Em 1942, uma mulher branca tomou uma decisão que poucos conseguiam compreender.
Seu marido, um nipo-americano, havia sido condenado pelo próprio governo dos Estados Unidos a viver atrás de cercas de arame farpado por causa de sua origem.
Ela poderia permanecer em liberdade.
Ninguém a obrigava a acompanhá-lo.
Mesmo assim, fez as malas e entrou voluntariamente no campo de internamento, onde permaneceria por quase três anos.
Seu nome era **Estelle Peck Ishigo**.
Nascida em 15 de julho de 1899, em Oakland, Califórnia, Estelle cresceu em uma família ligada às artes. Seu pai era pintor paisagista, e sua mãe, cantora de ópera.
Em 1929, apaixonou-se por **Arthur Ishigo**, um ator nipo-americano de segunda geração, conhecido como *nisei*, nascido em São Francisco.
Naquela época, porém, a Califórnia ainda mantinha leis que proibiam o casamento entre pessoas brancas e indivíduos considerados "não brancos".
Para ficarem juntos, os dois atravessaram a fronteira até **Tijuana, no México**, onde finalmente puderam se casar.
A decisão teve um preço.
Estelle foi rejeitada pela própria família.
Ainda assim, nunca pensou em abandonar Arthur.
Tudo mudou em 7 de dezembro de 1941, quando o Japão atacou Pearl Harbor.
Nos meses seguintes, o medo e a desconfiança tomaram conta dos Estados Unidos.
Embora Arthur fosse cidadão americano, sua ascendência japonesa bastou para que ele perdesse o emprego.
Estelle também acabou demitida.
Pouco depois, o presidente **Franklin D. Roosevelt** assinou a **Ordem Executiva 9066**, autorizando a remoção forçada de mais de **110 mil pessoas de origem japonesa** da Costa Oeste, a maioria delas cidadãs americanas.
Arthur recebeu ordem para ser enviado a um campo de internamento.
Estelle não.
Como mulher branca, tinha o direito de permanecer livre.
Ela recusou essa possibilidade.
Em 10 de maio de 1942, apresentou-se voluntariamente para acompanhar o marido.
As autoridades deixaram claro que ela não receberia nenhum privilégio por sua origem.
Viveria exatamente nas mesmas condições impostas aos demais prisioneiros.
Ela aceitou sem hesitar.
O casal foi enviado inicialmente ao **Pomona Assembly Center**, na Califórnia, instalado em um antigo parque de exposições.
Alguns meses depois, foi transferido para o **Heart Mountain Relocation Center**, no estado de Wyoming, um dos dez grandes campos criados para manter famílias nipo-americanas confinadas durante a guerra.
Quase 11 mil pessoas chegaram a viver simultaneamente em Heart Mountain.
Ao longo do conflito, cerca de 14 mil passaram por seus portões.
Dentro do campo, Estelle se recusou a apenas esperar o tempo passar.
Trabalhou no jornal da comunidade, participou da banda de mandolins do campo e, principalmente, desenhou.
Registrava o cotidiano dos internos em cadernos e folhas de papel.
Retratava os banheiros sem qualquer privacidade.
As tempestades de poeira atravessando as paredes finas dos alojamentos.
As crianças brincando sob a sombra das cercas de arame farpado.
A princípio, suas ilustrações foram incentivadas pela própria **War Relocation Authority**, responsável pela administração dos campos.
Mas seus desenhos mostravam uma realidade muito diferente da imagem oficial apresentada pelo governo.
Havia um problema.
Tudo o que fosse produzido dentro do campo era considerado propriedade do governo dos Estados Unidos.
Quando a guerra terminou, as autoridades pretendiam confiscar toda a sua obra.
Estelle não permitiu.
Escondeu dezenas de pinturas e desenhos entre suas roupas e as de Arthur.
Assim, conseguiu retirar clandestinamente do campo um dos mais importantes registros visuais da vida nos centros de internamento.
Em 10 de novembro de 1945, Heart Mountain foi oficialmente fechado.
Estelle e Arthur estavam entre os últimos a deixar o local.
Receberam apenas **25 dólares cada** e passagens de trem para voltar à Califórnia.
Mas a vida que conheciam já não existia mais.
Durante anos viveram em um parque de trailers em Burbank, ao lado de centenas de outras famílias que haviam passado pelo mesmo campo.
Trabalharam em fábricas de processamento de peixe para sobreviver.
Mais tarde, Arthur conseguiu emprego no aeroporto de Los Angeles.
Ainda assim, segundo Estelle, ele jamais voltou a ser o mesmo.
Ela dizia que aqueles anos de confinamento haviam envelhecido seu marido em décadas.
Arthur morreu em 1957.
Sozinha, Estelle enfrentou anos de dificuldades financeiras e quase caiu no esquecimento.
Foi somente em 1972 que sua história voltou à tona.
Um curador encontrou as pinturas que ela havia retirado clandestinamente de Heart Mountain.
As obras passaram a integrar uma exposição da Sociedade Histórica da Califórnia e despertaram enorme interesse.
No mesmo ano, Estelle publicou suas memórias no livro **Lone Heart Mountain**, relatando tudo o que havia testemunhado durante o internamento.
Anos depois, o cineasta **Steven Okazaki** a encontrou vivendo em uma casa de repouso.
Funcionários afirmavam que ela estava confusa por causa da medicação.
Ele decidiu ouvi-la mesmo assim.
Descobriu uma mulher de quase 90 anos que recordava com absoluta precisão cada detalhe daqueles três anos.
O resultado foi o documentário **Days of Waiting**.
Estelle Peck Ishigo morreu em 25 de fevereiro de 1990, aos 90 anos.
No ano seguinte, o filme baseado em sua história recebeu o **Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem**.
Ela nunca viveu para assistir à homenagem.
Enquanto muitos escolheram o silêncio diante da injustiça, Estelle abriu mão da própria liberdade para permanecer ao lado do homem que amava.
Jamais descreveu essa decisão como um ato de heroísmo.
Para ela, simplesmente não existia outra escolha.
**— Estudos Históricos**
Comentários
Postar um comentário