Em 1º de novembro de 1998, um ex-paraquedista britânico de 29 anos chamado Karl Bushby estava em Punta Arenas, no Chile, com apenas 500 dólares no bolso e uma ideia que parecia pura loucura: voltar para casa, em Hull, na Inglaterra, caminhando.
Nada de aviões, carros ou barcos. Cada passo teria que ser dado a pé, sem atalhos e sem exceções. Ele calculou que levaria entre oito e doze anos para cruzar os 58 mil quilômetros que separavam os dois pontos, passando por quatro continentes. Hoje, quase três décadas depois, ele ainda está na estrada, mas a linha de chegada finalmente começa a aparecer no horizonte.
Para garantir que não trapacearia, Bushby criou duas regras rígidas. A primeira: nenhum transporte motorizado poderia fazê-lo avançar. Se fosse obrigado a pegar um voo por causa de vistos ou burocracias, teria que voltar exatamente ao mesmo ponto geográfico para retomar a caminhada. A segunda: ele não pisaria em casa até chegar lá com os próprios pés. O que ele não imaginava era que essas duas regras simples transformariam sua jornada em uma odisseia de 27 anos.
Nos primeiros anos, ele atravessou a América do Sul. Depois, enfrentou o temido Darién, a selva fechada entre a Colômbia e o Panamá, conhecida por traficantes, grupos armados e um terreno quase impossível. Foram semanas abrindo caminho no facão em meio a um ambiente hostil, mas ele conseguiu sair vivo. Em seguida, cruzou a América Central, atravessou o México inteiro e os Estados Unidos. Em 2005, já estava no Alasca. Diante dele, estava o obstáculo que muitos consideravam intransponível: o Estreito de Bering.
Em março de 2006, ao lado do aventureiro francês Dimitri Kieffer, Bushby fez algo que ninguém havia conseguido naquela rota contínua. Eles caminharam cerca de 240 quilômetros sobre o gelo instável do Ártico. Avançavam saltando entre placas congeladas que rachavam sob seus pés, carregavam rifles para o caso de encontrarem ursos-polares e usavam roupas de neoprene para sobreviver caso caíssem nas águas congelantes. Eles conseguiram chegar à Rússia. A recompensa? Foram presos por guardas de fronteira assim que pisaram em terra firme.
Uma intervenção diplomática em alto nível os livrou da prisão, mas a Rússia se tornou um pesadelo burocrático. Os vistos só permitiam que Bushby permanecesse no país por 90 dias a cada semestre. Só que cruzar a Sibéria a pé leva anos, e o avanço só era possível no fim do inverno, quando pântanos e rios congelavam e se tornavam transitáveis. Ele caminhava por alguns meses e depois precisava sair do país.
Como se não bastasse, a crise financeira de 2008 fez seus patrocinadores desaparecerem, obrigando-o a interromper o projeto por dois anos no México. Em 2013, o governo russo proibiu sua entrada por cinco anos. Bushby, em vez de desistir, caminhou 4.800 quilômetros de Los Angeles até Washington, D.C., para protestar em frente à embaixada russa. Funcionou: o veto foi retirado.
Depois disso, ele deixou a Sibéria para trás, atravessou a Mongólia, o deserto de Gobi, o Cazaquistão, o Uzbequistão e o Turcomenistão. Então veio outro obstáculo: o Irã negou seu visto. Logo depois, a pandemia fechou o planeta. Preso às margens do Mar Cáspio, sem fronteiras terrestres abertas, ele tomou uma decisão absurda: atravessá-lo nadando.
E não era pouca coisa. Eram quase 300 quilômetros de mar aberto para um homem que admite odiar nadar. Bushby treinou durante um ano inteiro, recrutou a caminhante Angela Maxwell e contou com o apoio de barcos de segurança e dois nadadores olímpicos do Azerbaijão. Em agosto de 2024, eles entraram na água. Nadaram em turnos de três horas, enfrentando ondas fortes e ventos contrários. Um mês depois, chegaram ao outro lado.
A partir do Azerbaijão, ele acelerou o ritmo. Cruzou a Geórgia e a Turquia em cinco meses e, no início de maio de 2025, atravessou a Ponte do Bósforo, em Istambul. Pela primeira vez desde 1998, Karl Bushby voltava a pisar em solo europeu.
Atualmente, Bushby avança pela Hungria. Faltam cerca de 1.500 quilômetros para chegar a Hull, mas ainda existe um último grande desafio: o Canal da Mancha. Para não quebrar seu recorde de caminhada contínua, ele não pode usar uma balsa. Seu plano é conseguir autorização das autoridades britânicas e francesas para atravessar pelo túnel de serviço do Eurotúnel, uma área de manutenção proibida ao público. Depois de 27 anos e 47 mil quilômetros nas pernas, ele espera que alguém tenha bom senso suficiente para liberar uma permissão especial para as últimas 21 milhas.
No fim, desses 27 anos de viagem, Bushby passou metade caminhando e a outra metade enfrentando burocracias, pandemias, vistos negados e crises financeiras. Quando perguntam por que ele faz isso, ele não fala em mudar o mundo nem em arrecadar dinheiro. Ele faz porque ninguém jamais conseguiu antes. Mas sua maior conclusão não está nos quilômetros percorridos. Está em uma descoberta simples e poderosa: 99% das pessoas que encontrou nas rotas mais perigosas do planeta eram boas.
Neste momento, um homem de 56 anos caminha em algum lugar da Europa, rumo ao oeste. Atrás dele existe uma linha invisível de pegadas que começou no Chile há quase três décadas. Se tudo der certo, em setembro de 2026 ele chegará em casa, provando que, às vezes, dar a volta ao mundo passo a passo é a única forma de realmente entendê-lo.

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