terça-feira, 20 de novembro de 2012

A LENDA DO PODER

A assembléia familiar comentava a difícil situação dos Espíritos revoltados que se
habituam ao azedume crônico por vasta fieira de encarnações sucessivas, quando João
de Kotchana, experimentado instrutor de cristãos desencarnados, nas regiões da
Bulgária, contou-nos, entre sensato e otimista:
- Temos nós antiga lenda que adaptarei ao nosso assunto para a devida meditação...
Dizem que Deus, quando começou a repartir os dons da vida, entre os primeiros homens
dos primeiros grandes agrupamentos humanos constituídos na Terra, decretou fôsse
concedido aos Bons o Poder Soberano.
Informados de que o Supremo Senhor estava fazendo concessões, os Corajosos
acudiram apressados à Divina Presença, solicitando o quinhão que lhes seria adjudicado.
- Que desejais, filhos meus? – indagou o Eterno.
- Senhor, queremos o Poder Supremo.
- Essa atribuição – explicou o Todo-Misericordioso – já concedi aos Bons; eles
unicamente conseguirão governar o reino dos corações, o território vivo do espírito, onde
se exerce o poder verdadeiro.
- Ah! Senhor, e nós? Que será de nós, os que dispomos de suficiente ousadia para
comandar os distritos da existência e transformá-los?
- Não posso revogar uma ordem que expedi – observou o Onipotente -, entretanto, se não
vos posso confiar o Poder Soberano, concedo-vos um encargo dos mais importantes, a
Autoridade. Ide em paz.
Espalhou-se a notícia e vieram os Intelectuais ao Trono Excelso.
O Todo-Poderoso inquiriu quanto ao propósito dos visitantes e a resposta não se fêz
esperar:
- Senhor, aspiramos à posse do Poder Soberano.
- Impossível. Essa prerrogativa foi concedida ao Bons. Só eles lograrão renovar as outras
criaturas em meu nome.
E porque os Intelectuais perguntassem respeitosamente com que recurso lhes seria lícito
operar. Deus entregou-lhes o domínio da Ciência.
Veio, então, a vez dos Habilidosos. Com vasta representação, surgiram diante do Pai e,
como fôssem questionados quanto ao que pretendiam, responderam veementemente:
- Senhor, suplicamos para nós o Poder Soberano.

 O Todo-Bondoso relacionou a impossibilidade de atender, mas deu-lhes o Engenho.
Depois, acorreram os Imaginosos ao Sagrado Recinto e esclareceram que contavam para
eles com a mesma cobiçada atribuição.
O Todo-Amoroso respondeu pela negativa afetuosa; no entanto, brindou-os com a luz da
Arte.
Logo após, os Devotados chegaram ao Augusto Cenáculo e rogaram igualmente se lhes
conferisse a faculdade do mando, e recolheram a mesma recusa, em termos de
extremado carinho; contudo, o Todo-Misericordioso outorgou-lhes o talento bendito do
Trabalho.
Em seguida, os Revoltados, que não procuravam senão defeitos e problemas transitórios
na obra da Vida – os problemas e defeitos que Deus sanaria com o apoio do Tempo, de
modo a não ferir os interesses dos filhos mais ignorantes e mais fracos - compareceram
perante o Supremo Doador de Todas as Bênçãos e, em vista de se mostrarem com
agressiva atitude, a voz do Pai se fêz mais doce ao perguntar-lhes:
- Que desejais, filhos meus?
Os Revoltados retrucaram duramente:
- Senhor, exigimos para nós o Poder Soberano.
- Isso pertence aos Bons – disse o Todo-Sábio -, pois somente aqueles que dispõem de
suficiente abnegação para esquecer os agravos que se lhes façam, prosseguindo
infatigáveis no cultivo do bem aos semelhantes, guardarão consigo o poder de governar
os corações... No entanto, meus filhos, tenho outros dons para conceder-vos...
Antes, porém, que o Supremo Senhor terminasse, os ouvintes gritaram
intempestivamente:
- Não aceitamos outra coisa que não seja o Poder soberano. Queremos dominar,
dominar... Fora do poder, o resto é miséria...
O Onipotente fitou cada um dos circunstantes, tomado de compaixão, e declarou, sem
alterar-se:
- Então, meus filhos, em todo o tempo que estiverdes na condição de Revoltados, tereis
convosco a miséria...
E, desde essa ocasião, rematou Kotchana, todo espírito, enquanto rebelado, não tem
para si mesmo senão o azedume da queixa e a penúria do coração.
***
Ouvi a lenda, retiro o ensinamento que me toca e ofereço a peça aos companheiros
reencarnados na Terra, que porventura sejam ainda inutilmente revoltados quanto tenho
sido e já não quero mais ser.