esquecida que finalmente encontrara alguém disposto a ouvir — não para consolar, mas simplesmente para estar.

Naquele momento, Divaldo compreendeu que há dores que não se curam com o tempo… apenas com atenção. E que há espíritos — encarnados ou não — vagando entre nós à espera de algo que muitos não sabem mais dar: presença verdadeira.

O espírito, antes de partir, disse baixinho, com um sorriso frágil nos lábios:

— Obrigado por me ver. Obrigado por existir.

Quantos ao nosso redor não estão implorando, em silêncio, pelo mesmo?

Ser visto. Ser ouvido. Ser reconhecido como alguém que sente — e que merece amor.

Escutar, no fim das contas, é a forma mais pura de dizer:

"Você está vivo dentro de mim."


Diário Espírita


Comentários