domingo, 24 de julho de 2011

EM NOME DE JESUS

Quando João Rigueira partiu da Terra, ardia ele no ideal de fazer o bem. Espírito prestimoso,
não adquirira, no entanto, merecimento para grandes alturas. Era preciso trabalhar mais,
estudar mais...
Por isso, Nicésio, o benfeitor que desde muito o tutelara, foi claro no conselho, ao recebê-lo
no espaço:
- João, você, para elevar-se, precisa mais tempo entre os homens.
- Para quê? – indagou surpreso, o recém-desencarnado, que aspirava aos cimos.
- A fim de aprimorar-se, através do serviço em nome de Jesus – falou o guia.
E acrescentou:
- Além disso, você deixou no mundo a filha pequenina. Rosalva precisará de você...
Lembrou Rigueira o laço mais forte que o prendia na Terra.
Sim, Rosalva... O anjinho que a esposa inconseqüente lhe deixara nos braços, quando
seguira no encalço de aventuras inferiores... Desde a separação da companheira, entrara ele
em duras lições de entendimento para esquecer, mas ficara a menina.
Recordava agora... Antes de libertar-se do corpo físico, entregara-a aos cuidados de pobre
amigo, que se prontificou a interná-la em humilde orfanato. Oh! Deus, como poderia
esquecer a filhinha que deixara mal saída do regaço materno?!
Rigueira começou a chorar; contudo, Nicésio consolou-o:
- João, seja forte. Você recomeçará aqui suas tarefas, em nome de Jesus. Tenho um grupo
de amigos encarnados, junto do qual permanecerá você em atividade, repartindo forças e
atenções, entre o burilamento próprio e o amparo à criança.
- Sim, sim... – acentuou o interpelado em pranto copioso -, procurarei servir, servir...
E realmente, desde então, escolhendo a legenda “em nome de Jesus”, João Rigueira passou
a ajudar em casa do Dr. Vicentino de Freitas, distinto advogado que tentava adaptar-se à
Doutrina Espírita. A esposa, Dona Guiomar, aquiescera em formar uma equipe doméstica
para estudos do Evangelho, à qual se juntara Dona Clélia, uma cunhada viúva, e seus dois
filhos: Martinho e Luís Paulo.
Eram desse modo, cinco aprendizes à mesa, quando Rigueira ocupou a mediunidade de
Dona Clélia, pela primeira vez, dando-se a conhecer como sendo o mensageiro que passaria
a servir ao conjunto, mais diretamente.
Emocionou-se, chorou e pediu a Inspiração Divina... E, desde aquele instante, foi promovido
pela família confortada e alegre ao posto de “Irmão João”.
Duas vezes por semana reunia-se o grupo e o amigo espiritual velava fiel. Mas não só isso.
Era compelido a trabalho diário. Os serviços do Dr. Vicentino reclamavam-lhe assistência, a
saúde de Dona Guiomar pedia abnegação, os problemas de Dona Clélia multiplicavam-se e
os rapazes não lhe dispensavam apoio na luta íntima.
Dois filhinhos de Dona Guiomar surgiram no berço.
Rigueira fora o pagem vigilante, desde os primeiros dias da gestação, amparando e
providenciando... Os gêmeos, Jorge e Jarbas, eram seguidos por ele, quais se lhe fossem
rebentos do coração.
Atalaia incansável. Passes magnéticos e rodo para que os meninos se ajustassem.
Enfermagem no sarampo e auxílio na coqueluche. Socorro contínuo ao campo orgânico de
Dona Guiomar, que aleitava difìcilmente. Bálsamo invisível nos nervos do Dr. Vicentino. E, no
setor de Dona Clélia, concurso incessante.
Mas, na esfera sentimental dele mesmo, o pobre Espírito de João Rigueira acompanhava
agoniado os padecimentos da filha. Rosalva despedira-se do orfanato, já crescida, para
servir na copa de família abastada e, aos catorze anos de idade, já sofria vexames.
O primogênito da casa perseguia e injuriava a mocinha.
Muitas vezes, o Irmão João comparecia às preces e estudos, no lar dos Freitas, de alma em
frangalhos; no entanto, nunca faltava.
Os filhos do Dr.Vicentino cresceram. Luís Paulo e Martinho conquistaram diplomas nobres. E
Rigueira, no batente, alentando a cada um.
À vista de tamanho devotamento, toda a família condecorava-lhe o nome com referências
especiais.
- O Irmão João é o herói da caridade que conhecemos – dizia Dona Clélia, entusiasta.
- Espírito algum nos ensinou a prática da virtude, tanto quanto ele – rematava Dona Guiomar,
fazendo gesto confirmativo com a cabeça.
Estimulado por semelhante carinho, Rigueira, certo dia, tomou decisiva resolução. Insistiu
mentalmente com a filha para sair da luzida residência em que se achava na bica de grave
queda moral.
Rosalva, na primavera dos vinte anos, estava desfigurada, abatida... E tão atormentada se
via na trama dos pensamentos inferiores, que não resistiu, de modo algum, às sugestões do
Espírito paterno. Pôs-se a deambular, rua a fora, acompanhada de perto por ele, que a
conduziu, mecânicamente, para o lar do Dr. Vicentino de Freitas, estuante de otimismo e
ternura.
A família, à noitinha, aguardava o momento exato do Evangelho, quando a jovem tocou a
campainha.
Recebida no caramanchão de acesso, falou inspirada por Rigueira. Via-se abandonada,
pedia trabalho honesto, era órfão, sozinha... Mas o Dr. Vicentino, algo ríspido, explicou que
não precisava de empregada. Dona Guiomar esclareceu que não dispunha de possibilidade
par examinar a proposta. E Dona Clélia, mais generosa, deu-lhe vinte cruzeiros para um
lanche, recomendando-lhe fosse à casa da esquina próxima, onde, segundo ouvira dizer,
necessitavam de cozinheira.
Rosalva retirou-se em lágrimas e, além do portão, ouviu Dona Guiomar que comentava
severa:
- Deve ser uma perdida qualquer...
Ao que Dona Clélia ajuntou com sarcasmo:
- De moça que se oferece, Deus me livre!
Transcorrida meia hora, os componentes do círculo reuniam-se à mesa. Todos reverentes,
em atitude submissa.
Finda a prece de abertura, foi lido e minuciosamente interpretado formoso trecho sobre a
beneficência. Em seguida, o amigo espiritual incorporou-se em Dona Clélia para o serviço do
passe curativo; entretanto, como jamais acontecera no curso de quase vinte anos, o benfeitor
guardava silêncio, mostrando sinais de imensa amargura.
- Que houve irmão João? – perguntou o Dr. Vicentino. – Você, triste?
Rigueira, porém, fez um sorriso desapontado e respondeu paciente:
- Não se preocupe meu amigo. Tudo vai bem...
E concluiu:
- Continuemos trabalhando...em nome de Jesus.