PEQUENA HISTÓRIA DO DISCÍPULO ****

 Quando o Mestre visitou o aprendiz pela primeira vez, encontrou-o mergulhado na leitura

das informações divinas.

Viu-o absorto na procura de sabedoria e falou :

– Abençoado seja o filho do conhecimento superior!

E passou à frente, entregando-o ao cuidado de seus prepostos.

Voltando, mais tarde, a revê-la, surpreendeu-o inflamado de entusiasmo pelo

maravilhoso. Sentia-se dominado pelas claridades da revelação, propondo-se estendê-la

por todos os recantos da Terra. Queria ganhar o mundo para o Senhor Supremo.

Multiplicava promessas de sacrifício pessoal e interpretava teòricamente a salvação por

absoluto serviço da esperança contemplativa.

O Companheiro Eterno afagou-lhe a fronte sonhadora e disse:

– Louvado seja o apóstolo do ideal!

E seguiu adiante, confiando-o a dedicados mensageiros.

Regressou, em outra ocasião, a observá-lo e registRou-lhe nova mudança. Guiava-se o

aprendiz pelos propósitos combativos. Através do conhecimento e do ideal que adquirira,

presumia-se na posse da realidade universal e movia guerra, sem sangue a todos os

semelhantes que lhe não pisassem o degrau evolutivo. Gravava dísticos incendiários, a

fim de purificar os círculos da crença religiosa. Acusava, julgava e punia sem

comiseração. Alimentava a estranha volúpia de enfileirar adversários novos. Pretendia

destruir e renovar tudo. Nesse mister, desconhecia o respeito ao próximo, fazia tábua

rasa das mais comezinhas regras de educação, assumindo graves responsabilidades

para o futuro.

O Compassivo, todavia, reconhecendo-lhe a sinceridade cristalina, acariciou-lhe as mãos

inquietam e enunciou:

– Amparado seja o defensor da verdade!

E dirigiu-se a outras paragens, entregando-o à proteção de missionários fiéis.

Tornando ao círculo do seguidor, em época diferente, reparou-lhe a posição diversa.

Dera-se o discípulo à sistemática pregação dos princípios edificantes que adotara,

condicionando-os aos seus pontos de vista. Escrevia páginas veementes e fazia

discursos comovedores. Projetava nos ouvintes a vibração de sua fé. Era condutor das

massas, herói do verbo primoroso, falado e escrito. 


O Instrutor Sublime abraçou-o e declarou:

– Iluminado seja a ministro de palavra celestial!

E ganhou rumos outros, colocando-o sob a inspiração de valorosos emissários.

Escoados longos anos, retornou o Magnânimo e anotou-lhe a transformação, O aprendiz

exibia feridas na alma. A conquista do mundo não era tão fácil, refletia ele com amargura.

Embora sincero, fora defrontado pela falsidade alheia. Desejoso de praticar o bem, era

incessantemente visado pelo mal. Via-se rodeado de espinhos. Suportava calúnias e

sarcasmos. Alvejado pelo ridículo entre os que mais amava, trazia o espírito avivado de

duvidas e receios perniciosos. Era incompreendido nas melhores intenções. Se dava pão,

recebia pedradas. Se acendia luz, provocava perseguições das trevas. Lia os livros

santos, à maneira do faminto que procura alimento; sustentava seus ideais com

dificuldades sem conto; ensinava o caminho superior, de coração dilacerado e pés

sangrando...

O Sábio dos Sábios enxugou o suor copioso e falou:

– Amado seja o peregrino da experiência!

E seguiu, estrada afora, confiando-o a carinhosos benfeitores.

Retornando, tempos depois, o Salvador assinalou-lhe a situação surpreendente.

