sábado, 18 de agosto de 2012

PODER PARA O PRAZER

A formulação hedonista do prazer conduz o indivíduo a considerá-lo como
sendo uma inevitável conseqüência do poder, transferindo todas as aspirações
para esse tipo de conquista, muito confundido com o triunfo em apresentação
de sucesso.
O poder tem recursos para levar ao prazer em razão das portas que abre,
quase todas porém, de resultados enganosos, porque aqueles que se acercam
dos poderosos estão, quase sempre, atormentados pelo ego, utilizando-se da
circunstância para satisfazer aos conflitos em que se debatem. Os seus
referenciais são falsos, a sua amizade é insustentável, a sua solidariedade é
enganosa, e eles trabalham como atores em uma peça cuja fantasia é a
realidade...
A busca do poder vem-se tornando febril, gerando conceitos errôneos que
propõem qualquer método desde que o objetivo seja alcançado, especialmente
com brevidade, já que o tempo é muito importante para a usança do prazer.
Na Obra de Oscar Wilde, denominada O retrato de Dorian Gray, é possível
ver-se a terrível aflição do jovem para manter a aparência, a fim de desfrutar de
todos os gozos, mesmo os derivados da abjeção, com rapidez e sofreguidão.
Não lhe importavam as vidas ceifadas, as angústias dilaceradoras que a
sua insaciável busca ia deixando para trás. A indução infeliz de Lorde Harry
Wolton permanecia-lhe na mente aturdida, como uma hipnose dominadora. Ele
falara-lhe que a juventude passava rapidamente e que o corpo belo se
transformaria inevitavelmente, desorganizando-se, degenerando. Seria pois,
necessário, fruir o prazer até à exaustão, naquele momento fugidio, na estação
dos verdes anos.
O moço, embriagado pelo narcisismo, sem escutar a sensatez do seu
amigo, o pintor Basil Hallward, deixou-se arrebatar e proclamou o desejo de
que envelhecesse o retrato, não ele, ficando no esplendor da juventude, que
era o seu poder mais relevante, assim passando a viver a situação amarga que
o vitimou.
Wilde, sem conhecer os complexos mecanismos do perispírito, descreveu
como os atos ignóbeis do ser passam a ser registrados nesse corpo
intermediário e sutil, que se deforma até a mais vulgar e depravada expressão,
decorrente da conduta perversa e promíscua de Dorian, culminando em mais
crime e na tragédia da autoconsumpção...
Por outro lado, o poder econômico parece acenar com maior quota de
prazeres, considerando-se o número de pessoas que se escravizam ao
dinheiro, vendendo a própria existência para atender à desmedida ambição.
Em razão disso, o desespero pela sua aquisição torna-se meta de muitas vidas
que naufragam, quando o conseguem — não se sentindo completadas
interiormente — ou quando não se vêem abençoadas pelo apoio da fortuna,
enveredando pelo corredor da revolta e tombando mais além da miséria a que
se entregam.
O poder converte-se, desse modo, em verdadeira paixão ou numa quimera
a ser perseguida. E porque os seus valores são ilusórios, as suas vítimas se
multiplicam volumosamente.
Todos aspiram a algum tipo de poder. Até o poder da mentira é
mencionado com suficiente força para se conseguir algum triunfo, e não são
poucos os indivíduos que o utilizam, terminando por infamar, destruir,
malsinar...
Mediante o poder adquire-se a possibilidade de manipular vidas, alterar
comportamentos, atingir os cumes das vaidades doentias.
É inata essa ambição, porqüanto está presente nos animais expressandose
em força, mediante a qual sobrevive o espécime mais forte.
O homem, no entanto, porque pensa, recorre ao poder a fim de desfrutar
de mais prazer, e o faz individualmente, tornando-se um perigo quando o
transferiu para as massas que, através de pressões violentas, alteram a
conduta do próprio grupo social: sindicatos para a defesa de empregados;
agremiações para proteção dos seus membros; clubes para recreações;
condomínios para guarda de algumas elites; clínicas de variadas
especialidades para a proteção da saúde...
Graças a essa força transformada em poder coletivo o processo de
evolução da humanidade tornou-se factível, mas também as guerras
irromperam cada vez mais cruéis, as calamidades sociais mais desastrosas, o
crime organizado mais virulento... Nessa marcha, com a soma do poder nas
mãos de governos arbitrários, a possibilidade da destruição de milhões de
vidas e mesmo do planeta, torna-se uma realidade nunca descartada dos
estudiosos do comportamento coletivo dos povos.
O poder, quando em pessoas imaturas, corrompeas, assim como se torna
instrumento de perversão de outros indivíduos que se lhe entregam inermes e
ansiosos.
Tudo, porém, guardando-se a ambição do prazer que se poderá usufruir.
O poder, por mais recursos disponha, é antagônico ao prazer. Isto porque
o prazer resulta do inter-relacionamento das energias que são liberadas no
fluxo das sensações que o ser corporal experimenta em si mesmo ou no meio
em que se movimenta. O poder, no entanto, é forte enquanto produz o
represamento e o controle da energia. Ademais, o poder é fonte de conflito, o
que impede o prazer real, exceto em condições patológicas do seu possuidor.
Através do poder surgem o abuso, a ausência de senso das proporções, a
dominação ameaçadora e desagregadora do relacionamento humano. A vida
familiar perde a sua estrutura quando um dos cônjuges assume o poder e o
expande, submetendo o outro e os demais membros do clã. No grupo social, o
mais fraco se sente sempre intimidado sob a espada de Damocles, que parece
prestes a cair-lhe sobre a cabeça.
Há uma tendência natural no poder, que o leva a submeter os demais
seres ao seu talante, tornando-se repressório e cruel. Toda repressão e
crueldade castram o prazer, mesmo quando este se pode apresentar, porque
se vê rechaçado ou rebaixado à condição de satisfação individual, angustiada.
Quando o poder, no entanto, supera as barreiras dos interesses
mesquinhos do ego, passa a trabalhar para a comunidade igualitária, na qual
surgirão os prazeres compensadores. Para que tal se realize, torna-se
inevitável a necessidade, o cultivo da criatividade, permitindo que o ser humano
cresça e expanda a sua capacidade realizadora, fomentando o bem-estar geral
e a harmonia entre os indivíduos, jamais se direcionando para fins que não
sejam o crescimento e a valorização da sociedade.
Seja qual for a forma de poder, torna-se imprescindível a liberação da sua
carga egoísta para preencher a superior finalidade do prazer.