terça-feira, 9 de abril de 2013

Comércio Contestado

Após a célebre transformação da água em vinho, em Caná da Galiléia, Jesus, acompanhado de sua mãe e alguns discípulos, instalaram-se em Cafarnaum, nas proximidades do lago de Genesaré.
Pequena, perto de seis mil habitantes, mas movimentada, a cidade era um centro comercial, particularmente de pesca, e também posto militar romano.
Seria a residência de Jesus durante algum tempo, sede de suas atividades. Dali partiria para jornadas de divulgação da Boa Nova.
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Como estivesse próxima a páscoa dos judeus, em que se comemorava a fuga do Egito, o grupo foi a Jerusalém.
A cidade santa, sede do culto judeu, recebia multidões de peregrinos. A população, que normalmente andava perto dos cinqüenta mil habitantes, chegava a quadruplicar.
As cerimônias do culto eram celebradas no templo. Constituído por edifícios que se destacavam na paisagem, cercados por imenso muro, ocupava uma área de aproximadamente cento e vinte mil metros quadrados, equivalente a perto de quinze campos de futebol.
Há meio século, desde o governo de Herodes, o Grande, estava em reformas de ampliação e embelezamento, tão portentosas que somente seriam concluídas três décadas mais tarde.
Teria vida efêmera.
A magnificente edificação, orgulho dos judeus, seria destruída no ano 70 pelo general romano Tito, filho do imperador Vespasiano que, seguindo instruções de Roma, arrasou Jerusalém, em represália a uma rebelião.
No Pátio dos Gentios, muros adentro, onde se concentrava a multidão, fervilhava intenso comércio, com dezenas de barracas, assemelhado-se a um mercado agitado e barulhento, admitido sem problemas pelas autoridades religiosas, que recebiam parte do lucros.
Eram vendidos bois, ovelhas, pombos para os sacrifícios, bem como incenso, óleo e outros apetrechos do culto. Vendia-se também comida.
Os cambistas faziam muitos negócios. Trocavam as moedas estrangeiras para os judeus residentes em outros países.
As contribuições tradicionais deviam ser em siclos, a moeda corrente na Palestina. As estrangeiras tinham efígies pagãs. Usá-las seria uma heresia no recinto sagrado.
A troca era feita em bancas, que deram origem aos bancos.
Banqueiros era os donos das bancas.
Hoje são os donos dos bancos.

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Previsivelmente, tratando-se do “bicho homem”, excessos e explorações eram cometidos por comerciantes e cambistas, tão interessados em encher suas bolsas de dinheiro quanto os peregrinos em cumprir seus deveres religiosos.
Dirigindo-se eles disse Jesus, lembrando observações dos profetas Isaías (56:7) e Jeremias (7:11):
– Está escrito: minha casa será chamada casa de oração. Vós, porém, a fazei covil de ladrões…
O episódio é relatado também pelos demais evangelistas, que o situam no final do apostolado de Jesus.
João o coloca no início.
Em seu favor temos o fato de que teria sido testemunha ocular. Estava com Jesus.
Mateus seria convertido mais tarde.
Marcos e Lucas não conviveram com ele.

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Todos os evangelistas comentam que as afirmativas de Jesus foram precedidas de uma atitude chocante e insólita. João a descreve assim:
…e tendo feito um azorrague de cordéis, expulsou a todos do templo, as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas e virou as mesas.
Este detalhe sempre me pareceu indigesto.
Não consigo imaginar Jesus com um chicote na mão, derrubando bancas, espantado animais, semeando confusão…
Fariam algo semelhante Mahatma Gandhi, Francisco de Assis, Chico Xavier?…
Obviamente, não!
Por que Jesus, acima de todos eles; muito mais que missionário – um preposto de Deus – haveria de fazê-lo?
Reações dessa natureza, ainda que inspiradas na indignação diante do erro, são próprias da imaturidade, que resvala facilmente para a agressividade.
Jesus exaltava a mansuetude; ensinava a humildade e a brandura; advertia que a violência gera a violência; destacava que pessoas comprometidas com o erro precisam de orientação, não de retaliação.
Longe do fiscal truculento era um médico das almas.
A sua missão era eliminar a maldade estimulando o bem, algo incompatível com a violência.
Ninguém cura uma ferida pisando nela.
Confrontemos essa suposta reação com sua serenidade diante do julgamento que deu início ao drama do calvário, situação incomparavelmente mais grave, que perpetrou flagrante e execrável injustiça.
Concluiremos que Jesus jamais agiria como está registrado.

