quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A BUSCA DA REALIZAÇÃO

A infância, construtora da vida psicológica do ser humano, deve ser
experienciada com amor e em clima de harmonia, a fim de modelá-lo para
todos os futuros dias da jornada terrestre.
Os sinais das vivências insculpem-se no inconsciente com vigor, passando
a escrever páginas que não se apagam, quase sempre revivendo os episódios
que desencadeiam os comportamentos nos vários períodos por onde transita.
Quando são agradáveis as impressões decorrentes dos momentos felizes,
passam a fazer parte da auto-realização, contribuindo poderosamente para o
despertar do Si profundo, que vence as barreiras impeditivas colocadas pelo
ego. Se negativas, perturbam o desenvolvimento dos valores éticos e comportamentais,
gerando patologias psicológicas avassaladoras, que se
expressam mediante um ego dominador, violento, agressivo, ou débil,
pusilânime, dúbio, pessimista, depressivo.
Essas marcas são quase que impossíveis de ser apagadas do
inconsciente atual, qual aconteceria com a mossa provocada por uma pressão
ou golpe sob superfície delicada que, por mais corrigida, sempre permanece,
mesmo que pouco perceptível.
A busca da realização pessoal deve iniciar-se na auto-superação,

mediante vigorosa auto-análise das necessidades reais relacionadas com as
aparentes, aquelas que são dominadoras no ego e não têm valor real, quase
nunca ultrapassando exigências e caprichos da imaturidade psicológica.
Para o cometimento, são necessárias as progressivas regressões aos
diferentes períodos vividos da juventude e da infância, até mesmo à fase de
recém-nascido, quando o Self verdadeiro foi substituído pelo ego artificial e
dominador. Foi nessa fase que a inocência infantil foi substituída pelo
sentimento de culpa, em razão da natural imposição dos pais, no lar, e, por extensão
dos adultos em geral em toda parte. Mais tarde, identificando-se errada,
em razão de não haver conseguido modificar os pais, nem vencer a teimosia
dos adultos, mascara-se de feliz, de virtuosa, perdendo a integridade interior, a
pureza, aprendendo a parecer o que a todos agrada ao invés de ser aquilo que
realmente é no seu mundo interior.
Esse trabalho de progressão regressiva que se pode lograr mediante
conveniente terapia é muito doloroso, porque o paciente se recusa
inconscientemente a aceitar os erros, como forma de defesa do ego e, por
outro lado, por medo do enfrentamento com todos esses medos aparentemente
adormecidos. O seu despertar assusta, porque conduz a novas vivências
desagradáveis. O ego, no seu castelo, conseguiu mecanismos de defesa e
domina soberano, reprimindo os sentimentos e disfarçando os conflitos,
porqüanto sabe que a liberação desses estados interiores pode levar à
agressividade ou ao mergulho nas fugas espetaculares da depressão.
Todos os indivíduos, de alguma forma, sentem-se desamparados em relação
aos fatores que regem a vida: os fenômenos do automatismo fisiológico, o
medo da doença insuspeita, da morte, do desaparecimento de pessoas
queridas, as incertezas do destino, os fatores mesológicos, como tempestades,
terremotos, erupções vulcânicas, acidentes, guerras... De algum modo, essa
sensação de insegurança, de desamparo provém da infância — ou de outras
existências —, quando se sentiu dominado, sem opção, sujeito aos impositivos
que lhe eram apresentados, fazendo que o amor fosse retirado do cardápio
existencial.
Tal sentimento contribui para a análise do problema da sobrevivência, que
é o mais importante, ainda não solucionado no inconsciente.
Eis porque é necessário liberar esses conflitos perturbadores, reprimidos,
para que a criança inocente, pura, no sentido psicológico, bem se depreende,
volte a viver integralmente.
Inicia-se, então, o maravilhoso processo de terapia para a busca da
realização. Sob o controle do terapeuta, esse direcionamento se orienta para a
criatividade, através da qual o paciente expressa um tipo de sentimento mas
vive noutra situação. Essas emoções antagônicas devem ser trabalhadas pelo
técnico, para depois serem vividas pelo indivíduo, que passa a permitir que
tudo aconteça naturalmente sem novas pressões, nem castrações, nem
dissimulações. Passa a eliminar a raiva reprimida, que é direcionada contra objetos
mortos, sem caráter destrutivo; a angústia pode expressar-se, porque
sabe estar sob assistência e contar com alguém que ouve e entende o conflito.
