“O Último Banco da Praça” ***

 

Meu nome é Daniel Moreira. Tenho setenta e quatro anos.

E, até pouco tempo atrás, eu era só mais um velho sentado no banco da praça central da cidade.

Todas as tardes, depois do almoço, eu caminhava até lá. Não era longe — cinco quadras da minha casa. Sempre o mesmo trajeto, sempre o mesmo banco, aquele debaixo do ipê.

Comecei a frequentar a praça com minha esposa, Teresa. Levávamos nossa filha pequena para brincar. Mais tarde, vínhamos sozinhos, só para conversar e ver o movimento.

Teresa partiu há quinze anos. A filha cresceu, casou-se, mudou de cidade. Eu fiquei. E o banco também.

Naquele pedaço de madeira, vi gerações de crianças correrem, casais brigarem, estudantes ensaiarem teatro, senhores jogarem dominó.

Era o meu lugar de observar a vida.

Ali também conheci meus companheiros:

— Joaquim, aposentado da Caixa, que sabia tudo de futebol.

— Dona Cida, que vendia bordados, mas ficava mais tempo contando histórias do que vendendo.

— E Mário, um viúvo recente, que ria alto para disfarçar a solidão.

Éramos conhecidos como “a turma do banco do ipê”. Quem passava sempre nos via ali.

Até que, um a um, foram partindo. Primeiro Joaquim, depois Cida, depois Mário.

De repente, fiquei sozinho.

E percebi que a praça tinha mudado. Os jovens já não paravam para conversar. O barulho agora vinha de fones de ouvido.

O banco, que antes parecia tão vivo, começou a me pesar como uma lembrança teimosa.

Um dia, vi dois rapazes tentando arrancar a placa que dizia “Praça da Liberdade”. Riam, filmavam para postar na internet.

Naquele momento, senti uma pontada no peito. Pensei:

— Se até a praça deixar de ter sentido, o que sobra?

Cheguei em casa e olhei para a foto de Teresa no aparador.

Ela parecia me dizer, como tantas vezes fez em vida:

— Vai, Daniel. Faz alguma coisa.

No dia seguinte, procurei a associação de moradores. Propus organizar rodas de conversa aos domingos. Narração de histórias, leitura de poesias, memória da cidade.

A princípio, riram de mim. Quem ia querer ouvir histórias de velho?

Mas insisti.


Denise Galvão


No primeiro domingo, apareceram três crianças e uma senhora curiosa.

No segundo, vieram dez pessoas.

No terceiro, já éramos vinte, com violão, bolo e até um estudante de História gravando depoimentos.

Hoje, a praça voltou a ser ponto de encontro. Jovens chegam para ouvir. Idosos aparecem para contar.

O banco do ipê não é mais um lugar de solidão — é de partilha.

E todas as vezes que vejo uma criança se sentar ao meu lado para ouvir uma história, sinto como se Teresa ainda estivesse ali, rindo baixinho, orgulhosa.

Não deixei herança em dinheiro.

Mas deixei um banco cheio de vida.

E, talvez, um pedacinho da cidade mais humano.

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