sexta-feira, 28 de outubro de 2011

MENSAGEM AO SEMEADOR

Semeador despertou aos clarões da aurora e começastes a semear...
A dura lavra exigia suor e, dia sobre dia, arroteaste o solo, calejando aos mãos, entre
o orvalho da manhã e a luz das estrelas.
Diante do sacrifício, os mais amados largaram-te a convivência, sequiosos de
reconforto...Mas quando te viste a sós, sem ninguém que te quisesse as palavras, a
natureza conversou contigo, em nome do Céu, e escutaste, surpreendido; as orações
da semente, no instante de morrer abandonada para ser fiel à vida; ouviste as
confidências das roseiras, escravizadas em gleba, cujas flores brilham nos salões, sem
que seja dado outro direito que não aquele de respirar, entre rudes espinhos;
recolheste a história do trigo que te contou, ainda nos cachos de ouro, como seria
triturado nos dentes agudos de implacáveis moinhos, a fim de servir na casa dos
homens; e velhas árvores lascadas e sofredoras te fizeram sentir que Deus lhes havia
ensinado, em silêncio, a proteger carinhosamente, as próprias mãos criminosas que
lhes decepam os ramos...
Consolado e feliz, trabalhaste, semeador!
Um dia, porém, o campo surgiu engalanado de perfume e beleza e aparecem aqueles
que te exigiram a colheita para a festa do mundo...
Choraste na separação das plantas queridas, entretanto, ninguém te viu as lágrimas
escondidas entre as rugas do rosto.
Era sozinho perante as multidões que te disputavam os frutos e por não haver
adestrado verbo primoroso de modo a defender-te, diante das assembléias, e porque a
tua presença simples não oferecesse qualquer perspectiva de encontro social, os raros
amigos de tua causa julgaram prudentes silenciar, envergonhados do rigor de tuas
ásperas disciplinas e da pobreza de tua veste, mas Deus te impeliu à renovação e,
conquanto despojado de teus bens mais humildes, procuraste outros climas e outras
leiras, onde as tuas mãos quebrantadas e doloridas continuaram a semear...
***
Semeador dos terrenos do espírito, que te encaneceste na lavoura da luz, qual
acontece ao cultivador paciente do solo, não te aflijas, nem desanime.
Se tempestades sempre novas te vergastam a alma, continua semeando...E, se
banimentos e solidão devem constituir a herança transitória do teu destino, recorda o
Divino Semeador que, embora piedoso e justo, preferiu a cruz por amor a verdade e
prossegue semeando, mesmo assim, na certeza de que Deus te basta, porque tudo
passa no mundo, menos Deus.
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Meimei/I.Espírita/F.C.Xavier