Num dia frio de novembro de 1874, numa pequena aldeia da Ilha do Príncipe Edward, nasceu Lucy Maud Montgomery.
Ela ainda não sabia, mas a solidão seria a sua primeira mestra.
Maud nunca guardaria a memória da mãe. Antes de completar dois anos, a tuberculose levou Clara Montgomery. O pai, esmagado pela dor, não conseguiu ficar. Entregou a filha aos avós idosos em Cavendish, partiu para Saskatchewan, refez a vida, teve outra família. A criança que deixou para trás tornava-se, aos poucos, invisível.
Imagina essa infância:
uma fazenda isolada, o silêncio como companhia, dois avós severos, presbiterianos, mais afeitos à disciplina do que ao afeto. A imaginação vibrante de Maud batia constantemente contra paredes frias. Não havia irmãos. Não havia colo. Havia apenas espaço — e vazio.
Então ela fez o que tantas crianças solitárias fizeram ao longo da história: inventou mundos.
Falava com as árvores. Dava nomes aos caminhos. Criava amigos que a compreendiam. Transformava os campos verdes e as estradas de terra vermelha em reinos onde finalmente pertencia. Aos nove anos, começou a escrever poesia e diários, despejando no papel tudo aquilo que não encontrava eco em voz alta.
Os livros tornaram-se abrigo. E um sonho começou a insistir: ela seria escritora. Um dia, suas histórias importariam.
O caminho, porém, foi cruel.
Na adolescência, tentou viver com o pai e a madrasta em Saskatchewan. Foi rejeição em forma de casa. Sentiu-se intrusa na própria família. Voltou para a Ilha do Príncipe Edward ferida — mas decidida.
Formou-se professora, estudou literatura, aceitou empregos que detestava. O ensino pagava as contas, mas a escrita mantinha-a viva. Aos trinta anos, já tinha publicado mais de cem contos. Ainda assim, algo faltava. Ela sabia que havia uma história maior dentro de si.
Em 1905, encontrou num velho caderno uma frase quase banal:
“Um casal de idosos solicita um menino a um orfanato. Por engano, chega uma menina.”
Foi o suficiente para mudar tudo.
Maud derramou a sua infância solitária numa órfã de cabelo ruivo, sardas no rosto e imaginação indomável: Anne of Green Gables.
Deu a Anne a imaginação que a salvara. Colocou-a na ilha que fora, ao mesmo tempo, prisão e refúgio. E concedeu à personagem aquilo que ela própria tanto desejara: amor incondicional.
O manuscrito foi rejeitado repetidas vezes.
Longo demais. Feminino demais. Pouco comercial.
Desolada, Maud guardou a história numa caixa de chapéu e tentou esquecer. Durante quase dois anos, Anne ficou ali, em silêncio, enquanto a autora seguia escrevendo outras coisas. Mas algumas histórias recusam-se a morrer.
Em 1907, Maud tentou mais uma vez.
E alguém finalmente enxergou.
Em junho de 1908, o livro foi publicado. Lucy Maud Montgomery tinha 33 anos. O sucesso foi imediato e avassalador. O livro esgotou. Reimpressões sucederam-se. Leitores de todas as idades apaixonaram-se por Anne — pela sua ousadia, pela sua lealdade, pela sua insistência em encontrar beleza mesmo na dor.
Mark Twain declarou-a a criança mais adorável da ficção desde Alice.
A menina solitária de Cavendish — aquela que ninguém escolheu — tornava-se conhecida no mundo inteiro.
Montgomery escreveu oito livros de Anne, vinte romances, mais de 530 contos e cerca de 500 poemas. Casou-se, criou filhos, cuidou de um marido com depressão profunda, atravessou guerras, pandemias, lutos e injustiças editoriais. Lutou contra a própria escuridão. E, ainda assim, escreveu.
Quando morreu, em 1942, foi enterrada na ilha que a moldou para sempre.
Hoje, mais de um século depois, Anne of Green Gables nunca saiu de impressão. Foi traduzido para dezenas de idiomas, vendeu milhões de cópias e transformou a Ilha do Príncipe Edward num lugar de peregrinação literária.
Mas o verdadeiro legado de Lucy Maud Montgomery não se mede em números.
Mede-se nas gerações de leitores que se reconheceram em Anne Shirley. Naqueles que aprenderam que ser diferente não é defeito. Que imaginação não é fuga — é sobrevivência. Que a criança que fala com árvores pode, um dia, falar com o mundo.
De uma caixa de chapéu a um fenómeno global.
De uma infância abandonada a uma herança eterna.
Da dor à cura coletiva.
Lucy Maud Montgomery provou que a menina que ninguém quis podia tornar-se a escritora de que o mundo inteiro precisava.

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