Aos 10 anos, Nawal El Saadawi sabotou o próprio casamento arranjado.
Ela não gritou nem fez escândalo. Entrou escondida na cozinha, pegou uma berinjela crua e mastigou até o líquido escuro deixar seus dentes completamente pretos. Quando a família do pretendente chegou, Nawal abriu o maior e mais “assustador” sorriso que conseguiu.
Foi o suficiente. Bastou olhar para aqueles dentes escurecidos para que os visitantes fossem embora imediatamente. Naquele dia, ela ganhou tempo. Ainda criança, conseguiu desafiar um sistema inteiro usando apenas uma fruta.
Mas a luta de Nawal havia começado muito antes disso.
Nascida em 1931, na pequena vila egípcia de Kafr Tahla, ela cresceu ouvindo frases cruéis da própria avó, que dizia que “um menino valia mais do que quinze meninas”. Aos seis anos, foi submetida à mutilação genital feminina. A dor física e emocional daquele momento a marcaria para sempre.
Muita gente teria sido destruída por uma infância assim. Nawal decidiu seguir outro caminho: tornou-se médica.
Em 1955, se formou em Medicina na Universidade do Cairo. Quando começou a trabalhar nas áreas rurais do Egito, percebeu que não lidava apenas com doenças, mas também com as consequências brutais do patriarcado: complicações causadas por mutilações, mortes durante o parto e mulheres vivendo em silêncio sob violência constante.
Ela decidiu que não ficaria calada.
Em 1972, publicou o livro Mulheres e Sexo, que denunciava diretamente a mutilação genital feminina e o controle sobre o corpo das mulheres. A reação do governo foi imediata: perdeu seu cargo na Saúde Pública, sua revista foi fechada e seus textos foram proibidos.
Mas a chama já havia se espalhado.
Em 1981, durante o governo de Anwar Sadat, Nawal passou a ser considerada “perigosa demais”. Foi presa e enviada para a prisão feminina de Qanatir. Lá, tentaram tirar tudo dela: papel, caneta e até sua voz.
Então aconteceu algo improvável.
Outra detenta conseguiu lhe entregar um lápis de maquiagem escondido. Sem ter onde escrever, Nawal começou a registrar pensamentos e relatos das presas usando papel higiênico da cela.
Esses escritos, retirados clandestinamente da prisão, acabaram se transformando no livro Memórias da Prisão Feminina, considerado uma das obras mais importantes do feminismo árabe.
Mesmo depois de sair da prisão, as ameaças continuaram. Nos anos 90, grupos fundamentalistas colocaram seu nome em listas de morte. O governo ofereceu proteção armada, mas ela recusou. Preferiu viver no exílio e lecionar em universidades como Harvard University, Yale University e Duke University, levando suas ideias para o mundo inteiro.
Ela voltou ao Egito em 1996 tão desafiadora quanto sempre foi.
Aos 73 anos, anunciou que concorreria à presidência do Egito. Sabia que dificilmente venceria sob o regime de Hosni Mubarak, mas sua candidatura tinha um significado maior: mostrar que até o cargo mais poderoso do país também poderia pertencer a uma mulher.
Nawal El Saadawi morreu em 2021, aos 89 anos. Sobreviveu à censura, à prisão, ao exílio e às ameaças de morte. Muitos a chamavam de “a Simone de Beauvoir do mundo árabe”, mas ela preferia ser apenas Nawal: a menina que, aos 10 anos, decidiu que ninguém escolheria seu destino.
Sua luta era pela criança mutilada aos seis anos… e também pelas meninas e mulheres que, ainda hoje, se recusam a aceitar que valem menos do que um homem.
Nawal mostrou ao mundo que, às vezes, uma berinjela crua e um lápis de maquiagem podem ser suficientes para começar uma revolução.

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