quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Grão de mostarda

“... Jesus lhes respondeu: É por causa da vossa incredulidade.
Porque eu vô-lo digo em verdade: se tivésseis fé como um grão de
mostarda, diríeis a esta montanha: transporta-te daqui para ali, e ela se
transportaria, e nada vos seria impossível.”
(Capítulo 19, item 1.)



Fé é sentimento instintivo que nasce com o espírito. Crença inata, impulso
íntimo fundamentado na “certeza absoluta” de que o Poder Divino, em toda e
qualquer situação, está sempre promovendo e ampliando nosso crescimento
pessoal.
Essa convicção inabalável na “Sabedoria Divina”, que é a própria
Inteligência que rege a tudo e a todos, atinge sua plenitude nas criaturas mais
evoluídas. Tais valores se encontravam inicialmente em estado embriomírio e,
ao longo das encarnações sucessivas, estruturaram-se entre as experiências
do sentimento e do raciocínio.
Como em todas as manifestações de progresso, também esse impulso
intuitivo do ser humano ligado às faixas da fé é resultado de um
desenvolvimento lento e progressivo.
Por exemplo, a criança não pode manifestar a habilidade de falar, sem ter
atravessado as fases básicas da fonética, isto é, resmungar, balbuciar, soletrar
e silabar.
Desse modo, o ser imaturo, apesar de criado com esse sentimento
instintivo da fé, também atravessa um vasto período de desenvolvimento, que
não se dá por mudanças abruptas, mas por uma série de sensações e
percepções, às vezes mais ou menos demoradas, conforme a vontade e a
determinação do próprio espírito.
Conseqüentemente, a fé plena não é só conquista repentina que
aparece quando queremos; é também trabalho desenvolvido e assimilado ao
longo do tempo.
Ela pulsa em todas as criaturas vivas e agita-se nas menores criações
do Universo.
Encontra-se na renovação do mineral rompido, que se restaura a si
mesmo; aparece no fototropismo das plantas em crescimento; impulsiona o
“relógio interno”, que incita as aves a efetuar suas migrações, quase na mesma
época em todos os anos; aguça o “regresso ao lar”, ou seja, estrutura a
capacidade de orientação e localização observada em certos animais domésticos.
A fé também estimula o homem selvagem a nutrir a crença na existência
de um ser supremo, que eles adoram nos fenômenos e elementos da
Natureza.
Entendemos, dessa forma, que a fé não equivale a uma “muleta
vantajosa” que nos ajuda somente em nossas etapas difíceis, nem
“providências de última hora” para alcançarmos nossos caprichos imediatistas.
Ter fé é auscultar e perceber as “verdadeiras intenções” da ação divina em nós
e, acima de tudo, é o discernimento de que tudo está absolutamente certo.
Nada está errado conosco, pois o que chamamos de “imperfeição” no
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mundo são apenas as lições não aprendidas ou não entendidas, que precisam
ser recapituladas, a fim de que possamos nos conhecer melhor, assim como as
leis que regem nossa existência.
Ter fé em Deus é reconhecer que a Natureza, “Arte Divina”, garante
nossa própria evolução. Mesmo quando tudo pareça ruir em nossa volta, é
ainda a fé amplamente desenvolvida que nos dará a certeza de que, mesmo
assim, estaremos sempre ganhando, ainda que momentaneamente não
possamos decifrar o ganho com clareza e nitidez.
No Universo nada existe que não tenha sua razão de ser. Tudo aquilo
que parece desastroso e negativo em nossa existência, nada mais é que a vida
articulando caminhos, para que possamos chegar onde estão nossos reais
anseios de progresso, felicidade e prazer.
A criatura que aprendeu a ver o encadear dos fatos de sua vida, além de
cooperar e fluir com ela, percebe que aquilo que lhe parecia negativo era
apenas um “caminho preparatório” para alcançar posteriormente um Bem Maior
e defmitivo para si mesma.
As grandes tragédias não significam castigos e punições, porém maiores
possibilidades futuras para a obtenção de uma melhoria de vida íntima e,
paralelamente, de plenitude existencial.
Em face dessas realidades, a fé aperfeiçoada faz com que possamos
avaliar em todas as ocorrências uma constante renovação enriquecedora.
Quando todas as árvores estão despidas, é que se inicia um novo ciclo em que
elas reúnem suas forças embrionárias e instintivas da fé para novamente se
vestir de folhas, flores e frutos.
Tudo na Natureza obedece a “ritmos”. São processos da vida em ação.
