sábado, 26 de janeiro de 2013

Engano

Desde que Dona Marina acolhera um pobre rapaz doente, em seu próprio carro, por
duas vezes consecutivas, conduzindo-o a tratamento no hospital, que os mexericos
principiaram...
Agitou-se o bairro.
“Dona Marina extraviara-se do lar, Dona Marina se inimizara com o marido e
aceitara um companheiro diferente”, falava-se aqui e além, a comentários sussurrados.
Segredo de boca em boca.
A imaginação doentia completava os esboços que a malícia traçava. Claro que o
segundo homem devia ser um moço endinheirado e bonitão... Dona Marina, de modo algum,
se comprometeria com um joão-ninguém.
E, de bisbilhotice em bisbilhotice, quando o assunto chegou ao marido, o pobre do
Placidino, devotado contador sempre encerrado no escritório, o caso parecia uma corrente de
enxurrada, desembocando num recôncavo de vale tranqüilo. Não ficou terra de bondade, nem
planta de afeto que não tornassem lama grossa.
Placidino para logo se envenenou.
“Ah!... – resmungava, interpretando simples passeios da mulher por encontros
indesejáveis – bem que a vejo mudada!... Vestidos e mais vestidos, gargalhadas para dar e
vender e automóvel com alta quilometragem...” Ao passo que ele, marido e pai exemplar, se
esfalfava por cima de números, pagando o reconforto da casa, a companheira se espoliava em
desequilíbrios e infidelidade – pensava em desconsolo.
Por tudo isso, regressava ao lar, noite a noite, derramando reprovação e azedume.
Reclamava, altercava. Nutria acusações, sem poder exprimi-ias de viva voz. Queria provas,
quanto à deslealdade da mulher, e, enquanto as provas não vinham, passou a ocultar um
revólver carregado de balas no próprio bolso. E raciocinava: se visse a esposa com outro,
matá-la-ia sem vacilar... E depois?... Depois, que faria da própria existência?!... Valeria a pena
sobreviver? Não. Encontraria meios de abater o agressor e aniquilar-se. Os dois filhinhos do
casal teriam a proteção dos avós. Ele, Placidino, não aspirava a permanecer no mundo, além
da tragédia, se a tragédia se consumasse.
E, ruminando idéias de homicídio e suicídio, no caldo do ciúme, tampado no peito
em ponto de explosão, Placidino voltou ao lar, certa noite, em horário imprevisto, com a
empregada ausente e os filhos em férias escolares num sítio distante... Dona Marina recebeu-o
alegre, mas naturalmente intrigada, indagando que acontecia para que o esposo retornasse
mais cedo. Ria-se. Parecia querer detê-la na sala-de-estar para entendimento mais longo. Não
sabia que a expectação angustiada do esposo exprimisse desconfiança e pediu-lhe as razões da
tristeza que lhe categorizava o abatimento. Placidino não respondeu. Desvencilhou-se-lhe das
carícias, repelindo-lhe o abraço e avançou para o quarto de dormir, seguido por ela, e,
estarrecido, viu que um homem se ocultava na peça íntima, sob cortina espessa. Cego de
ciúme e desesperação, não parou a mente em descontrole para pensar. Sacou da arma, alvejou
o desconhecido, disparou contra a esposa e, em seguida, varou o próprio crânio,
desmontando-se no tapete.
Três mortos em alguns minutos.
E, somente mais tarde, Placidino, desencarnado, veio a saber, na Vida Maior, que o
homem do aposento, cuidadosamente enrolado no reposteiro, era um irmão anônimo e infeliz
que ali se escondera unicamente para roubar.

Aulas da Vida/Irmão X/FCXavier