sábado, 8 de setembro de 2012

O QUE O ADOLESCENTE ESPERA DA SOCIEDADE E O QUE A SOCIEDADE ESPERA DO ADOLESCENTE

O adolescente é um ser novo, utilizando-se do laboratório fisiopsíquico
em diferente expressão daquela a que se acostumara.
Algumas das suas glândulas de secreção endócrina, como a pituitária
inicialmente, encarregam-se de secretar hormônios que caracterizam as graves
e profundas alterações na sua organização física, a fim de que, nos homens,
os testículos possam fabricar testosterona, encarregada das definições sexuais
masculinas. Nas meninas, os ovários dão início ao labor de produzir e eliminar
estrógeno, que depois se torna cíclico, assinalando as formas da puberdade e
logo se transformando em ciclo menstrual. Os meninos igualmente
experimentam uma produção de estrógeno, que provém das glândulas suprarenais,
e contribuem para o desenvolvimento dos pelos pubianos e demais
alterações externas do conjunto genital, que se unem para anunciar a chegada
da puberdade.
Os hormônios do crescimento, secretados pela tireóide e pela pituitária no
período da puberdade, passam por significativa transformação e respondem
pelo alongamento e peso do corpo — também denominado estirão de
crescimento, que dura em média quatro anos — e definem sua nova estrutura
e forma.
Esse período turbilhonado no jovem leva-o a verdadeiras crises
existenciais de identidade, de contestação de valores, decorrentes das
mudanças físicas, sexuais, psicológicas e cognitivas ao mesmo tempo.
Em razão da imaturidade, o adolescente espera compreensão e auxílio da
sociedade, que lhe deve facultar campo para todos os conflitos, não os
refreando nem os corrigindo, de forma que o mundo se lhe torne favorável área
para as suas experimentações, nem sempre corretas, dando surgimento a
novos conceitos e novas propostas de vida.
Essa aspiração é justa, no entanto o ônus é muito alto quando os
resultados se apresentam funestos ou danosos, o que normalmente ocorre,
tendo-se em vista que a inadequação do jovem ao existente impede-o de
entender o que sucede, não possuindo recursos para solucionar os desafios
que surgem e a todos aguardam.
Em se tratando de Espírito amadurecido por outras vivências, o
adolescente compreende que a sociedade cumpre com deveres estabelecidos
em programas vitais para o equilíbrio geral, não podendo alterá-los a belprazer,
a fim de atender às variadas exigências das mudanças constantes que
têm lugar no comportamento dos seus membros. Esses códigos, quando
agredidos, produzem reações que geram desconforto e maior soma de
conflitos, facilmente evitáveis, se ocorre um engajamento que lhes modifique as
estruturas, favorecendo com novos programas de aplicação exeqüível. Em
caso contrário, essa transformação se opera mediante violências que
desorganizam os grupos sociais e os reconstroem sobre os escombros,
assinalando a nova mentalidade com os inevitáveis traumas decorrentes dos
métodos aplicados para sanear o que era considerado ultrapassado e sem
sentido.
Graças ao avanço do conhecimento e às conquistas tecnológicas, o
período de adolescência tem sido antecipado, particularmente nas meninas, o
que ocorre em razão da precocidade mental e da contribuição dos veículos de
comunicação de massa, propondo-lhes uma variedade constante de projetos e
necessidades, que se decepcionam com a sociedade, que não está preparada
para aceitar as imposições conflitivas do seu período de transição.
Nesse esfervilhar de emoções e de sensações desconhecidas, o
adolescente pretende que a sociedade compartilhe das suas experiências e
deixe-o à vontade para atender a todos os impulsos, e, quando isso não ocorre,
apresentam-se os choques de geração e as agressões de parte a parte.
Passada a turbulência orgânica, equilibrando-se os hormônios, o
indivíduo passa a reconsiderar os acontecimentos juvenis e faz uma nova
leitura dos seus atos, reprogramando-se, a fim de acompanhar o processo
cultural e social no qual se encontra situado.
O adolescente sempre espera da sociedade a oportunidade de desfrutar
dos prazeres em indefinição nele mesmo. Estando em crise de identidade, não
sabe realmente o que deseja, podendo mudar de um para outro momento e
isto não pode ser seguido pelo grupo social, que teria o dever de abandonar os
comportamentos aceitos a fim de incorporar insustentáveis condutas, que logo
cedem lugar a novas experiências.
Irreflexão, angústia, descontrole nas atitudes são naturais no adolescente,
que irá definindo rumos até encontrar um método de adaptação dos seus
sentimentos aos padrões vigentes e aceitos, ajustando-se, por fim, ao contexto
que antes combatia.
A chegada da maturidade e da razão oferece diferente visão da
sociedade, todavia os atos praticados já produziram os seus efeitos e, se foram
agressivos, os danos aguardam remoção, ou pelo menos necessária
reparação.
Por sua vez, a sociedade espera que o adolescente se submeta aos seus
quadros de comportamento estabelecido, muitas vezes necessitados de
renovação, de mudança, face aos imperativos da lei do progresso.
O adulto, representando o contexto social, acredita que, oferecendo ao
adolescente os recursos para uma existência equilibrada, educação, trabalho,
religião, esportes, etc., ter-se-á desincumbido totalmente do compromisso, não
se devendo preocupar com mais nada e aguardando a resposta do
entendimento juvenil mediante apoio irrestrito, cooperação constante,
continuidade dos seus empreendimentos.
Seria tediosa, a vida social, e retrógrada, se fosse continuada sem as
inevitáveis mudanças impostas pelo progresso e trabalhadas pelas gerações
novas, às vezes inspiradas pelo pensamento filosófico ou científico, pelo
idealismo da beleza e da arte, da religião e da tecnologia, que encontram nos
jovens a sua força motriz.
Todos os grandes empreendimentos e movimentos da História, surgidos
nas almas luminosas dos eminentes missionários, repercutiram na juventude e
obtiveram a resposta em forma de desafio para a sua implantação, do que

decorreram as admiráveis transformações sociais e humanas que se
impuseram na sucessão dos tempos.
É inevitável, portanto, que o conflito de gerações, que é resultado da
imposição caprichosa de parte a parte, seja resolvido pelo intercâmbio de
idéias e compreensão de necessidades reais do grupo social e do adolescente,
estabelecendo-se pontes de entendimento e cooperação, para que os dois
extremos se acerquem do objetivo, que é o auxílio recíproco.
A sociedade, na condição de bloco de identificação de valores, espera
que o adolescente venha partilhar das suas definições sem as testar, sem
experimentar a sua fragilidade e resistências, o que seria uma acomodação,
senão também uma forma de submissão passiva, inviável para o ser em
formação. A própria identidade do adolescente, que está buscando rumos,
reage contra tudo que se encontra feito, terminado, e não passou pelo seu
crivo, não experimentou a sua participação.
O adulto de hoje esquece-se do seu superado período de adolescência —
se é que já ocorreu — quando também anelou muito e não conseguiu tudo
quanto gostaria de realizar, foi aguardado e não correspondeu à expectativa
dos seus ancestrais.
Não obstante, isto não implica em aceitar toda imposição descabida ou
qualquer indiferença mórbida pelo processo social.
Somente uma aproximação natural do adolescente, com o grupo social
em tranqüila integração, resolve o questionamento que não se justifica, lima as
arestas das dificuldades existentes, trabalha as diferenças de comportamento
e, juntos, avançam em favor de um futuro melhor, onde todos estarão
presentes construindo o bem.