O amor é a única força que a morte não consegue cortar. """"

 

Durante dois anos, Miguel sentiu um vazio no peito que remédio nenhum curava. Não era apenas saudade. Era uma intuição dolorosa, uma "corda" invisível que esticava, mas não arrebentava.

Thor, seu cão mestiço, havia sumido na enchente que levou o portão. Miguel, com seus 70 anos e pernas cansadas, revirou a cidade. Colou cartazes, rezou, chorou. Todos diziam: "Esquece, Miguel. Já morreu." Mas a alma de Miguel dizia: "Ele está me esperando."

E estava. Dois anos depois, o telefone tocou. O chip havia sido escaneado num abrigo em Recife. Thor fora encontrado. Mas o aviso foi duro: "Venha rápido. Ele está partindo."

Miguel viajou com o coração na boca. Ao entrar na sala fria do abrigo, o cenário era de cortar o coração. Thor era pele e osso. O corpo, vencido por doenças e fome, já não obedecia. Ele estava deitado, imóvel, com o olhar vidrado no nada.

Mas a espiritualidade tem seus mistérios. No momento em que Miguel pisou na sala, arrastando sua bengala, aconteceu o fenômeno. Não foi um latido. Foi uma vibração. Thor, que não se mexia há horas, ergueu a cabeça. O cheiro do dono funcionou como um bálsamo espiritual, ativando as últimas reservas de energia vital daquele corpo gasto.

Thor arrastou-se. Centímetro por centímetro. Uma força que não vinha dos músculos, mas do espírito leal que precisava cumprir sua missão: despedir-se. Ele colocou a cabeça no colo de Miguel.

Miguel chorava, acariciando o pelo ralo: — Desculpa, meu filho... eu nunca desisti de você.

Foi então que Miguel, que sempre teve a mediunidade sensível, viu.

O ambiente ao redor deles mudou. O cheiro de remédio sumiu e deu lugar a um cheiro de campo, de terra molhada. Miguel viu que, ao lado de Thor, não estavam apenas os veterinários. Havia uma entidade luminosa. Um espírito com aparência de um jovem veterinário, vestindo branco, que acariciava a cabeça de Thor com uma luz verde-esmeralda.

Thor deu um último suspiro profundo. Para os médicos, foi o fim. Mas para Miguel, foi a libertação.

Ele viu, com os olhos da alma, uma névoa prateada se desprender daquele corpo doente. E dessa névoa, surgiu a forma espiritual de Thor. Não o Thor magro e doente. Mas o Thor forte, jovem, radiante.

O espírito do cão sacudiu o "pelo" de luz, como se tivesse acabado de tomar um banho refrescante, e lambeu as lágrimas no rosto de Miguel. Miguel sentiu o calor daquela lambida na alma. E ouviu, não com os ouvidos, mas no coração, a mensagem pura que os animais transmitem: "Não chore, meu velho. A dor acabou. Eu estou livre. E vou te esperar na porta de casa, como sempre fiz."

O mentor espiritual sorriu para Miguel e guiou o espírito de Thor, que caminhava agora sem dor, em direção à luz.

Thor se foi fisicamente naquela noite. Mas no quintal de Miguel, o prato de ração continua lá. Não por loucura. Mas por respeito.

Miguel conta que, nas tardes quentes, ele ainda ouve o som das patas no piso e sente aquele peso familiar encostar na sua perna. Não é imaginação. É a prova de que os animais também têm alma, também têm seus mentores e também sobrevivem à morte.

O amor é a única força que a morte não consegue cortar. Eles não "morrem". Eles apenas se mudam para o quintal de Deus... e de vez em quando, descem para nos visitar.

Você acredita que nossos bichinhos continuam nos visitando?


Chico - Cartas de Paz e Consolação

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