Nunca é tarde demais para se tornar aquilo que o mundo negou a você """"

 

Ele não gostava de barulho. Nem de brinquedos espalhados.

Nem de perguntas sem resposta exata.

Seu Aníbal, sessenta anos, vivia numa casa organizada demais para alguém que morava sozinho. Cada objeto tinha um lugar fixo, como se a ordem fosse uma forma de impedir que o mundo desandasse. Cresceu ouvindo que carinho amolece o homem, que choro é desperdício de tempo e que criança aprende com rigidez.

Aprendeu.

E pagou o preço.

Aposentado, passava os dias entre o quintal varrido e a televisão ligada num volume baixo. Não recebia visitas. Não fazia falta a ninguém — pelo menos era isso que acreditava.

A ideia de adotar um menino nunca tinha passado pela cabeça dele. Veio de fora, como quase tudo que muda a vida da gente.

A assistente social apareceu com um pedido simples demais pra parecer importante:

— O senhor aceitaria acolher temporariamente uma criança? Só até encontrarmos uma família definitiva.

Aníbal disse não. Depois disse talvez. Depois ficou em silêncio tempo demais. No fim, concordou com a cabeça, como quem assina um documento sem ler.

Lucas chegou numa sexta-feira com uma mochila velha, um tênis de cadarço desigual e energia suficiente pra acender a casa inteira. Falava rápido, ria alto, corria sem aviso. Trazia dentro de si um motor que não desligava nunca.

No primeiro dia, derrubou um copo.

No segundo, espalhou brinquedos pela sala.

No terceiro, perguntou:

— O senhor não brincava quando era pequeno?

Aníbal não respondeu. Nunca tinha brincado. Não daquela forma.

As regras foram estabelecidas cedo: horários, silêncio à noite, nada de correr dentro de casa. Lucas tentou obedecer, mas o corpo dele parecia não saber ficar parado. Era como pedir ao vento que sentasse.

Vieram os conflitos. Gritos. Portas batidas. Um desenho rasgado sem querer que virou motivo pra choro. Aníbal ameaçou desistir. Pensou que aquilo era grande demais pra um homem que já tinha vivido tudo o que precisava.

Mas algo começou a mudar nos detalhes.

Lucas puxava a cadeira pra perto dele no café.

Esperava Aníbal chegar do mercado pra mostrar uma figurinha nova.

E, toda noite, perguntava:

— O senhor vai me mandar embora amanhã?

Como se o abandono fosse sempre uma possibilidade.

Certa tarde, Aníbal encontrou Lucas no quintal, tentando empinar uma pipa feita de sacola plástica. Estava torta, feia, mas insistente — como o menino.

— Isso não vai voar — disse Aníbal, automático.

— Vai sim. É só tentar de outro jeito.

Aníbal suspirou. Tirou o paletó. Segurou a linha. Ajustou o nó. Sentiu o vento bater no rosto como não sentia há décadas.

A pipa subiu.

Lucas gritou.

Aníbal sorriu — pequeno, quase imperceptível, mas sorriu.

A partir daquele dia, começaram coisas novas: bola no quintal, histórias inventadas antes de dormir, risadas curtas que escapavam sem permissão. Aníbal descobriu que brincar não exigia talento — só presença.

Quando o processo de adoção definitiva foi mencionado, ele gelou. O medo veio forte:

E se eu não souber amar direito?

E se for tarde demais?

A assistente social foi direta:

— O senhor não precisa ser perfeito. Só constante.

Aníbal olhou para Lucas, que desenhava no chão da sala, concentrado, tranquilo — coisa rara.

— Eu fico — disse. — Se ele quiser.

Lucas não pulou. Não gritou. Apenas abraçou Aníbal com força, como quem confirma algo que já sabia.

Hoje, a casa continua organizada. Mas há brinquedos no canto. Desenhos na geladeira. Barulho aos domingos.

Aníbal ainda é rígido. Ainda aprende devagar.

Mas agora sabe algo que nunca lhe ensinaram:

Que amor não estraga ninguém.

Que brincar não diminui o homem.

E que nunca é tarde demais para se tornar aquilo que o mundo negou a você —

ou para oferecer isso a alguém que precisa.


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