Ela tinha tudo: graça, beleza e o amor incondicional de um povo e de um rei. |||

 

Ela tinha tudo: graça, beleza e o amor incondicional de um povo e de um rei. Mas, na manhã ensolarada de 29 de agosto de 1935, bastaram um mapa nas mãos, uma distração de segundos e um desvio na estrada para que o conto de fadas da realeza europeia terminasse em tragédia. O rei a segurou desesperadamente contra o peito, gritando seu nome entre lágrimas e sangue, mas Astrid já estava morta. Tinha apenas 29 anos. Noventa anos depois, a Bélgica e o mundo jamais esqueceram a rainha cujo brilho foi apagado cedo demais.

Em 17 de novembro de 1905, as três fadinhas mágicas das narrativas infantis pareciam ter abençoado a bebê recém-nascida do príncipe Carl da Suécia e da princesa Ingeborg da Dinamarca com tudo o que uma garota aristocrática poderia desejar: graça, beleza e status. Deram-lhe o nome de Astrid.

Pelo lado paterno, era neta do rei Oscar II da Suécia e da Noruega, que governava desde 1872. Após a morte do monarca, em 1907, o trono sueco passou para as mãos de seu tio, o príncipe herdeiro Gustav V, enquanto o reino da Noruega havia sido assumido em 1905 por Haakon VII, irmão de sua mãe, a princesa Ingeborg.

A maior parte da infância de Astrid transcorreu no Palácio de Arvfurstens, em Estocolmo. Ela e suas irmãs, Margaretha e Märtha, junto ao irmão caçula, Carl, se divertiam entre os jardins e os ciprestes da bela residência de verão da família, a Villa Fridhem. A despeito do sangue real, sua educação foi surpreendentemente simples, prática e desprovida de frivolidades.

Além das disciplinas básicas, a princesa aprendeu Francês, Música, Balé, Culinária e Costura, frequentando o internato Sint Botvid e a tradicional escola Åkerström-Söderström. O estudo da dança, aliado à prática constante de natação, esqui e equitação, conferiu-lhe um porte elegante, natural e delgado. À medida que crescia, Astrid se tornava uma jovem radiantemente bela e encantadora.

Ao completar 20 anos, em 1925, seus pais começaram a avaliar alianças matrimoniais adequadas. O príncipe Leopold, herdeiro do trono da Bélgica, parecia o candidato ideal. Unindo o útil ao agradável, o arranjo transformou-se em paixão genuína: Leopold e Astrid sentiram-se mutuamente fascinados. Membros da criadagem afirmavam que os dois se encontravam em segredo durante meses, com Leopold viajando incógnito para a Suécia e até se disfarçando para evitar os fotógrafos. Em público, o casal não fazia questão de esconder a cumplicidade: andavam de mãos dadas e trocavam olhares e afetos calorosos — um gesto de modernidade que beirava o escândalo para os rígidos padrões morais da época.

Após a cerimônia civil na Suécia, Astrid desembarcou na Bélgica em 9 de novembro de 1926. Uma multidão entusiasmada se acotovelava pelas ruas de Bruxelas para aclamar a nova princesa. No dia seguinte, ocorreu a majestosa cerimônia religiosa na Catedral de São Miguel e Santa Gudula. Após o tradicional atraso da noiva, Astrid desceu da carruagem usando um segundo vestido branco de cetim e o mesmo véu de rendas de Bruxelas que pertencera à sua mãe. Um colar de diamantes era a única joia que enfeitava seu colo, antes que Leopold colocasse em seu dedo a aliança de casamento.

Astrid conquistou a nação quase instantaneamente. A princesa gostava de andar a pé pelas ruas da capital, misturar-se à multidão para ver o marido em procissões e, sempre que podia, escapava da etiqueta rígida da corte para fazer compras ou passear com os filhos no parque sem escolta ostensiva. O povo belga adorava ver sua futura rainha romper barreiras com charme, empatia e simplicidade.

