segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Um impulso natural

“... Esse sentimento resulta mesmo de uma lei física: a da assimilação
e da repulsão dos fluidos...”
“... daí a diferença de sensações que se experimenta à aproximação
de um amigo ou de um inimigo...”
“... Amar os inimigos... é não ter contra eles nem ódio, nem rancor,
nem desejo de vingança...”





“Amar os inimigos não é, pois, ter para com eles uma afeição que não está
na Natureza, porque o contato de um inimigo faz bater o coração de maneira
bem diferente do de um amigo”. (1)
Na investigação profunda da raiva, do rancor ou da ira, devemos
considerar os poderosos e irracionais impulsos de agressividade, espontâneos
e inatos na psique humana. São emoções ou formações psíquicas que o
espírito partilha com o mundo animal, do qual faz parte e de onde evoluiu.
A moderna teoria evolutiva deve mais a Charles Darwin do que a qualquer
outro evolucionista, pois foi toda ela construída nas bases de sua obra
intitulada “A Origem das espécies”. Hoje está provado cientificamente que as
criaturas humanas sofreram um processo de evolução extraordinário. Somente
do hominídeo pré-histórico denominado de “Java” ou “Pithecanthropus erectus”
até o homem moderno, transcorreram milhares e milhares de anos de
desenvolvimento e aprimoramento do organismo do ser vivo.
Dessa forma, não podemos separar a Natureza de nós mesmos, pois
também somos Natureza, já que pertencemos aos mesmos departamentos da
vida, desde o mineral, vegetal, animal até ao homem. Na Natureza tudo foi
criado com um objetivo e função, porque nada do que está em nós está errado.
O que acontece é que, muitas vezes, usamos mal - ou seja, não aprendemos a
usar convenientemente e dentro de um senso de equilíbrio - as possibilidades
mais íntimas de nossa alma imortal.
Em nossos parentes distantes, os animais irracionais, existe o impulso
do ataque-defesa.
Manifesta-se também em nós esse mesmo impulso, denominado
“instinto de destruição”. É ele uma das primeiras manifestações da lei de
preservação, da sobrevivência dos animais em geral, e imprescindível para
defendê-los dos perigos da vida.
Nos dias atuais, o termo “raiva” talvez tenha sido interpretado como
sendo somente crueldade, violência, vingança, quando, na realidade, significa
primordialmente “estado de alerta”, visto que essa energia emocional nos
aguça todos os demais sentidos, para uma eventual necessidade de proteção e
apoio a qualquer fato ou situação que nos coloque em ameaça.
Esse impulso natural possibilita à nossa mente uma maior oportunidade
de elaboração, percepção e raciocínio, deixando-nos alerta para enfrentar e
sustentar as mais diversas dificuldades. Ativa nossos desejos de realização,
impulsiona ações determinantes para rompermos a timidez e
constrangimentos, encoraja-nos a nos colocar no meio social e estimula-nos a
defesa-fuga diante de situações de risco.
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Em vista disso, entendemos que exaltação, irritação, melindre, raiva,
ódio, violência ou crueldade fazem parte da mesma família desse impulso, bem
como coragem, persistência, determinação, audácia, valentia. Podemos sentir
essas mesmas emoções, em níveis diversos de intensidade, de conformidade
com nosso grau de evolução, conceituando esse ímpeto com nomenclaturas
diversificadas.
A etimologia da palavra “emoção” significa “movimento para fora’’ e
pode ser conceituada como sendo ‘‘movimento que sobe ou emerge em face
de um possível estado de prazer ou dor”.
Emoções de “construção”, assim denominadas a simpatia e o afeto,
aparecem com a “antecipação do prazer” já as emoções de “destruição”,
também conhecidas como raiva ou initação, surgem com a “antecipação da
dor”.
Destruição e construção, isto é, raiva e prazer, são os grandes impulsos
de onde derivam todos os demais. Os instintos de construção e destruição são
as fontes primitivas às quais todo o processo da vida está ligado e, por certo, o
seu controle e direcionamento darão um melhor ou pior curso em nossa
existência e em nosso crescimento pessoal.
Portanto, quando ao ser humano é negado o direito de expressar sua
raiva ou prazer, castrado nos seus primeiros anos de vida, torna-se uma
criança indefesa, com tendência a ter uma personalidade tímida, medrosa e
passiva. Já as “tolerâncias ilimitadas” dos pais nessas áreas induzirão o menor
a se confundir com o uso de seus impulsos de agressividade e afeto, podendo
atingir igualmente, em seu estado adulto, comportamentos apáticos e
demonstrar uma enorme falta de iniciativa, infantilização ou superlativa
dependência do lar.
Grande parte dos professores, tios, pais e avós mantêm uma forma de
visão preconceituosa e obstinada sobre a “raiva”, soterrando os instintos inatos
da criança, castigando-a e vendo-a como criatura má e imperfeita, a qual
atribuem atitudes reprováveis.
