BENFEITORES DESENCARNADOS E PROBLEMAS HUMANOS ====

 

A promoção dos chamados mortos à categoria de benfeitores e santos

resulta de um atavismo religioso de que o homem só a esforço insistente

consegue libertar-se.

 Enquanto transitam pelo corpo material, os menos projetados na

sociedade são teimosamente ignorados, quando não sistematicamente

abandonados. Sofredores que por decênios de dor e amargura suportaram em

silêncios estóicos a pesada canga das aflições; pessoas humildes que se

apagaram nos labores singelos; enfermos em indigência e desprezo, atados a

cruzes de demorada agonia; lutadores anônimos que esbarraram em

dificuldades e padeceram ignomínias da imprevidência dos seus verdugos; pais

e mães reclusos nos cárceres dos deveres sacrificiais, relegados às posições

inferiores do lar, tão logo retornam à Pátria são içados pelas consciências

culpadas à condição santificante com que assim esperam exculpar-se à

indiferença e ao desprezo que lhes impuseram.

 Não apenas estes, porém, que merecem pelos padecimentos sofridos

uma liberação abençoada.

 Crê-se, no entanto, que a morte é ponte para a santificação, mesmo a

daqueles que não a merecem.

 Supõem que, com a desencarnação, ao se esquecerem com facilidade

os descalabros que foram cometidos podem conferir-lhes uma situação ditosa,

ao paladar da trivialidade a que se entregam.

 Não o fazem, porém, por amor.

 Como exploraram e feriram, usaram e maceraram os que lhes

dependiam, direta ou indiretamente, esperam continuar exigindo ajudas que

não merecem, em comércio de escravidão contínua com os que já partiram.

*

 Mentes viciadas pela acomodação aos velhos hábitos da preguiça e da

rebeldia, não logram desprenderse dos problemas pessoais mesquinhos a que

se aferram, por lhes aprazer enganar e enganar-se.

 Dizem-se em sofrimento e preferem a condição de vítima da Divindade à

de colaboradores de Deus.

 Asseveram que só o insucesso lhes ocorre e demoram-se na lamentação

ao invés da ação saneadora do mal.

 Teimam por receber tratamento especial dos Céus, e, sem embargo, não

se facultam crescer sintonizando com as leis superiores que regem a vida.

 Rogam bens que não sabem aplicar, desperdiçando valioso tempo em

consultas inúteis e conversações fúteis em que mais se anestesiam na autopiedade e na ilusão.

 Afirmam que os seus mortos estão no paraíso enquanto eles jazem na

Terra esquecidos.

 Fiéis ao ludíbrio pelo artificialismo das oferendas materiais, prometemlhes missas, “sessões solenes”, cultos especiais, flores e outras manobras

artificiais com que gostam de insistir na vaidosa presunção da astúcia sistemática.

 Em vão, porem.

*

 Quando ditosos, os desencarnados, são apenas amigos generosos que

intercedem, ajudam e inspiram, mas não podem modificar os compromissos

que os seus afeiçoados assumiram desde antes do berço, conforme não se

eximiram eles mesmos aos braços da cruz em que voaram no rumo da

felicidade.

 Quando em desdita no além-túmulo, são para eles inócuas todas as

expressões exteriores dos chamados “cultos externos” das religiões terrestres.

 A oração ungida de amor, as ações caridosas em sua homenagem

refrigeram-nos e ajudam-nos a entender melhor a própria situação,

armazenando forças para as reencarnações futuras.

 Desse modo, esforça-te para resolver os teus problemas sem perturbar

os que agora merecem a justa paz depois das lutas ásperas que sofreram.

 Respeita a memória dos desencarnados e sem os títulos mentirosos da

Terra, tem-nos em conta de amigos queridos não subalternos que te poderão

ajudar, porém que necessitam, a seu turno, de evoluir também.


PSICOGRAFIA DIVALDO FRANCO

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