terça-feira, 29 de maio de 2012

Filhos


Nasce a criança, trazendo consigo o patrimônio moral que lhe
marca a individualidade antes do renascimento no plano físico; no
entanto, receberá os reflexos dos pais e  dos mestres que lhe  imprimirão à nova chapa cerebral as imagens que, em muitas ocasi-
ões, lhe influenciarão a existência inteira.
Indiscutivelmente, a instrução espera-lhe o espírito em nova
fase, enriquecendo-lhe o caminho nesse ou naquele mister; contudo,  importa reconhecer que a palavra escrita, em confronto com a
palavra falada ou com o exemplo direto, revela poderes de repercussão menos vivos, mormente quando torturada entre os preconceitos da forma gramatical.
É que a voz e a ação prática jazem impregnadas do magnetismo indutivo que se desprende da reflexão imediata, operando
significativas transformações para o bem ou para o mal, segundo
a natureza que lhes personaliza as manifestações.
As crianças confiadas na Terra ao nosso zelo são portadoras
de aparelhagem neurocerebral completamente nova em sua estrutura orgânica, à feição de câmara fotográfica devidamente habilitada a recolher impressões. A objetiva, que na máquina dessa
espécie é constituída por um sistema de lentes apropriadas, capazes de colher imagens corretas sobre recursos sensíveis, é representada na mente infantil por um espelho renovado em que se
conjugam visão e observação, atenção e meditação por lentes da
alma, absorvendo os reflexos das mentes que a rodeiam e fixandoos em si própria, como elementos básicos de Conduta.
Os pequeninos acham-se, deste modo, à mercê dos moldes
espirituais dos que lhes tecem o berço ou que lhes asseguram a
escola, assim como a argila frágil e viva ante as idéias do oleiro.

Não podemos, pois, esquecer na Terra que nossos filhos, embora carreando consigo a sedimentação das experiências passadas,
em estágios anteriores na gleba fisiológica, são companheiros que
nos retomam transitoriamente o convívio, quase sempre para se
reajustarem conosco, aos impositivos da  Lei Divina, necessitados
quanto nós mesmos, de provas e ensinamentos, no que tange ao
trabalho da regeneração desejada.
Excetuados aqueles que transcendem os nossos marcos evolutivos, à face da missão particular de que se investem na renovação
do ambiente  comum, todos eles nos sofrem os reflexos, assimilando impressões entranhadamente perduráveis que, às vezes, lhes
acompanham os passos desde a meninice até a morte do corpo
denso.
Tratá-los à conta de enfeites do coração será induzi-los a  funestos enganos,  porquanto, em se tornando ineficientes para a luta
redentora, quando se lhes desenvolve o veículo orgânico facilmente se ajustam ao reflexo dominante das inteligências aclimatadas na sombra ou na rebeldia, gravitando para a influência do
pretérito que mais deveríamos evitar e temer.
É assim que toda criança, entregue à nossa guarda, é um vaso
vivo a arrecadar-nos as imagens da experiência diária, competindo-nos, pois, o dever de traçar-lhe noções de justiça e trabalho,
fraternidade e ordem, habituando-a, desde cedo, à disciplina e ao
exercício do bem, com a força de nossas demonstrações, sem,
contudo, furtar-lhe o clima de otimismo e esperança. Acolhendoa, com amor, cabe-nos recordar que o coração da infância é urna
preciosa a incorporar-nos os reflexos, troféu que nos retratará no
grande futuro, no qual passaremos todos igualmente a viver, na
função de herdeiros das nossas próprias obras.

Pensamento e Vida/Emmanuel/FXC