A família de André, os Silva, morava numa pequena cidade do interior onde o tempo parecia andar descalço. As manhãs tinham cheiro de café passado na hora, de terra úmida depois da chuva, e o silêncio era quebrado apenas pelo canto dos pássaros. João, o pai, acordava antes do sol para cuidar da lavoura. Ana, a mãe, dava aulas na escola da cidade e voltava para casa com histórias simples, mas cheias de gente.
André, aos dez anos, acreditava que o mundo terminava na cerca da fazenda. Corria pelos campos, falava com os animais como se fossem velhos amigos e conhecia cada trilha da mata próxima. A vida não era grande, nem cheia de novidades, mas era inteira. Era suficiente.
Foi numa dessas noites quietas que João e Ana conversaram em voz baixa, sentados à mesa da cozinha. O futuro de André pesava entre eles. A escola era pequena, os recursos eram poucos, e o medo de limitar os sonhos do filho crescia em silêncio. A decisão não veio fácil. Veio com lágrimas contidas, com culpa, com amor demais.
Quando contaram a André que iriam para a capital, o mundo dele rachou.
Ele não gritou. Não fez birra. Chorou daquele jeito fundo, quieto, que dói mais em quem vê do que em quem sente. Perguntou dos animais, das árvores, do rio. Perguntou se tudo aquilo ia ficar esperando por ele. João e Ana não souberam responder.
A mudança foi brusca. A casa nova parecia apertada demais para os sonhos que André carregava. O barulho nunca parava. Carros, buzinas, vozes. À noite, ele demorava a dormir, procurando estrelas que não apareciam entre os prédios. Sentia falta do cheiro da terra, do vento livre, do céu aberto.
Na escola, sentava-se no fundo da sala. Não entendia as conversas, os jogos, as piadas. Sentia-se pequeno, deslocado, como se tivesse sido arrancado de um lugar onde pertencia. Voltava para casa em silêncio e passava horas olhando pela janela, tentando imaginar a fazenda como se fosse um sonho distante.
João e Ana viam o filho se apagar um pouco a cada dia. O riso ficou raro. A curiosidade, tímida. Eles se perguntavam, em silêncio, se tinham trocado o amor pelo futuro.
Até que, numa tarde comum, algo pequeno mudou tudo.
André viu um passarinho caído no asfalto, as asas trêmulas, o olhar assustado. O mundo da cidade pareceu parar. Sem pensar, correu, protegeu o bichinho com as mãos e levou para casa. Ana ajudou a cuidar. João observava em silêncio. Pela primeira vez em semanas, André sorriu.
No dia seguinte, levou o pássaro para a escola. Falou — falou muito. Contou sobre a fazenda, sobre os animais, sobre o campo. Os colegas escutaram. Perguntaram. Se interessaram. Pela primeira vez, André não era o menino estranho. Era o menino que tinha histórias.
Aos poucos, ele foi encontrando caminhos. Descobriu um parque onde podia ouvir os pássaros cantarem. Entrou para o clube de ciências. Fez amigos que gostavam de observar, de aprender, de cuidar. A cidade deixou de ser só concreto.
André entendeu, devagar, que amar o campo não significava rejeitar o novo. Que suas raízes não o prendiam — o sustentavam.
A família Silva respirou aliviada ao ver o brilho voltar aos olhos do filho. Passaram a visitar o interior sempre que podiam. E André, agora, ia e voltava com o coração mais tranquilo.
Ele não perdeu o campo.
Ele o levou consigo.
E assim, entre lembranças e descobertas, André aprendeu que crescer não é abandonar quem fomos — é aprender a caber em mais de um lugar ao mesmo tempo.

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