segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A EVOCAÇÃO DO COMENDADOR

Jorge Sales, o denodado orientador da instituição espírita, encontrava-se no habitual
entendimento com Anatólio, o mentor desencarnado, através do médium.
As tarefas da noite haviam praticamente chegado ao fim, mas Jorge sentia-se
necessitado de instrução e por isso dilatava a palestra, ao pé dos amigos, a constituírem
o círculo de oração.
— Os obsidiados crescem de número — dizia Sales, preocupado —, e precisamos
antepor providências...
— Sim — concordava o amigo espiritual —, é necessário estender o clima da serenidade
e do trabalho, do entendimento e da prece...
E a conversação avançou:
— São lutas morais por toda parte... Jovens mal saídos da infância caem perturbados, de
momento para outro... Velhinhos, na derradeira quadra da existência, enlouquecem de
súbito... Tem havido suicídios, crimes...
O benfeitor consolava, pelo médium falante:
— Sim, meu amigo, toda paciência é pouca a fim de vencermos com segurança...
Saibamos servir a todos, com muita compreensão da fraternidade...
— Tudo indica estarmos aqui sob a influência do velho comendador Antônio Paulo da
Silveira Neves, que foi fazendeiro na região e está desencarnado há oitenta anos. Silveira
Neves foi homem terrível... Consultei documentos na municipalidade e tenho ouvido
pessoas da zona, cujos ascendentes lhe comungaram a intimidade... Possuía escravos
em legião e, entre eles, era conhecido por flagelo de todos... Sustentava capatazes
ferozes e comandava, ele próprio, o sofrimento dos cativos, que, às vezes eram
chicoteados até a morte... Não só isso. Colocava os sitiantes daqui uns contra os outros,
provocando assassínios e ódios que até hoje persistem... Estou certo de que essa teia de
obsessões e vinganças nasce da atração do velho comendador... Ele deve ser a causa
inicial de tudo...
— Muito ponderada a sua palavra...
— O irmão conhece o infeliz?
— Sim, conheço...
— Tenho o máximo interesse em evocá-lo...
— Não acho prudente.

— Ora! São muitos os Espíritos rebeldes evidentemente vinculados a ele... Topo vários, a
cada semana... Uns se declaram vítimas do comendador, muitos acusam o comendador e
outros ainda prometem que não haverá mudança aqui, enquanto não liquidarem o
comendador... Tenho assentado que, apesar de haver transcorrido muito tempo, é
indispensável nos disponhamos a doutrinar esse Espírito. Sem esse contacto, ao que
julgo, será muito difícil a modificação para melhor, de que estamos necessitados...
— Entendo o que diz — tornou Anatólio —, mas não faça a evocação. Seria de todo
inoportuna...
— Mas escute, meu amigo! Eu também pareço sofrer a influência dessa poderosa
entidade... As referências ao comendador desabam sobre mim como choques elétricos.
Só em ouvir-lhe o nome, sinto-me mal... Imagine que já fui orar por ele, no próprio túmulo
em que lhe sepultaram o corpo, tão impressionado vivo eu... Creio que se orássemos,
chamando-o ao aparelho mediúnico...
— Mas não convém...
— Insistiria, no entanto... Um entendimento direto, entre esse Espírito perseguidor e nós,
talvez desse bom resultado...
— A medida é desaconselhável.
— Será que Silveira Neves desencarnado está em plano superior, embora as atrocidades
que cometeu?
— Ainda não... O ex-comendador vive em luta consigo mesmo...
— Então? Trazê-lo ao esclarecimento seria caridade...
— Isso, entretanto não deve ser tentado.
— Meu amigo, por que a recusa, se o Espírito dele está em provas, segundo a sua
própria informação?
— Apesar de tudo — replicou o benfeitor —, a evocação não deve ser praticada...
O interlocutor, porém, não obstante respeitoso, perguntou semi-exasperado:
— Mas por quê?
Vendo que o instrutor silenciava, discreto, repetiu:
— Diga! Diga, por quê?!...
Foi aí que Anatólio mudou o tom de voz e falou muito sereno:
— Jorge, meu amigo, a evocação não deve ser feita porque o ex-comendador Antônio
Paulo da Silveira Neves é você mesmo... reencarnado.