quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

“Quem Ouve Estas Minhas Palavras e as Realiza...”

O Sermão da Montanha — esse maior documento de espiritualidade que
o mundo conhece — termina de um modo solene e majestoso, como os
derradeiros acordes duma grande ópera ou sinfonia.
Quem ouve estas minhas palavras e as realiza assemelha-se a um
homem sábio que edificou a sua casa sobre rocha; desabaram aguaceiros,
transbordaram os rios, sopraram os vendavais e deram de rijo contra essa
casa, mas ela não caiu, porque estava construída sobre rocha.
Mas quem ouve estas minhas palavras e não as realiza , esse se
assemelha a um homem insensato que edificou a sua casa sobre areia
desabaram aguaceiros, transbordaram os rios, sopraram os vendavais e deram
de rijo contra essa casa, e ela caiu, e foi grande a sua queda.”
Ai está: tanto o sábio como o insensato ouvem as palavras do grande
Mestre; mas um as realiza, e o outro não as realiza. A diferença não está no
ouvir, na teoria, mas em realizar. Ter grandes idéias na cabeça e belos ideais
no coração — é compatível com uma grande ruína, com um fracasso total da
existência humana, caso esses conhecimentos não se concretizem em obras.
O que resolve não é ouvir — é realizar.
Ouvir é gostoso e inofensivo, e por isso são muitos os que gostam de
ouvir às palavras dos grandes mestres da humanidade. Ter grandes idéias na
cabeça e belos ideais no coração é tão suave e agradável; pode até granjearnos
a fama de filósofos e poetas, ou mesmo produzir nos inexperientes a
impressão de sermos místicos e santos. Acontece mesmo que as palavras do
homem sejam a “imagem especular” da sua vida, que ele sinta a necessidade
de dizer coisas espirituais para compensar a sua falta de espiritualidade
interna. Quando se coloca diante do espelho uma escrita qualquer, ela aparece
invertida; para que apareça direita, é necessário invertê-la no papel.
Quando as idéias e os ideais passam da cabeça e do coração para as
mãos, os pés, a vida total, então elas passam como que por uma crucificação,
descendo da vertical e cruzando a horizontal dos atos. E essa crucificação é
necessária para que as idéias e os ideais frutifiquem em atos.
Idéias e ideais, embora necessários, são como areia, movediço areal,
sobre o qual ninguém pode construir casa sólida e garantida. Em tempo de
bonança, essa areia parece resistir; mas sobrevenham tempestades,
sofrimentos, decepções — e as areias das idéias e dos ideais cedem ao
embate, e o edifício da espiritualidade rui por terra, e será grande a sua ruma.
Só a prática real e constante da doutrina do Cristo garante experiência
profunda, e só essa experiência vital da alma do Evangelho é que é rocha viva
para o edifício da nossa espiritualidade.
*
“Quem realiza estas minhas palavras é um sábio”... O Sermão da
Montanha termina com um veemente apelo para uma realização creadora do
seu conteúdo. Pode o homem profano ser um talento criativo ou produtivo, mas
o homem iniciado na suprema Verdade é um gênio creador, que manifesta em
existência individual a Essência Universal. A produtividade do ego humano é
uma simples continuação e transformação de algo já existente “remendo novo
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em roupa velha”, ao passo que a creatividade do Eu divino é um novo início,
um a iniciação, uma iniciativa realizadora, uma “nova creatura em Cristo”.
A palavra “realizar” (em grego, poiein), que encerra esse documento
máximo da espiritualidade, é a mesma que aparece no Gênesis, quando os
Elohim crearam os mundos, palavra que indica o poder creador pela qual a
Infinita Essência fez emanar de si as Existências Finitas, O resultado dessa
creação é chamada poiema, que é o poema cósmico do Universo.
Deste modo deve o verdadeiro discípulo do Cristo realizar creativamente
a alma do Sermão da Montanha em todos os setores da sua vida.
Fiat lux...
Quem realiza esta mensagem é um homem sábio, univérsico, que
construiu a casa da sua vida sobre rocha viva, desafiando tempestades e
terremotos.