sábado, 18 de maio de 2013

Carmas Imaginários

Já desde esta vida poderemos ir resgatando as nossas faltas?
“Sim, reparando-as. Mas, não creias que as resgateis mediante algumas privações pueris, ou distribuindo em esmolas o que possuirdes, depois que morrerdes, quando de nada mais precisais. Deus não dá valor a um arrependimento estéril, sempre fácil e que apenas custa o esforço de bater no peito. A perda de um dedo mínimo, quando se esteja prestando um serviço, apaga mais faltas do que o suplício da carne suportado durante anos, com objetivo exclusivamente pessoal. (726)”
“Só  por meio do bem se repara o mal e a reparação nenhum mérito apresenta, se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais.”
O Livro dos Espíritos – questão 1000
A palavra carma, cuja origem do Sânscrito significa “ação”, tomou no ocidente a conotação cultural-religiosa de destino traçado e imutável, servindo para designar as coisas ruins que podem acontecer a alguém em razão de erros perpetrados em outras existências carnais.
O perfil psicológico do desmerecimento e do pecado, ainda tão presentes na mentalidade dos povos, generalizou crenças em torno da idéia do carma que aumentam a infelicidade humana através de pensamentos destituídos de bom senso e amparo na razão.
Seu conceito, principalmente entre os espíritas, costuma estar amplamente associado ao sofrimento ou algo que não aceitamos e somos obrigados a tolerar, por tratar-se de um débito que assumimos antes de renascer fisicamente.
Assinala-se com base em trechos da codificação que o sentido existencial da reencarnação é “pagar dívidas”, “resgatar crimes”, construindo assim um enfoque pessimista e aterrorizante para a filosofia espírita em função de interpretações errôneas ao sabor do desamor e da punição. A pior conseqüência dessa forma de entendimento é o cultivo da dor como mecanismo de evolução e crescimento, gerando um clima de tristeza regado pela cultura do “não merecimento”. Diz-se que “é necessário tolerar com resignação todas as provas” e adota-se uma postura de incondicional passividade ante as lutas, usando a “tolerância orgulhosa” ante as infelicidades da vida. Entre pessoas que vivem nesse regime, a dor assume a feição de um “troféu” importante de se exibir, e passa a ser “heróico” falar da “quantidade de dificuldades” para dar impressão do tamanho do carma. É um fenômeno comportamental sui generis, porque, em verdade é mais uma faceta da vaidade que tema em se manifestar ostentando, subliminarmente, a elevação espiritual que logrará essa criatura tão logo ao desencarnar, já que se convencionou a idéia de que “quanto mais sofre, mais espiritualizado estará.”
Essa perspectiva nada tem a ver com a autêntica revelação espírita que foi trazida ao mundo para consolar e libertar, objetivando oferecer ao homem os recursos para trabalhar sua felicidade. A codificação é um conjunto e se analisarmos trechos isolados, faremos análises precipitadas.
Essa postura de resignação passiva é atavismo religiosista proveniente da formação dos últimos milênios, na qual estipulou-se o conceito do “eu pecador” na desvalorização do homem perante Deus e o mundo, inserindo a culpa e a ausência de méritos como os valores a serem cultuados.
Os reflexos desse estado psicológico fazem-se sentir através do perfeccionismo, da autopunição, das cobranças exacerbadas e da inaceitação de si mesmo.
A sabedoria do Espírito Verdade vem em nosso socorro quando diz: “Só por meio do bem se repara o mal e a reparação nenhum mérito apresenta, se não atinge o homem em nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais.”
Existem muitos corações respirando nesse regime de dor como fonte de salvação que se encontram revoltados, inconformados, odientos e prestes a cometer um mau ato, alimentando a infeliz concepção de eu estão “queimando seus débitos” esforçando-se, acentuadamente, para manterem a resignação dentro dessa perspectiva de passividade plena na espera de que Deus e os bons espíritos venham mudar as coisas.
São os carmas imaginários, a representação mental distorcida da realidade. Uma situação que amplia o sofrimento do homem por ausência de sensatez e de amor a si mesmo. São imaginários, porque nem sempre correspondem aos verdadeiros lances de aprendizado projetados antes das reencarnações, acumulando dores voluntárias para seus cultores por imaginar que todos os problemas pelos quais passam têm origem em deslizes cometidos em outras existências corporais.
Em uma análise feita daqui para o mundo físico, constatamos que pelo menos dois terços dos sofrimentos humanos provém da imprudência e de escolhas mal feitas, não sendo real atribuir a “outras existências” esse uso do livre-arbítrio. O discernimento poderá comprovar essa realidade.
Além da improbabilidade real de muitos fatos estarem submetidos à Lei de Causa e Efeito, devemos considerar que a fatalidade do sofrimento é aprender, e se mantivermos uma “resignação de fachada” sem atingir o homem no seu orgulho, e nos seus interesses materiais, de nada nos valerá a dor, causando ainda muitos problemas na vida imortal.
Se nos mantivermos nessa ou naquela posição social por carma, em decidida preguiça de melhorar, estaremos adiando uma provável  “opção de Deus” em nosso favor por não agirmos para sair das situações incômodas.
Isso não nos deverá em hipótese alguma incentivar as decisões de fuga e abandono dos compromissos, porque, em verdade, estaremos assim fugindo de nós próprios, transferindo para os novos relacionamentos ou lugares as mesmas mazelas anteriores.
Resignação sim, mas ativa e otimista. Tolerância construtiva nos relacionamentos para que haja crescimento. Esforço pessoal no campo social para que nos credenciemos, justamente, a maiores responsabilidades e benefícios.
Agüentar por agüentar, sofrer por sofrer é ausência de consciência nas provas e adiamento de soluções.
Mais uma vez os sábios Guias da codificação auxiliam-nos a compreensão quando dizem: “A perda de um dedo mínimo, quando se esteja prestando um serviço, apaga mais faltas do que o suplício da carne suportado durante anos, com objetivo exclusivamente pessoal.”
Suportar por suportar é perda incalculável. Suportar trabalhando para vencer e aprender  é solução a caminho.
Se estamos na dor, precisamos entender seus alvitres, suas indicativas em favor de nosso aprendizado, a fim de sairmos da lamentável condição de “vítimas cármicas” de dores que poderíamos superar.
Sejamos otimistas e pensemos com merecimento e auto-estima, fugindo de atribuir conotação enfermiça à existência através de comparações com os amigos e conhecidos, lamentando não estar na posição feliz em que supostamente se encontram.
Lutemos pela nossa felicidade, eliminando os “carmas adicionais”, crendo e vivendo firmemente o seguinte projeto de vida: “eu mereço ser feliz.”
Estejamos certos que esse é o projeto de Deus para todos nós. Aceitemo-lo ainda hoje e cultivemos o sentimento de que merecemos a felicidade
.
Ermance Dufaux.
Wnaderley S. de Oliveira.Livro: Mereça Ser Feliz