Em vida, o menino Rogério era um garoto muito estudioso que teve seu destino interrompido precocemente ao ser atropelado por um ônibus enquanto atravessava a rua para ir ao colégio. Abalada, sua mãe chorava dia e noite pela perda, até que, em uma madrugada, o espírito do menino apareceu para consolá-la.
Ele pediu que ela parasse de chorar, pois estava muito bem e havia recebido a missão de ajudar as pessoas. A partir desse dia, a mãe começou a notar um fenômeno intrigante: mesmo deixando a casa completamente arrumada antes de dormir, ela acordava e encontrava copos usados e pratos com restos de bolo sobre a mesa, como se alguém estivesse fazendo refeições ali durante a madrugada.
Enquanto isso, em outra parte de Belém, uma mãe vivia o desespero de ver seu único filho afundado na dependência química. O rapaz bebia, fumava e já quase não parava em casa. Certa tarde, por volta das seis horas, a mulher fez uma oração fervorosa, implorando a Deus que enviasse um anjo ou um espírito de luz para resgatar seu menino. Minutos depois, bateram à sua porta. Era um rapaz jovem, vestido com roupas sociais de forma muito elegante, perguntando pelo seu filho.
— Ele já saiu. Saiu agorinha e eu não sei por onde ele está — respondeu a mãe, aflita.
— Mas eu sei. Eu vou buscar ele e vou levar para a minha casa — disse o rapaz misterioso, que na verdade era o espírito materializado de Rogério. — Quando for quase para amanhecer o dia, eu venho deixar ele, porque eu tenho que pegar outro serviço. Eu vou ficar com ele durante um mês e a senhora não vai ter mais esse problema. Lá em casa ele vê televisão, ele come, ele faz o que quiser.
Sem imaginar que conversava com um "morto", a mãe aceitou a ajuda. Durante um mês inteiro, o filho dependente químico foi levado pelo espírito para a casa de Rogério, que era a mesma casa onde a mãe biológica do menino falecido morava. O jovem curado contaria mais tarde que assistia à televisão e comia, mas que Rogério era extremamente silencioso e cuidadoso, gesticulando e pedindo silêncio para não chamar a atenção de ninguém na residência. Eram justamente essas visitas noturnas que explicavam os copos e os restos de bolo que a mãe de Rogério encontrava misteriosamente sobre a mesa todas as manhãs.
Ao final dos trinta dias, o jovem estava completamente transformado e liberto do vício. Rogério então entregou um bilhete à mãe do rapaz e lhe passou um endereço.
— O meu endereço é esse aqui. Quando chegar lá, a senhora vai encontrar a pessoa que toma conta da minha casa. Mostre essa carta para ela e peça para entregarem para a minha mãe — instruiu o espírito, avisando que seu tempo de cuidar do rapaz havia terminado, pois ele precisava viajar.
No dia seguinte, a mulher seguiu as coordenadas e chegou ao endereço por volta das nove da manhã. Para sua completa surpresa, o local era o Cemitério Santa Isabel. Ela caminhou até encontrar a zeladora, Dona Ray, e perguntou de forma muito ingênua:
— Eu tô procurando a casa do Rogério Santo Cruz. Ele é um menino assim, assim...
Dona Ray, percebendo do que se tratava, conduziu a mulher até a sepultura do garoto. Quando a mãe compreendeu que o rapaz tão bondoso que havia curado seu filho estava morto, ela desabou em um choro incontrolável. Em meio às lágrimas, entregou a carta deixada pelo espírito. Dona Ray observou que o bilhete tinha uma caligrafia grande e muito bonita, parecendo letra de doutor, e trazia uma mensagem curta e direta de Rogério para sua própria mãe biológica:
— Eu já fiz a minha parte, mãe. Agora você vai fazer a sua.
A zeladora então entrou em contato com a tia de Rogério, chamada Sandra, e juntas levaram a mulher e o bilhete até a família do falecido. Quando a mãe biológica leu a carta, finalmente compreendeu o mistério da comida mexida nas madrugadas. Emocionada e disposta a cumprir o último pedido de seu filho fantasma, ela acolheu o rapaz recém-curado e deu a ele um emprego em sua própria loja. A ligação de gratidão foi tão forte que, quando a mãe de Rogério se mudou para Fortaleza algum tempo depois, ela fez questão de levar o jovem junto com ela para que continuasse trabalhando sob seus cuidados.
____________________
Essa é mais uma história vivida por Dona Ray (Raimunda), zeladora particular de sepulturas de um cemitério em Belém do Pará.

Comentários
Postar um comentário