Cada ofensa não perdoada se converte em presença íntima. """

 

Perdoar não significa apagar a falta, como quem nega a ferida recebida. Significa retirar da ofensa o governo da própria vida.

A criatura que conserva ressentimento imagina prender o agressor ao débito, mas, sem perceber, prende-se também à cena que a machucou. Repete mentalmente a palavra dura, reconstrói o gesto infeliz, conversa com ausentes, prepara respostas tardias, e a alma, ocupada em revisitar a dor, deixa de avançar no serviço que lhe cabia.

No pensamento atribuído a Emmanuel, o perdão não é sentimento improvisado. É disciplina da consciência diante da lei de causa e efeito. Ninguém fere sem responder pelo que fez. Ninguém sofre sem encontrar, diante de Deus, recursos de reparação e aprendizado. A justiça divina não precisa do nosso ódio para agir.

Perdoar, então, é entregar o julgamento ao tempo, à consciência e à vida espiritual. É reconhecer que também carregamos imperfeições, impulsos, zonas de ignorância, fragilidades que nem sempre gostaríamos de ver expostas. Quem exige pureza absoluta do outro, muitas vezes, esquece a própria necessidade de misericórdia.

A mágoa prolongada endurece o olhar. O perdão lúcido devolve movimento à alma. Não obriga convivência, não dispensa prudência, não transforma agressão em virtude. Apenas impede que o mal recebido continue produzindo mal dentro de nós.

Cada ofensa não perdoada se converte em presença íntima. Mora no pensamento, altera a palavra, pesa no corpo, empobrece a alegria. Cada perdão verdadeiro rompe uma algema silenciosa.

O outro responderá pelo que semeou. Nós responderemos pelo que fizermos com aquilo que nos feriu. Essa é a parte que nos pertence diante de Deus.


Diário Espírita

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