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Considere, leitor amigo, que aquele comércio estava no contexto do culto.
Favorecia os peregrinos.
Se animais e aves eram usados no cerimonial, alguém devia fornecê-los.
Se havia necessidade de trocar moedas, mister a presença dos cambistas.
Entre advertir quanto aos excessos e agredir os comerciantes há um abismo.
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É preciso observar, na análise do Evangelho, o joio dos interesses humanos misturado ao trigo das revelações.
Durante séculos os textos evangélicos eram manuscritos. Nem sempre os copistas guardavam fidelidade aos originais, na base de quem conta um conto aumenta um ponto – ou o suprime.
Até que os textos definitivos fossem compilados, a partir do século V, inúmeras adulterações aconteceram.
Provavelmente a suposta violência no templo tenha sido uma delas. Era importante para os teólogos dos primeiros séculos configurar a rejeição de Jesus àquelas práticas que não faziam parte do culto cristão.
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Outro detalhe estranho:
Jesus referir-se ao templo como a casa de Deus.
A morada divina é o Universo.
Deus está em toda parte, não apenas no interior de edificações consagradas ao culto.
E o santuário sagrado onde devemos cultuar a divindade está em nosso próprio coração.
Esse o pensamento de Jesus, que explicava:
O Reino de Deus está dentro de vós (Lucas, 17:21).

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Bem mais grave e lamentável é o comércio que propomos à divindade.
O que nos leva a freqüentar o centro espírita, o templo protestante, a igreja católica ou outra denominação religiosa?
• Buscar uma vida mais equilibrada e digna?
• Refletir a respeito de nossas responsabilidades?
• Superar vícios e mazelas?
• Participar nos serviços do Bem?
Ou apenas desejamos que Deus:
• Remova nossas dificuldades?
• Solucione nossos problemas?
• Restaure nossa saúde?
• Conceda-nos a felicidade?
Não é isso uma espécie de escambo, uma troca que não envolve dinheiro?
Dou minha presença, submeto-me ao culto com a intenção de algo receber…
Tanto é assim que muita gente deixa de participar porque não recebeu o benefício que buscava, o favor que esperava.
Isso é comercializar o sagrado.

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Nas relações comerciais existe o compromisso de determinado pagamento pela mercadoria recebida ou serviço prestado.
Na atividade religiosa costumamos fazer o mesmo.
• Se receber as bênçãos desejadas serei um contribuinte…
• Se resolver meus problemas trabalharei pelos pobres…
• Se alcançar a cura serei uma pessoa melhor…
Há quem faz adiantamentos:
• Um donativo…
• Uma visita a família carente…
• Um exercício de tolerância…
Alguns pregadores exploram essa tendência.
Apoiam-se em insólita “teologia”:
A felicidade comprada.
Enfatizava um mercador da fé:
– Não esqueçam! Quanto mais dinheiro oferecerem à nossa causa, mais felicidade Deus lhes dará!
Parecia um camelô a apregoar o seu produto, como se a felicidade fosse uma mercadoria, não uma realização íntima.
Animado, um homem fez a doação de valioso terreno.
Passou-se o tempo. A felicidade não chegou.
Indignado, processou a igreja por quebra de contrato, exigindo a devolução do imóvel.

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Há fiéis que enunciam seus projetos de comércio com a divindade na forma de promessas solenes a serem cumpridas depois de receberem os benefícios desejados.
Algumas são bastante ingênuas, relacionadas com inúteis mortificações:
• Carregar uma cruz…
• Subir escadarias de joelhos…
• Privar-se de alimentos…
Deus não quer que mortifiquemos o corpo e sim que abrandemos o coração.
Por isso, o sacrifício mais agradável ao Senhor é renunciar aos interesses pessoais para fazer algo em favor do próximo.
Os que insistem em comercializar os dons sagrados, em fazer propostas e promessas, acabam decepcionados, porque entre o que pretendemos e o que recebemos, há um princípio subordinado à justiça perfeita:
O merecimento.
Por isso, em defesa de nossa paz, não devemos imaginar o culto religioso como um canal aberto para obter favores do Céu.
Melhor situá-lo como uma convocação para fazer o que o Céu espera de nós
Livro "Levanta-te!"
Editora CEAC - Bauru