terça-feira, 25 de setembro de 2012

MECANISMOS CONFLITIVOS

Nos mecanismos do comportamento humano há um destaque especial
para o prazer, que faz parte do processo da evolução. A busca do prazer,
nunca é demais insistir no assunto, constitui estímulo vigoroso para a luta.
Face a isso, quando algo inesperado e desagradável acontece, logo as
pessoas afirmam que não têm nenhuma razão para viver, somente porque um
insucesso, que talvez as amadureça mais, despertando-as para outras
realidades, lhes aconteceu, tisnando-lhes a capacidade de discernimento para
a eleição entre o verdadeiro e o falso.
Normalmente se estabelece que vida feliz é aquela que apresenta as
criaturas sorridentes, bem dispostas, com expressão donairosa, destacadas no
grupo social, mas que, além da máscara afivelada na face, conduzem
sofrimentos, inseguranças, incertezas sobre si mesmas e aqueles que as
cercam.
A busca do prazer, em razão das necessidades mais imediatas e dos

gozos mais fortes, tem sido dirigida para os divertimentos: os alcoólicos, o
sexo, o tabaco, quando não as drogas aditivas e perturbadoras. Esses
ingredientes levam a diversões variadas, extravagantes, fortes, mas não ao
verdadeiro prazer, que pode ser encontrado em uma boa leitura, em uma
paisagem repousante, em uma convivência relaxadora, em uma caminhada
tranqüila ou em um jogging, em um momento de reflexão, de prece, numa ação
de socorro fraternal, em uma recepção no lar proporcionada a alguém querido
ou simplesmente a um convidado a quem se deseja distinguir... Há incontáveis
formas de prazeres não necessariamente fortes, que se transformam em
sensações que exaurem e exigem repouso para o refazimento.
O prazer deve dilatar-se no sistema emocional, continuando a proporcionar
bem-estar, mesmo depois do acontecimento que o desencadeia.
O divertimento tem duração efêmera: vale enquanto é fruído, logo
desaparecendo, para dar lugar a novas buscas.
Algo que parece uma conquista ideal tem o valor essencial do esforço pelo
conseguir, deixando certo travo de insatisfação após logrado.
Como conseqüência, há uma grande necessidade de parecer-se divertido,
o que sinaliza como ser ditoso, triunfante no grupo social.
Os divertimentos, nem sempre prazeres legítimos, multiplicam-se até às
extravagâncias e aberrações, violências e agressividades, para substituirem o
fastio que os sucede, em razão de não poderem preencher as necessidades de
bem-estar, que são as realmente buscadas.
Roma imperial, que também se notabilizou pela busca de divertimentos
contínuos, passou dos jogos gregos, que foram importados para as lutas de
gladiadores, nas quais o vencido era apenas humilhado na sua força, até às
exigências de suas vidas, quando sucumbiam despedaçados, enquanto os
diletantes sorriam, aplaudindo freneticamente os vitoriosos de um dia... Na
sucessão das exorbitâncias, o divertimento mais apetitoso passou a ser aquele
que obrigava as vidas a serem estioladas das formas mais originais, para não
dizer cruéis, que se possa imaginar. A variedade dos jogos e dos divertimentos
ultrapassava a imaginação sempre fértil na criação de novos atrativos.
Foi uma das características da decadência do Império, porque as pessoas
perderam o senso do prazer, passando para o divertimento da crueldade.
Através dos tempos foram modificados esses processos, não erradicados
os divertimentos alucinados.
Mesmo hoje, na época das conquistas valiosas do pensamento e do
sentimento, dos direitos humanos, da preservação ecológica, os divertimentos
prosseguem tão bárbaros, senão mais apetecíveis na mídia, por exemplo, que
se utiliza das paixões primevas do ser, para estimulá-lo mais aos divertimentos
do sexo explícito, da brutalidade sem limites, da vulgaridade insensata, da
nudez agressiva e vil, do mercado das sensações, enquanto o público, sempre
ávido quão insatisfeito, exige espetáculos mais burlescos e brutais, na vida
real, através das lutas de boxe, entre animais, da tauromaquia, e, quando
cansado desse pequeno circo de loucura, das guerras hediondas que arrasam
cidades, países e destroem vidas incontáveis, mutilando outras tantas que
ficam física, psicológica e mentalmente esfaceladas.
Quanto mais divertimentos, mais fugas psicológicas, menos prazeres
reais. Onde proliferam, também surgem a crueldade, a indiferença pelo
sofrimento alheio, a ausência da solidariedade, porque o egoísmo deseja retirar
o máximo proveito da situação, do lugar, da oportunidade de fruir e iludir-se,
como se fosse possível ignorar os desafios e os conflitos, somente porque se
busca anestesiá-los.
As pessoas divertidas parecem felizes, mas não o são. Provocam risos,
porque conseguem mascarar os próprios sentimentos, em um faz-de-conta
sem limite. Demonstram seriedade, mesmo nos seus divertimentos, o que
provoca alegria, bulha e encantamento de outros aflitos-sorridentes, mas,
passado o momento, volvem à melancolia, ao vazio em que se atormentam. A
descontração muscular e emocional é forjada, não espontânea, nem rítmica,
proporcionadora do prazer que harmoniza interiormente.
É natural que surjam, agora ou depois, vários, terríveis processos
conflitivos na área da personalidade e no âmago da individualidade. Tais
conflitos não serão resolvidos com gargalhadas ou com dissimulações, mas
somente através de terapia conveniente e grande esforço do paciente, que se
deve autodescobrir e encontrar as razões perturbadoras do estado emocional
em que se encontra. O jogo escapista de um para outro divertimento somente
complica o quadro, por adiar a sua solução.