No final de um ciclo, nossa energia declina para, logo em seguida, reunirmos
mais forças para uma nova incursão renovadora.
A cada nova etapa de crescimento, talvez nos sintamos temerosos e
inseguros, a exemplo de certos animais que perdem momentaneamente seus
revestimentos protetores. Depois, no entanto, nos sentiremos melhor
adaptados, ao nos cobrirmos com elementos e estruturas mais eficientes, e
que nos permitam prosseguir mais ajustados em nosso novo estágio evolutivo.
Assim acontece com todos. Seremos atingidos por um “sereno bem-estar”
quando visualizarmos antecipadamente as porvindouras oportunidades de
reconforto, prosperidade e segurança que a vida nos trará após atravessarmos
os “ciclos amargos” do renascimento interior.
A confiança em que tudo está justo e certo e em que não há nada a
fazer, a não ser melhorar o nosso próprio modo de ver e entender as coisas,
alicerça-se nas palavras de Jesus: “até os fios de cabelo da nossa cabeça
estão todos contados”(1). É a convicção perfeitamente ajustada a uma
compreensão ilimitada dos desígnios infalíveis e corretos da Providência
Divina.
Em muitas ocasiões, somente usando os recursos interpretativos da fé,
nos grandes choques e tragédias, é que podemos notar o “processo de
atualização” que a vida nos oferece, porqüanto o significado de um
acontecimento é captado em plenitude apenas quando “decifrado”.
É o único caminho que nos permitirá encontrar a verdadeira
compreensão e entendimento dos fatos em si.
Entretanto, quando não traduzimos no decorrer dos acontecimentos
nossos episódios existenciais, sentimos que nossa vida vai-se tornando
inexpressiva, sem nenhum sentido, porque vamos perdendo contato com as
mensagens silenciosas e sábias que a vida nos endereça.
Aqui estão algumas interpretações de fatos aparentemente negativos,
quando na realidade são profundamente positivos:
— Para vencermos a doença é necessário interpretar o que o sintoma
quer-nos alertar sobre o que precisamos fazer ou mudar para harmonizar
nosso psiquismo descontrolado.
— Sucessivos acontecimentos de “abandono” e “decepção” em nossa
vida são mensagens silenciosas alertando-nos que nosso “grau de ilusão”
ultrapassou os limites permitidos.
— Perda de criaturas queridas pode ser a lição que nos vai livrar de
atitudes possessivas e de apegos patológicos, tanto para quem parte como
para quem fica.
— Alucinação e loucura podem nos adestrar para maiores valorizações
da realidade, afastando-nos de fantasias e aparências.
— Vícios de qualquer matiz podem estabelecer nos indivíduos normas
corretivas na vida interior, a fim de que aprendam a lidar e a controlar melhor
suas emoções e sentimentos.
— Traição afetiva pode nos exercitar na fiscalização de nosso “grau de
confiabilidade” e “vulnerabilidade” perante os outros.
— Desprezo ou desconsideração podem ser emissões educativas,
impulsionando-nos a um maior amor a nós próprios.
O ser humano de fé não é crédulo nem fanático; é antes o indivíduo que
distingue os lucros e vantagens inseridos nos processos da vida. Compreende
a seqüência de fatos interconectados aprimorando-se paulatinamente para
intensificar sua estabilidade e harmonia e, como conseqüência, seu
engrandecimento espiritual.
Em síntese, a fé como força instintiva da alma guarda em si
possibilidades transcendentes e poderes infinitos. Ao ampliá-la, o homem se
potencializa vigorosamente, fluindo e contribuindo com o próprio ritmo da vida
como um todo.
O “grão de mostarda”, na comparação de Jesus Cristo, representa a
minúscula semente como sendo o “impulso imanente” que começa a se formar
no “princípio inteligente”, nos primeiros degraus dos reinos da Natureza. Ao
longo dos tempos, se transmuta, desenvolvendo potencialidades inatas, e,
futuramente, se transforma num ser completo e de ações poderosas.
Devemos compreender, por fim, que o “poder da fé” realmente
“transporta montanhas” e que para o espírito nada é inacessível, pois, quando
percebe a razão de tudo e interpreta com exatidão a sabedoria de Deus, a vida
para ele não tem fronteiras.
Ao ampliarmos nossa consciência na fé, sentiremos uma inefável
serenidade íntima, porque conseguimos entender perfeitamente que, no
Universo, tudo está “como deve ser”; não existe atraso nem erro, somente a
manutenção e a segurança do “Poder Divino” garantindo a estabilidade e o
aperfeiçoamento de suas criaturas e criações.
(1)Lucas 12:7