Logo a família cresceu. A primeira filha, Joséphine-Charlotte, nasceu em 1927 e viria a se tornar grã-duquesa de Luxemburgo. Após uma longa viagem oficial às Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia) e o estabelecimento do casal no Castelo de Stuyvenberg, em Laeken, a duquesa deu à luz, em setembro de 1930, ao príncipe Baudouin.

Em 17 de fevereiro de 1934, uma tragédia abalou o país: o rei Albert I faleceu tragicamente em um acidente de escalada nas rochas de Marche-les-Dames. Naquele momento, Astrid estava grávida de seu terceiro filho. Em junho daquele mesmo ano, nasceu o príncipe Albert — batizado em homenagem ao avô —, que no futuro sucederia o irmão Baudouin como rei Albert II.

Como nova rainha dos Belgas, Astrid mergulhou de cabeça nas causas sociais. Em 1935, com o país ainda sofrendo os impactos da Grande Depressão, ela lançou uma iniciativa histórica que ficou conhecida como o "Apelo da Rainha", organizando um grande mutirão nacional para arrecadar roupas, alimentos e fundos para os desempregados e necessitados. Astrid visitava pessoalmente abrigos, bairros operários e assentamentos miseráveis, ouvindo com atenção e carinho cada história.

Em agosto de 1935, buscando descanso após meses exaustivos de compromissos oficiais, Astrid e Leopold foram passar férias incógnitos na Suíça, hospedando-se na Villa Haslihorn, às margens do Lago Lucerna. Os filhos mais velhos, Joséphine-Charlotte e Baudouin, acompanharam os pais nos primeiros dias, enquanto o bebê Albert permaneceu em Bruxelas. Em 28 de agosto, as crianças maiores retornaram para a Bélgica.

Na manhã ensolarada de 29 de agosto, os soberanos decidiram fazer um último passeio de carro antes de voltar para casa. Leopold, um entusiasta da automobilismo, optou por dirigir ele mesmo o conversível Packard One-Twenty da família, enquanto o motorista particular ocupava o banco traseiro.

Por volta das 9h30, enquanto transitavam pela estrada costeira próxima a Küssnacht am Rigi, Astrid estava no banco do carona consultando um mapa rodoviário. Ao apontar algo na paisagem para o marido, Leopold desviou o olhar da pista por um fração de segundo. O veículo raspou o meio-fio, perdeu o controle, desceu a ribanceira e colidiu violentamente contra uma pereira.

Com o impacto devastador, a porta do carona se abriu e o corpo de Astrid foi arremessado para fora, chocando-se tragicamente contra o tronco de outra árvore, enquanto o carro desgovernado terminava seu trajeto nas águas rasas do lago.

Leopold III sofreu apenas ferimentos leves e cortes no rosto, mas Astrid teve morte instantânea devido aos graves traumatismos cranianos. As poucas testemunhas que presenciaram a cena relataram o choque dilacerante: o rei belga, atordoado e em prantos, ajoelhou-se na grama e segurou o corpo ensanguentado da esposa contra o peito, chamando por seu nome em desespero até a chegada do socorro.

A notícia da morte de Astrid provocou uma comoção sem precedentes na Bélgica e em toda a Europa. Uma multidão silenciosa e em lágrimas tomou as ruas de Bruxelas para se despedir da sovereign cujo reinado durou pouco mais de um ano, mas cuja marca de generosidade se tornou eterna. No local do acidente, em Küssnacht, uma capela em sua memória foi erguida e continua sendo, até hoje, um local de peregrinação e tributo à "Rainha dos Corações" da Bélgica — uma figura inesquecível cuja beleza e bondade nem mesmo o tempo conseguiu apagar.

Texto: Renato Drummond Tapioca Neto 

Imagem: Colorizado por Rainhas Trágicas - Mulheres, Guerreiras, Soberanas


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