sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ataraxia

Você conhece a ataraxia, amigo leitor?
Se nunca a viu mais gorda, não se preocupe.
Raros ouviram falar dela.
Eu também, até ler algo sobre Epicuro (341-270 a.C.), filósofo grego, cujo nome está injustamente ligado à licenciosidade e à devassidão, no cultivo do prazer.
Ataraxia é a capacidade de manter-se sereno e tranqüilo, diante dos contratempos e lutas da existência.
Exatamente o que todos almejamos, principalmente na época conturbada em que vivemos.
Epicuro ensinava que ela está associada ao prazer, não aquele sustentado pelo vício e a paixão, na exaltação dos sentidos.
Trata-se do prazer como sinônimo de bem-estar, superados os males do corpo e as perturbações da alma.
Explicava o filósofo:
O bem é fácil de conseguir, o mal é fácil de suportar, a morte não deve ser temida, os deuses não são temíveis.
Segundo Epicuro, a frugalidade está na base dessas realizações.
Comer quando se tem fome, beber quando se tem sede, superar a dor, sustentando a saúde do corpo com a moderação e o empenho por conservar a mente serena com o cultivo dos bons pensamentos.
Nada de vícios que adoecem o corpo.
Nada de paixões que adoecem a alma.

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Os desvios da filosofia epicurista nasceram de um equívoco do filósofo.
Epicuro considerava que a alma perece com o corpo.
Por isso afirmava que não se deve temer a morte. Tudo terminaria na sepultura.
No entanto, fica difícil cultivar a virtude e a moderação sem admitir que a alma é imortal, que responderá um dia por suas ações.
Tudo me é lícito se concebo que não haverá conseqüências nem cobranças póstumas.

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Na atualidade vivemos situação semelhante.
As religiões tradicionais recomendam o cultivo de valores espirituais, que sinalizam a ataraxia. Falta-lhes, entretanto, o essencial – a capacidade de motivar seus profitentes com uma visão objetiva da sobrevivência e da vida além-túmulo.
É tudo vago e fantasioso.
A fé sem compromisso com a racionalidade.
Por isso, as pessoas dizem crer, mas sem maior repercussão em seu comportamento.
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O Espiritismo revive o pensamento epicurista num patamar mais elevado, estabelecendo contato com o mundo espiritual. A partir daí, demonstra ser indispensável a sobriedade para que não se complique o nosso futuro.
E não basta cultivar singeleza, na base do beber quando se tem sede, comer quando se tem fome, preservando o corpo; ou cultivar os bons pensamentos para a estabilidade da alma.
É preciso direcionar nossa existência no sentido de favorecer o bem dos outros, segundo a orientação evangélica:
Dar alimento ao que tem fome, agasalho ao que tem frio, medicação ao enfermo, instrução ao ignorante, consolo ao aflito, orientação ao transviado…
Servir sempre!
Esta a suprema realização, capaz de nos garantir o bem-estar na Terra e no Céu.
Experimente leitor, amigo!
Constatará algo admirável:
No empenho de servir está o mais legítimo caminho para a ataraxia.

Livro Luzes no Caminho
Richard Simonetti