quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Em Torno de uma Oração



Senhor, fazei-me instrumento de Vossa paz.
Onde haja ódio, consenti que eu semeie amor.
Perdão, onde haja injúria.
Fé, onde haja dúvida.
Esperança, onde haja desespero.
Luz, onde haja escuridão.
Alegria, onde haja tristeza.

Oh! Divino Mestre!
Permiti que eu não procure tanto ser consolado, quanto consolar.
Ser compreendido, quanto compreender.
Ser amado, quanto amar.

Porque é dando que recebemos.
Perdoando que somos perdoados.
E é morrendo que nascemos para a Vida Eterna.

Certamente você conhece essa oração, leitor amigo!
Depois do Pai Nosso, essa rogativa de Francisco de Assis é a mais popular, obrigatória em qualquer antologia do sublime.
O missionário do Cristo sensibiliza e emociona.
Há mananciais inesgotáveis de espiritualidade em suas expressões impregnadas de divino magnetismo.
Nos momentos de angústia, ela é um refrigério abençoado para nossas almas.
Raras pessoas, entretanto, percebem que a oração de Francisco de Assis transcende o mero conforto ou consolação que buscamos.

Trata-se, fundamentalmente, de uma orientação de vida, sob inspiração do Evangelho.

Oportuno, portanto, que nos detenhamos em suas afirmações, habilitando-nos a benefícios bem mais consistentes e duradouros.


***

Pede o santo de Assis, inicialmente:

Senhor, fazei-me instrumento de Vossa paz.

Seria interessante que indagássemos com freqüência:

“Sou um instrumento da paz?”
“Em minha presença as pessoas sentem-se mais tranqüilas, animadas e felizes?”
“Ou a paz se despede quando vou chegando?”

Perguntei a uma senhora amiga sobre sua família.
– No momento, muito bem! Estamos em paz! – afirmou feliz.
E, sorriso brejeiro, completou:
– Meu marido está viajando…
Seu companheiro é um espantalho da paz.
Quando está em casa, salve-se quem puder!
Não dá sossego a ninguém.

A primeira reflexão, portanto, em torno da prece de Francisco de Assis, sugere que analisemos nossa vida e verifiquemos, cuidadosamente:

Sustentamos a paz ou impomos a agitação?

***

Onde houver ódio que eu semeie o Amor.

Mahatma Gandhi dizia que alguém capaz de realizar a plenitude do amor neutralizará o ódio de milhões.
Ele mesmo o fez, conseguindo que a Índia se libertasse do jugo inglês sem banhos de sangue, com sua filosofia da resistência pacífica e da não-violência, superando seculares ressentimentos dos indianos contra seus dominadores.
Certamente estamos distanciados de suas realizações.
Não obstante, podemos promover a paz, evitando que mágoas fermentem no coração alheio e se transformem nesse sentimento desajustante que é o ódio.
Há uma fórmula para isso:

A profilaxia dos contrários.

Certa feita, funcionário de uma grande empresa estava furioso com o gerente que freqüentemente a transferia de setor. Certamente estava a pressiona-lo para que se demitisse. Cogitava disso quando um colega, um semeador da paz, disse-lhe.
– Está enganado quanto ao nosso chefe, meu amigo. Ele o admira muito, sabe que é eficiente e digno de confiança. Por isso o tem encaminhado para setores onde há problemas, consciente de que pode resolvê-los.
Sua intervenção pacificou o companheiro que passou a ver com simpatia as iniciativas do gerente a seu respeito.
A profilaxia dos contrários é infalível.
Desarmamos a pessoa que fala mal de alguém passando a idéia de que o desafeto não tem a mesma opinião a seu respeito.


***

Perdão, onde haja injúria..

Diz a esposa sofredora:
– Meu marido me abandonou por outra mulher. Não me conformo! A vida ficou complicada, não tem mais graça… Estou muito infeliz!
Diz o semeador da paz:
– A mágoa é como um espinho cravado no peito. Machuca dói, incomoda… Perdoe para libertar-se. Esqueça.… Siga o seu caminho.
Segundo alguns exegetas, nos textos evangélicos em grego, perdoar é sinônimo de desligar.
Exatamente o que ocorre conosco quando perdoamos.
Desligamo-nos da mágoa, do ressentimento…
Livramo-nos da intranqüilidade.

Tiramos o espinho de nosso peito.


***

Fé, onde haja dúvida..

