O Ano em que a Mesa Não Ficou Vazia
A primeira coisa que Laura fez naquele dezembro foi guardar a toalha vermelha no fundo do armário.
Não fazia sentido estendê-la. A mesa estaria grande demais para tanta ausência.
Desde a morte da mãe, dois anos antes, o Natal tinha virado um exercício de sobrevivência. O pai, Seu Augusto, quase não falava. O irmão mais velho, Renato, não vinha mais desde a briga — uma dessas brigas que começam por dinheiro, mas terminam por coisas não ditas há décadas.
Laura ficou.
Ficou porque alguém precisava ficar.
Ficou porque sair parecia abandono demais.
Na manhã do dia 24, a casa acordou silenciosa. Nenhum cheiro de alho dourando, nenhuma música antiga tocando no rádio, nenhuma discussão boba sobre o ponto do arroz. Só o tic-tac do relógio da cozinha, insistente, quase ofensivo.
— Não precisava fazer nada — disse o pai, ao vê-la separar ingredientes. — A gente pede alguma coisa.
Laura não respondeu. Cortou cebola com mais força do que o necessário.
Ela cozinhava por teimosia. Como quem diz ao mundo: isso aqui ainda é uma casa.
Enquanto mexia a panela, lembrou-se da mãe dizendo que Natal não era sobre fartura, mas sobre ser família.
Às quatro da tarde, o celular de Laura vibrou.
Renato.
Ela deixou tocar até cair na caixa postal. O peito apertou — não de raiva, mas de cansaço. Não sabia mais como falar com o irmão sem que tudo acabasse em silêncio de novo.
Às seis, o céu escureceu cedo demais. Seu Augusto sentou-se na sala, olhando para a TV desligada.
— Ele não vem, né? — perguntou, sem olhar para ela.
Laura respirou fundo.
— Não sei, pai.
Era mentira. Ela sabia. Mas às vezes a mentira é só um curativo improvisado.
Às sete e meia, a mesa estava posta para três. Pratos que não seriam usados. Talheres alinhados por hábito, não por esperança.
Laura estendeu a toalha vermelha.
O pai percebeu.
— Achei que você tinha guardado.
— Eu tirei de novo.
Ele não comentou. Apenas passou a mão pelo tecido, como quem reconhece algo familiar depois de muito tempo.
Às oito em ponto, a campainha tocou.
Os dois se entreolharam. Um segundo longo demais.
Laura abriu a porta.
Renato estava ali. Mais magro. Mais cansado. Segurava uma sacola simples, sem embrulho.
— Oi — disse, com a voz insegura de quem não sabe se é bem-vindo.
Laura não sorriu. Não chorou. Apenas abriu espaço.
— Entra.
Na sala, Seu Augusto levantou devagar. Os olhos marejaram antes mesmo de qualquer palavra.
— Pai…
Não houve abraço imediato. Houve silêncio. Um desses que carregam anos.
— A comida tá quase pronta — disse Laura, prática demais para quem estava por dentro um caos.
Sentaram-se à mesa.
O primeiro minuto foi desconfortável. O segundo, pesado. No terceiro, Renato falou:
— Eu devia ter vindo antes.
O pai assentiu.
— Devia.
Sem acusações. Sem discursos. Só verdade.
Renato respirou fundo.
— Eu senti medo. Medo de encarar tudo sem a mãe. Medo de admitir que eu errei. Aí eu fui adiando… e quando vi, já tinha virado distância demais.
Laura largou os talheres. As mãos tremiam.
— Você faz ideia de quanto tempo eu esperei essa conversa?
Renato a encarou.
— Muito tempo, eu sei!
Ela assentiu. Chorando.
Seu Augusto limpou os olhos com o guardanapo.
— Sua mãe teria brigado com nós três agora — disse, quase sorrindo. — E depois mandado a gente comer antes que esfriasse.
Eles riram. Um riso quebrado, imperfeito — mas real.
Comeram devagar. Falaram pouco. Mas ficaram.
E isso bastou.
Mais tarde, já perto da meia-noite, Renato tirou da sacola uma foto antiga. Os três, mais jovens. A mãe no meio, rindo.
— Eu encontrei isso hoje — disse. — Achei que devia voltar pra casa com ela.
Laura pegou a foto. Sentiu um calor estranho no peito. Não alegria. Não exatamente. Algo mais próximo de alívio.
Naquela noite, a mesa não estava cheia de comida sofisticada.
Mas estava cheia de gente, finalmente felizes.
E, pela primeira vez em muito tempo, Laura dormiu sem aquela sensação de vigília constante — como se finalmente pudesse descansar, sabendo que a casa ainda respirava.
O Natal não consertou tudo.
Mas devolveu o essencial.

Comentários
Postar um comentário