segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Desapego familiar

“... Mas ele lhes respondeu: Quem é minha mãe e quem são meus
irmãos? E olhando aqueles que estavam sentados ao seu redor: Eis,
disse, minha mãe e meus irmãos; porque todo aquele que faz a vontade
de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”








Em correta acepção, desapego quer dizer o sentimento de alguém que
desenvolveu sua capacidade de avaliar e selecionar o que “pode” e o que
“deve fazer”, estruturado em seu próprio senso de autonomia.
Agarrar-se a familiares de modo exagerado gera desajustes e doenças
psicológicas das mais diversas características: desde a mais leve das
inseguranças - se deve ou não sair de casa para um passeio a sós, ou que
roupa deve usar - até o pânico incontrolável de tudo e de todos, que leva o
indivíduo ao desequilíbrio em seu desenvolvimento e maturidade emocional.
A reencarnação faz o ser humano exercitar a independência, quando
propõe que ele é um viajante temporário entre pessoas, sexo, profissão,
países, continentes ou mundos.
Não obstante, ela não destrói os laços do amor verdadeiro, antes cria
diversos vínculos afetivos entre as almas. Pais, cônjuges, filhos e amigos
voltam a conviver em épocas e em posições completamente diferentes,
estabelecendo na consciência uma maneira universalista de ver os
relacionamentos da afeição e da simpatia, sem aprisionamentos ou
dependências.
É importante compreendermos que, mesmo em família, não viemos à
Terra só para fazer o que queremos, para satisfazer fazer nossos caprichos ou
nos agradar, pois não devemos nos ver como devedores ou cobradores uns
dos outros, mas como criaturas companheiras que vieram cumprir uma
trajetória evolutiva, ora juntas no mesmo séquito consangüíneo. Desse modo,
devemos levar em conta a individualidade de cada membro familiar e respeitálo,
sem imposições ou submissões, pelo modo peculiar que encontrou de ser
feliz e dirigir sua própria existência.
Cada pessoa que vive neste planeta deve aprender suas próprias lições,
e é inconcebível tentarmos fazer os deveres por elas, porque cada uma
aprende com suas próprias experiências e no momento propício.
Podemos, sim, oferecer aos familiares uma atmosfera de compreensão e
apoio, para que tenham por si sós a decisão de mudar quando e como
desejarem, atitudes essas possibilitadoras de relacionamentos seguros e
duradouros.
É imperativo que se entenda que as ações possessivas criam indivíduos
servis e profundamente inseguros, que futuramente precisarão ter sempre os
familiares em sua volta, como uma “corte”, a fim de se sentir amparados.
O exemplo clássico de criaturas apegadas é o daquelas que foram
criadas por “superpais”, e que durante muito tempo se mantiveram subjugadas
e presas pelos fios invisíveis dessa “suposta proteção”, que, na realidade, era
apenas uma “forma inconsciente” de suprir fatores emocionais desses mesmos
adultos em desarranjo.Crianças que foram educadas sob a orientação de adultos incapazes de
estabelecer limites às vontades e desejos delas, contentando-as de forma
irrestrita, sem nenhuma barreira, desenvolveram dependências patológicas que
geraram progressivamente uma acentuada incapacidade de resolver
problemas peculiares a sua idade, enquanto outras, nessa mesma idade,
mostraram-se perfeitamente habilitadas para encará-los e solucioná-los.
Crianças que se jogam ao chão, entre crises de falta de fôlego e de choro
fácil, sem nenhuma razão de ser, são consideradas mimadas. Tais
comportamentos resultam do fato de terem sido tratadas como incapazes e
com atitudes infantilizadas.
Pessoas inseguras e insuficientemente maduras educam os filhos da
mesma maneira que foram criadas, repetindo para sua atual família os mesmos
comportamentos “superprotetores” que vivenciaram na fase infantil; ou mesmo,
por terem tido uma enorme experiência de rejeição no lar, também adotam a
“superproteção” como forma de compensar tudo o que passaram e sofreram na
infância.
Encontramos uma das maiores lições sobre a liberdade e o desapego nas
palavras de Jesus de Nazaré, quando se aproveitou da circunstância em que
estavam reunidas varias pessoas, e lançou o ensinamento do “amor sem
fronteiras”.
Apesar de respeitar e amar profundamente sua família, exaltou o
“desapego familiar” como a meta que todos deveríamos atingir, a fim de
alcançarmos os superiores princípios da fraternidade universal e o verdadeiro
sentido da liberdade integral.