Por acreditarem que tais energias emocionais sejam completamente
condenáveis e inadmissíveis, é que forçam os pequenos a ser, a qualquer
preço, “adaptados” e “bem-comportados”, a maneira deles. Isso irá gerar mais
adiante posturas de isolamento e distanciamento dos adultos, por lhes ter sido
negado o exercício de aprender a comandar suas mais importantes e primitivas
emoções.
Na contenção da raiva no adulto, notamos o escoamento do instinto
para outros órgãos do corpo físico, surgindo assim a somatização com o
aparecimento neles dos primeiros sinais de doença, pois para lá que a energia
reprimida se transferiu e se localizou.
Em outras situações, as manifestações do descontrole dessas energias
geram crises de fúria, predisposições ao suicídio, apatias, acerbações sexuais,
paralisias histéricas, sentimentos de culpa, fobias e outros tantos transtornos
espirituais e mentais.
Todas as vezes que somos incomodados ou defrontados com
agressores, o impulso de raiva vai surgir. Ele é automático, énosso “estado de
alerta”, que nos vigia e que nos defende de tudo aquilo que pode nos
comprometer ou destruir.
Nas criaturas mais amadurecidas, contudo, os impulsos instintivos
moldaram-se à sua mentalidade superior, e elas passaram a controlá-los,
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canalizando-os de forma mais adequada e coerente. Esses dois impulsos
fundamentais, o prazer e a raiva, nesses mesmos indivíduos foram depurados
em seus estados primitivos - atividades eróticas e violentas - e transformados
nas atividades das áreas afetiva e de iniciativa com determinação.
Essencialmente, porém, é preciso dizer que o ato de transformação do
impulso de destruição não requer a “anulação” ou “extinção” dele em nossa
intimidade , e sim o aprendizado de transmutá-lo, observando o que diz
literalmente a palavra “transformação”, oriunda do latim: “trans” quer dizer
“através de”; “forma”, o modo pelo qual uma coisa existe ou se manifesta; e
“actio”, “ação”. Entendemos por fim que, “através de novas ações, mudaremos
as formas pelas quais a raiva se manifesta”, sem, todavia, aniquilá-las ou
exterminá-las.
Com essa visão, a proposta salutar de canalizar e sublimar a
agressividade é promover-nos profissionalmente, criando atividades
educativas, usando práticas do esporte e outras tantas realizações. Todos
aqueles que se dedicam às atividades nas áreas da criatividade, como poetas,
pintores, oradores, escultores, artesãos, escritores, compositores e outros,
fazem parte das criaturas que direcionam seus impulsos de agressividade para
as artes em geral, sublimando-os.
Por sua vez, os que se exercitam fisicamente constituem exemplos
clássicos daqueles que escoam naturalmente para o esporte sua energia de
raiva. Outros tantos a transformam, redirecionando-a para as atividades junto
aos carentes, nas obras e instituições de promoção e assistência social.
Quando as crianças insistirem em cortar, destruir, quebrar, arrancar,
esmagar, torcer, bater ou amassar, estão apenas manuseando suas emoções
emergentes de raiva ou seus impulsos agressivos, para que saibam usá-los no
futuro com controle e conveniência. Em vez de censurá-los e criticá-los,
devemos oferecer-lhes um “material adequado”, para que essas manifestações
possam ocorrer plenamente, sem dissabores ou demais prejuízos.
Desse modo, “amar os inimigos não é, pois, ter para com eles uma
afeição que não está na Natureza”. (2) Nossas emoções são energias que
obedecem às leis naturais da vida, são previstas nos estatutos da “Lei de
destruição” e da “Lei de conservação”, e agem mecanicamente, pois são
disparadas ao detectarmos nossos adversários.
Não obstante, “o contato de um inimigo faz bater o coração de maneira
bem diferente do de um amigo”, (3) quer dizer, a emoção energética da raiva
ativa a glândula supra-renal, que libera a adrenalina no sangue. O coração
acelera, a pressão arterial sobe, a respiração se intensifica, os músculos se
contraem; daí sentirmos essa sensação estranha e incômoda.
Em síntese, “amar” os inimigos ou adversários, na interpretação do
ensino de Jesus Cristo, não é nutrir por eles ódio ou qualquer propósito de
vingança, nem mesmo desejar-lhes mal algum.
Acima de tudo, o Mestre queria dizer que nossas emoções inatas de
raiva, em nosso atual contexto evolutivo, não querem, em verdade, destruir
nada do que está “fora de nós”, como se fazia nos primórdios da evolução. Ao
contrário, elas querem nos defender, destruindo conceitos, atitudes e
pensamentos “dentro de nós”, os quais nos tornam suscetíveis e vulneráveis ao
mundo e, conseqüentemente, nos fazem ser atacados, machucados e
ofendidos.