Viper, Kentucky. 1922.
Uma menina nasceu em uma família sem eletricidade, sem água encanada e com quatorze crianças para alimentar. Seu nome era Jean Ritchie, e ela estava prestes a se tornar uma das figuras mais importantes da história da música folk americana.
A maioria das pessoas nunca ouviu falar dela.
Mas se você já escutou Bob Dylan, Joan Baez ou Johnny Cash, então já ouviu a influência de Jean Ritchie.
Jean cresceu nas Montanhas Cumberland, em uma comunidade onde cantar não era entretenimento. Era sobrevivência.
Quando a família trabalhava, cantava canções de trabalho.
Quando rezava, cantava hinos.
Quando se reunia à noite na varanda — o único “palco” que Jean conheceu na infância — cantava baladas que haviam viajado da Escócia e da Irlanda séculos antes, transmitidas de geração em geração apenas pela memória.
Sem gravações.
Sem partituras.
Apenas vozes carregando músicas através do tempo.
A família Ritchie era considerada uma das duas grandes famílias de baladas do Kentucky, celebradas por estudiosos do folclore. Mas Jean não sabia disso enquanto crescia. Ela só sabia que, quando seu pai, Balis Ritchie, tocava o dulcimer, baladas inteiras fluíam de seus dedos — canções que ele cantava em silêncio na mente enquanto o instrumento falava por ele.
O pai proibia os filhos de tocar seu dulcimer. Jean tinha cinco anos quando o desafiou e aprendeu a tocar escondida. Quando ele finalmente descobriu, ela já dominava o instrumento. Chamou-a de “musicista nata”.
O que ele não sabia é que Jean também estava memorizando cada canção que ouvia.
Trezentas delas.
Baladas como “Lord Barnard” e “Barbara Allen”, datadas da Idade Média britânica. Canções que não existiam em nenhum outro lugar do mundo além da memória das famílias das montanhas do Kentucky.
E essas famílias estavam envelhecendo.
As canções estavam morrendo com elas.
Em 1917 — cinco anos antes de Jean nascer — o coletor britânico de música folclórica Cecil Sharp visitou as Montanhas Cumberland em busca de baladas antigas. Gravou as irmãs mais velhas de Jean cantando versões que o deixaram atônito: variantes de canções britânicas centenárias que haviam sido preservadas de forma extraordinária nas comunidades isoladas dos Apalaches, enquanto na própria Grã-Bretanha haviam se transformado ou desaparecido.
Sharp chamou a família Ritchie de um tesouro.
E foi embora.
Na década de 1930, quando Jean crescia, o mundo exterior mudava rapidamente. O rádio se espalhava. Jovens deixavam as montanhas rumo às cidades. As velhas canções eram esquecidas, substituídas por músicas populares vindas de fora.
Jean viu parentes idosos morrerem levando suas músicas com eles.
Versos inteiros.
Melodias completas.
Desaparecendo para sempre quando seus corações paravam.
Ela entendeu algo que definiria sua vida:
se ela não preservasse aquelas canções, ninguém o faria.
Em 1946, Jean formou-se Phi Beta Kappa na Universidade do Kentucky em serviço social — um feito extraordinário para uma jovem criada sem eletricidade. Ela poderia ter sido qualquer coisa.
Escolheu salvar a música.
Mudou-se para Nova York e passou a trabalhar no Henry Street Settlement, ensinando música a crianças no Lower East Side de Manhattan. Começou com as canções de casa — as baladas que sua família cantava havia gerações.
Folcloristas nova-iorquinos não acreditavam no que ouviam.
Jean Ritchie não interpretava versões modernas de canções folclóricas. Ela cantava as canções reais, exatamente como haviam sido cantadas por séculos, com uma voz clara, aguda e melancólica que parecia vir de outro tempo.
Alan Lomax, o lendário folclorista, ouviu-a e imediatamente começou a gravá-la para a Biblioteca do Congresso. Pete Seeger, Woody Guthrie e Oscar Brand reconheceram algo raro: uma portadora autêntica da tradição, que aprendera as canções oralmente, em família — não em livros ou discos.
Em 1948, Jean dividiu o palco com Woody Guthrie e The Weavers.
Em 1949, tornou-se presença constante no programa de rádio Folksong Festival, de Oscar Brand.
Então veio o preconceito acadêmico.
A estudiosa Maud Karpeles, que havia trabalhado com Cecil Sharp, ouviu falar de Jean e declarou com desdém:
> “Ela não pode ser considerada uma cantora folk, porque frequentou a universidade.”
Jean recebeu isso como um elogio.
Porque o que Karpeles não entendeu é que Jean representava algo que o meio acadêmico nunca tinha visto: alguém educada academicamente e, ao mesmo tempo, uma verdadeira guardiã da tradição.
Ela não fingia ser uma cantora das montanhas.
Ela era.
Em 1951, a gravadora Elektra assinou com Jean. Seu primeiro álbum, Singing the Traditional Songs of Her Kentucky Mountain Family (1952), apresentou ao público urbano a música crua e intacta dos Apalaches.
Então Jean fez algo extraordinário: decidiu rastrear essas canções até suas origens.
Em 1952, ganhou uma bolsa Fulbright — uma honraria acadêmica — para viajar pela Inglaterra, Escócia e Irlanda. Durante dezoito meses, ela e o marido, o fotógrafo George Pickow, gravaram cantores cujas músicas compartilhavam melodias e versos com as versões de sua família.
Ela provou algo essencial:
as comunidades isoladas dos Apalaches haviam preservado baladas medievais britânicas mais fielmente do que a própria Grã-Bretanha.
A pobreza e o isolamento haviam se tornado preservação.
Jean também era compositora.
Nos anos 1950 e 60, escreveu canções sobre os danos da mineração em Kentucky, como “Black Waters”, um lamento ambiental poderoso.
Johnny Cash gravou uma de suas canções depois de ouvi-la na voz de June Carter. Tornou-se um hino.
Jean chegou a usar um pseudônimo masculino para publicar músicas políticas, temendo reações — inclusive da própria mãe. Até no folk, a voz de uma mulher tinha menos peso.
Mas sua maior contribuição não foram suas próprias músicas.
Foi o que ela salvou.
Centenas de baladas que não existiam em nenhum outro lugar do mundo.
Canções de quinhentos anos que sobreviveram apenas porque Jean as guardou na memória e as gravou.
Ela também salvou um instrumento:
o dulcimer dos Apalaches, que estava à beira do desaparecimento. Graças a Jean, o instrumento foi redescoberto e revitalizado.
E então vieram os artistas que ela influenciou.
Bob Dylan, Joan Baez, Judy Collins, Joni Mitchell, Emmylou Harris, Dolly Parton, Linda Ronstadt — todos beberam da fonte que Jean preservou.
Mesmo quando Dylan usou a melodia de “Nottamun Town” sem crédito, Jean deixou passar. Para ela, a música era maior do que o reconhecimento.
Em 2002, recebeu o National Heritage Fellowship, a maior honraria para artistas tradicionais nos EUA.
Quando morreu, em 2015, aos 92 anos, deixou um legado imensurável.
Hoje, suas gravações vivem na Biblioteca do Congresso.
O dulcimer vive.
A música folk americana vive.
Jean Ritchie disse certa vez:
> “Vejo a música folk como um rio que nunca parou de correr.”
Ela não estava falando apenas da música.
Estava falando de si mesma.
Uma corrente que atravessou séculos.
Uma voz que se recusou a deixar a beleza morrer.
E fez o mundo escutar.

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