Posteriormente, o paciente se transforma no seu próprio terapeuta, no diaa-
dia, por ser quem controlará os sentimentos desordenados e mediante a
criatividade, começa a substituir o que sente no momento pelo que gostaria de
conquistar, transferindo-se de patamar mental-emocional até alcançar a
realização pessoal.
Nesse processo, surgem a liberação das tensões musculares, a
identificação com o corpo no qual se movimenta e que passa a exercer
conscientemente uma função de grande importância no seu comportamento,
movendo-se de forma adequada.
A seguir, identifica a necessidade de experimentar prazeres, sem a
consciência de culpa que as religiões ortodoxas castradoras lhe impuseram,
transferindo-se das províncias da dor — como necessidade de sublimação —
para o prazer agradável, renovador, que não subjuga nem produz ansiedade. O
simples fato de reconhecer a necessidade que tem de experimentar o prazer
sem culpa, auxilia-o no amor ao corpo, na movimentação dos músculos,
eliminando as tensões físicas, derivadas daqueloutras de natureza emocional,
assim aprendendo a viver integralmente, a conquistar a realização pessoal.
É indispensável também aceitar-se, compreender que os seus sentimentos
são resultado das aquisições intelecto-morais do processo evolutivo no qual se
encontra situado. Sem a perfeita compreensão-aceitação dos próprios
sentimentos, é muito difícil, senão improvável, a conquista da realização.
Naturalmente terá que se empenhar para superar os sentimentos depressivos,
excessivamente emotivos e perturbadores ou indiferentes e frios, de forma que
a valorização de si mesmo faça parte do seu esquema de crescimento interior,
o que lhe facultará alcançar as metas estabelecidas.
Por outro lado, a identificação da própria fragilidade leva-o a uma atitude
de humildade perante a vida e a si mesmo, porque percebe que o ser
psicológico está profundamente vinculado ao fisiológico e vice-versa. Misturamse
a funções em determinado momento de consciência, quando percebe que
algumas tensões musculares e diversas dores físicas são conseqüência daquelas
de natureza psicológica, ou por sua vez, estas últimas têm muito a ver
com a couraça que restringe os movimentos e os entorpece.
De fundamental importância também a constatação e a aceitação da
necessidade da humildade, que o ajuda a descobrir-se sem qualquer
presunção nem medo dos desafios, enfrentando os fatores existenciais com
naturalidade e autoconfiança, não extrapolando o próprio valor nem o
subestimando. Essa humildade dar-lhe-á forças para ampliar o quadro de
relacionamento interpessoal, de auxiliar na fraternidade, percebendo que a sua
individualidade não pode viver plena sem a comunidade de que faz parte e
deve trabalhá-la para auxiliá—la no seu progresso.
Com a humildade, o indivíduo descobre-se criança, e essa verificação
representa conquista de maturidade psicológica, que lhe faculta liberar esses
sentimentos pertencentes ao período mágico da infância.
Jesus, na sua condição de Psicoterapeuta por excelência, demonstrou que
era necessário volver a essa fase de pureza, de dependência, no bom sentido,
de humildade, quando enunciou, peremptório: ... Se não vos fizerdes como
crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Quem, pois, se tomar
humilde como uma criança, esse será maior no reino dos céus. (*)
O enunciado, do ponto de vista psicológico, apela
(*) Mateus 18: 3 e 4 — Nota da Autora espiritual.
para a auto-realização, a penetração no reino dos céus da consciência reta e
sem mácula, assinalada pelos ideais de dignificação humana.
A criança é curiosa, espontânea, alegre, sem aridez, rica de esperanças,
motivadora, razão de outras vidas que nas suas existências se enriquecem e
encontram sentido para viver.
A busca da realização conduz o indivíduo ao crescimento moral e espiritual
sem culpa ante as imposições da organização fisiológica, que lhe propõe o prazer
para a própria sobrevivência e faz parte ativa da realidade social que deve
constituir motivo de estímulo para a vitória sobre o egoísmo e as paixÕes
perturbadoras.