Entre o Chamado e a Oração """ ***

 

O primeiro chamado para a oração ecoou sobre Istambul quando Ana fechou a janela. O som atravessava o amanhecer como um fio invisível ligando céus e homens. Ela respeitava aquele som — mesmo sendo cristã — porque fazia parte da cidade que aprendera a amar, ainda que nunca tivesse certeza se a cidade a aceitaria por completo.

Ana era armênia. Cristã. Filha de uma tradição antiga, silenciosa, resistente. Trabalhava numa pequena livraria perto do Bósforo, onde livros antigos cheiravam a poeira e memória.

Foi ali que conheceu Yusuf.

Ele entrou procurando um livro em inglês, meio perdido entre prateleiras. Tinha olhos calmos e um sorriso contido, desses que parecem pedir permissão antes de existir.

— Você pode me ajudar? — perguntou.

Ana ajudou. Depois ajudou de novo. E, sem perceber, começaram a conversar sobre tudo aquilo que não devia aproximá-los: música, solidão, fé.

— Você é cristã — disse Yusuf um dia, não como acusação, mas como constatação.

— E você é muçulmano — respondeu ela, com um sorriso triste. — Parece que o mundo gosta de complicar as coisas.

Eles riram. Mas sabiam.

O amor veio como vêm as coisas proibidas: devagar, escondido, inevitável.

Encontravam-se perto do mar, onde ninguém fazia perguntas. Yusuf falava de sua mãe, devota, orgulhosa. Ana falava da avó, que acendia velas toda noite pedindo proteção para a família. Quando se tocavam, era como atravessar uma fronteira invisível.

— Isso não pode continuar — Yusuf disse certa noite, a voz falhando. — Eu não quero te machucar.

— Nem eu — Ana respondeu. — Mas não amar você também dói.

A notícia se espalhou antes que estivessem prontos. Olhares. Silêncios. Advertências. A família dele exigia distância. A dela pedia cautela. Ninguém gritava — o que tornava tudo mais pesado.

Na noite de Natal, Ana foi à missa sozinha. As velas tremulavam como se sentissem sua dor. Ela rezou sem pedir milagres, apenas coragem.

Quando saiu da igreja, o frio cortava o rosto. E ali, do outro lado da rua, estava Yusuf.

— Eu tentei ficar longe — ele disse. — Mas percebi que Deus não nos ensina a amar para depois nos punir por isso.

Ana chorou. Pela primeira vez, sem medo.

Não foi fácil. Nunca é. Yusuf enfrentou a família. Ana defendeu seu amor com firmeza silenciosa. Conversaram com líderes religiosos, ouviram mais “não” do que “sim”. Mas também encontraram mãos estendidas onde menos esperavam.

O tempo fez o que o preconceito não conseguiu: cansou-se.

Anos depois, numa pequena casa perto do mar, Ana acendeu uma vela enquanto Yusuf estendia o tapete de oração. Não abandonaram suas fés — aprenderam a caminhar lado a lado.

No Natal, havia ceia simples. No Ramadã, respeito e espera. O amor virou ponte, não muro.

— A gente conseguiu — Ana disse, encostando a testa na dele.

— Não apesar das diferenças — Yusuf respondeu. — Mas porque escolhemos o amor todos os dias.

E ali, entre o chamado e a oração, dois mundos aprenderam a caber no mesmo coração.


Denise Galvão


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