No atendimento fraterno, num Centro Espírita, a voluntária consolava sofrida mulher, cujo filho falecera vitimado por mal súbito.
– Confie em Deus, minha irmã. Considere que nada ocorre sem Seu consentimento. Quando manifestamos submissão à Sua Vontade tudo fica mais fácil.
A mulher não se conformava:
– Você fala assim porque não sabe o que é perder um filho na flor da idade, estudante de medicina, futuro brilhante! Alguém que resumia minhas mais caras esperanças! Não dá para aceitar!
– Sei sim, minha amiga. Passei por experiência semelhante. Meus dois filhos faleceram num acidente. A certeza de que apenas transferiram residência para além-túmulo é o meu alento. Sei, também, que nossos amados sofrem com nossa inconformação e que ficam felizes quando cultuamos sua memória exercitando coragem e o bom ânimo. O consolo maior é saber que estão por perto.
– Você costuma sentir a presença deles?!
– Sim, freqüentemente.
– Como faz para receber essa dádiva?

– Sempre acontece quando me disponho a servir.


***

Esperança, onde haja desespero.

Reclama o favelado.
– Não há por que viver! Minha vida é um tormento. Minha mulher está doente. Eu, desempregado. Os filhos passam fome…

Afirma o semeador de esperança.
– Trouxe alimentos para seus filhos e remédio para sua esposa. Ajudarei você a conseguir emprego. Coragem! Com a ajuda de Deus e o nosso empenho tudo há de melhorar!


***

Luz, onde haja escuridão.

Diz o doente:
– Oh! Meu Deus, como é triste a solidão do leito, sem amigos, sem familiares… Apenas as dores, a tristeza… É tudo tão sombrio, tão triste!

Diz o semeador de luz:
– Vim lhe fazer companhia e dizer que você não está só. Busquemos juntos as claridades do Evangelho, o consolo das lições de Jesus, a luz da oração…

***

Alegria, onde haja tristeza.

No movimento espírita tivemos alguém que não obstante a provação que lhe impunha dolorosas limitações, era um maravilhoso semeador de alegria:

Jerônimo Mendonça.

Vítima de grave problema de saúde, ficou totalmente imobilizado, sem movimento num só dedo dos pés ou das mãos, e cego.
Viveu várias décadas assim.
Não obstante, nunca desanimou, nem se entregou ao desalento.
Embora preso ao leito, mergulhado em escuridão, jamais deixou de se comunicar com as pessoas.
Viajava, consolava, confortava, revelava uma tamanha coragem, inspirado nos princípios espíritas e nos ensinamentos de Jesus, que muitas pessoas se converteram a partir de seus exemplos.
Tinha dois dons maravilhosos:

• Jamais se melindrava.

• Ria das próprias limitações.

Enquanto detinha a visão, nos primeiros tempos da doença, ia ao cinema.
O leito ficava num dos corredores.
Certa feita, após o início da sessão, entrou uma jovem.
Apressada, em plena escuridão tropeçou na improvisada poltrona.
Irritada, bradou:

– Diabo de aleijado! Se vou na praça ele está lá! Vou a uma festa e ele está lá! No campo de futebol, está o aleijado! Até no cinema esse enxerido me persegue!

E Jerônimo:

– Também, pudera! Você não pára em casa!

Pessoas que conviviam com Jerônimo concluíam:

O Espiritismo deve ser espantosamente belo e estimulante, sustentando nesse homem tão grande disposição para enfrentar a adversidade com otimismo e bom humor

É assim mesmo.
Quando nos dispomos a seguir firmes e confiantes em Deus, não obstante dores e atribulações, influenciamos irresistivelmente as pessoas que nos rodeiam, tanto quanto os descrentes e revoltados semeiam a descrença e a revolta.


***

Os que se doam incessantemente, amando e servindo o semelhante, aprenderam com Francisco de Assis que:

É dando que recebemos.
Perdoando que somos perdoados.
E é morrendo que nascemos para a Vida Eterna.

A afirmação final merece atenção.
É preciso “matar” o homem velho, eivado de paixões, para que nasça o homem novo a que se referia o apóstolo Paulo.
Um ser especial que tem no Evangelho o seu guia, o seu alento, a sua felicidade.
É assim que nasceremos para a vida eterna, isto é, nos livraremos das reencarnações expiatórias, habilitando-nos aos planos mais altos do infinito, onde há vida em plenitude, sem acesso para a morte.



Livro "O Destino em Suas Mãos"
Editora CEAC - Bauru/Richard Simonetti