“Eu morri ao dar à luz. Deixei três filhos e um marido em Mathura. Quero voltar para casa.” """"

 

Ela tinha apenas quatro anos quando disse, com a maior calma do mundo, à própria mãe:

“Eu morri ao dar à luz. Deixei três filhos e um marido em Mathura. Quero voltar para casa.”

A mãe paralisou. Não sabia se ria, se repreendia, se se preocupava. Crianças pequenas inventam histórias — mas não assim. Não com essa firmeza tranquila, não com esse peso de verdade.

No começo, todos trataram como imaginação. Mas Shanti Devi não tratava. Falava de Mathura como quem fala do dia anterior. Corrigia a comida da mãe. Descrevia receitas que jamais aprendera. Dizia ter tido uma loja de tecidos com o marido. Nomeava ruas, parentes, vizinhos. Falava dos filhos que dizia sentir falta — com uma saudade que não cabia numa criança.

Os pais tentaram ignorar. Depois, explicar. Depois, buscar um médico. O diagnóstico foi desconcertante: nenhuma doença, nenhum delírio. Apenas uma menina serena, lúcida, falando com naturalidade sobre uma vida que afirmava ter vivido antes.

Quando Shanti tinha sete anos, os relatos já eram tão específicos que um professor decidiu testar a história. Escreveu uma carta ao homem que ela dizia ter sido seu marido: Pandit Kedarnath Chaube, de Mathura.

A resposta abalou a todos.

Sim, o homem existia.

Sim, tinha uma loja de roupas.

Sim, sua esposa, Lugdi Devi, havia morrido no parto nove anos antes — exatamente na época em que Shanti nascera.

Ainda assim, poderia ser coincidência. Ou assim Kedarnath quis acreditar.

Ele enviou um primo a Déli, pedindo que fingisse ser ele. Se a menina estivesse mentindo, cairia na armadilha.

Não caiu.

“Você não é meu marido”, disse assim que o viu. “Você é o primo dele. Costumava nos visitar.”

O homem saiu dali visivelmente abalado.

Então Kedarnath foi pessoalmente, sem avisar. Quando Shanti o viu, correu em sua direção — e parou no meio do caminho, subitamente tímida, como uma esposa que se lembrasse, de repente, de que agora estava diante dele no corpo de uma criança.

Falou baixo. Disse coisas que só a primeira esposa poderia saber. Preparou pratos exatamente como Lugdi fazia. Recordou conversas íntimas, detalhes domésticos mínimos — nada que pudesse ter sido contado.

E então revelou o que mais o desconcertou:

“O dinheiro que você encontrou não era tudo. O resto ainda está escondido sob o chão. E minhas joias estão dentro do pote de latão, no fundo do armário.”

Ele jamais contara isso a ninguém.

E sim — tudo estava exatamente onde ela dissera.

Em 1935, formou-se um comitê oficial para investigar o caso. Não eram místicos nem charlatães. Eram advogados, jornalistas, acadêmicos, figuras públicas respeitadas. Não buscavam provar a reencarnação, apenas verificar se havia fraude, sugestão ou encenação.

Levaram Shanti a Mathura.

Ela nunca havia estado ali nesta vida — mas desceu do trem como quem volta para casa. Guiou o grupo por vielas estreitas. Apontou marcos, lojas, esquinas. Parou diante de uma porta e disse: “Foi aqui que eu vivi.” E era.

Dentro da casa, caminhou pelos cômodos, dizendo onde cada filho dormia. Reclamou que as paredes haviam mudado de cor. Indicou o quarto onde afirmava ter morrido.

Então Kedarnath trouxe os filhos — agora adolescentes, mais velhos que Shanti. Ela os reconheceu de imediato. Chamou-os por apelidos de infância. Lembrou doenças, brincadeiras, gostos.

Testemunhas escreveram depois que os jovens a olhavam em silêncio, atônitos. Era impossível não sentir que algo semelhante a um reencontro atravessava o tempo.

O comitê ouviu dezenas de pessoas. Testou, provocou, tentou confundir. Procurou falhas. Não encontrou nenhuma capaz de explicar o caso de forma racional.

O relatório, publicado em 1936, foi direto: não havia explicação plausível para o conhecimento daquela menina.

Shanti Devi cresceu longe dos holofotes. Nunca buscou fama, nem dinheiro. Jamais desmentiu o que dissera na infância. Nunca se casou. Dizia apenas que já fora casada uma vez — e que isso bastava.

Morreu em 1987, sustentando até o fim que suas memórias eram reais.

Céticos ainda debatem. Crentes continuam citando o caso como um dos mais fortes registros de reencarnação. Historiadores lembram que nenhuma investigação posterior conseguiu desmontar o mistério.

O fato permanece:

Uma criança descreveu uma vida em outra cidade, nomeou pessoas que nunca conhecera, revelou segredos que só uma mulher morta poderia saber — e, quando seguiram suas palavras, tudo se confirmou.

Alguns mistérios não oferecem respostas.

Apenas perguntas.

E aquela sensação inquietante de que a realidade pode ser maior — e mais profunda — do que estamos preparados para compreender.


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