Chorando para dentro, reconhecia o discípulo que muito mais difícil que a conquista do

mundo era o domínio de si mesmo. Em minutos culminastes do aprendizado, entregarase também a forcas inferiores, Embora de pé, sabia, de conhecimento pessoal, quão

amargo sabor impunha o lodo à boca. Cedera, bastas vezes, A,s sugestões menos digiras

que combatia. Aprendera que, se era fácil ensinar o bem aos outros, era sempre difícil e

doloroso edificá-lo na próprio íntimo. Ele que condenara a vaidade e o egoísmo, a volúpia

e o orgulho, verificava que não havia desalojado tais monstros de sua alma. Renunciava

ao com.bate com o exterior, a fim de lutar consigo muito mais. Vivia sob a pressão de

tempestade renovadora. Ciente das fraquezas e imperfeições de si mesmo, confiava,

acima de tudo, no Altíssimo, a cuja bondade infinita submetia os torturantes problemas

individuais, através da prece e da vigilância entre lágrimas.

O Divino Amigo secou-lhe o pranto e exclamou:

– Bendito seja o irmão de dor que Santifica!

E seguiu para diante, recomendando-o aos colabora,dares celestiais.

Anos decorridos, regressou o Misericordioso e admirou-lhe a situação diversa. O discípulo

renovara-se completamente. Preferia calar para que outros se fizessem ouvir. Analisava

as dificuldades alheias pelos tropeços com que fora defrontado na senda. A compreensão

em sua alma era doce e espontânea, sem qualquer tendência à superioridade que

humilha. Via irmãos em toda parte e estava disposto a auxiliá-los e socorrê-los, sem

preocupação de recompensa. Aos seus olhos, os filhos de outros lares deviam ser tão

amados quanto os filhos do teto em que nascera. Entendia os dramas dolorosos dos

vizinhos, honrava os velhos e estendia mãos protetoras às crianças e aos jovens. Lia os escritos sagrados, mas enxergava também a Eterna Sabedoria na abelha operosa; na

nuvem distante, no murmúrio do vento. Regozijava-se com a alegria e o bem-estar dos

amigos, tanto quanto lhes partilhava os infortúnios. Inveja e ciúme, despeito e cólera, não

lhe perturbavam o santuário interior. Não sentia necessidade de perdoar, porque amava

os semelhantes como Jesus lhe havia ensinado. Orava pelos adversários gratuitos do

caminho, convencido de que não eram maus e, sim, ignorantes e incapazes. Socorria os

ingratos, lembrando que o fruto verde não pode oferecer o sabor daquele que amadurece

a seu tempo. Chorava de júbilo, a sós, na oração de louvor, reconhecendo a extensão das

bênçãos que recebera do céu... Interpretava dores e problemas como recursos de

melhoria substancial. As lutas era,m para ele degraus de ascensão. O perversos, ao seu.

olhar, eram irmãos infelizes, necessitados de compaixão fraternal. Rua palavra jamais

condenava. Seus pés não caminhavam em vão. Seus ouvidos mantinham-se atentos ao

bem. Seus olhos enxergavam de maio alto. Suas mãos ajudavam sempre. Sintonizava

sua mente com a Esfera Superior. Seu maior desejo, agora, era conhecer o programa do

Mestre e cumpri-lo. Pregava a verdade e a ensinava a quantos procurassem ouvi-lo;

entretanto, experimentava maior prazer em ser útil. Guardava, feliz, a disposição de servir

a todos. Sabia que era imprescindível amparar o fraco para que a fragilidade não o

precipitasse no pó, e ajudar ao forte a fim de que a força mal aplicada não o envilecesse.

Conservava o conhecimento, o ideal, o entusiasmo, a combatividade em favor do bem, a

experiência benfeitora e a oração iluminativa, todavia, acima de tudo, compreendia a

necessidade de refletir a Vontade de Deus no serviço ao próximo. Suas palavras

revestiam-se de ciência celestial, a humildade não fingida era gloriosa auréola em sua

fronte, e, por onde passava, agrupavam-se em torno dele os filhos da sombra, buscando

em sua alma a luz que amam quase sempre sem entender...

O Senhor, encontrando-o em semelhante estado, estreitou-o nos braços, de coração a

coração, proclamando:

– Bem-aventurado o servo fiel que busca a Divina Vontade de Nosso Pai!

E, desde então, passou a habitar com o discípulo para sempre. 


IRMÃO X/CHICO XAVIER

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