quinta-feira, 13 de março de 2014

Entrar e Sair

Havia restrições e comentários desairosos sobre pessoas que Chico costumava visitar.
– Não devia ir!
– É gente de má vida!
– Não fica bem!
Preocupado, o médium expôs o assunto a Emmanuel:
– O senhor acha então que não devo entrar lá?
– Pode, sim, Chico. Apenas desejo saber como vai sair.

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Há, nesse sugestivo, episódio alguns aspectos que merecem nossa atenção.
O primeiro diz respeito ao velho problema do preconceito, atavismo psicológico que trazemos desde os tempos bíblicos, em que o contato com as chamadas pessoas de má vida era proibido, sob pena de contaminação ou, pior, de identificação.
Uma espécie de dize-me com quem andas e te direi quem és, que pode ter uma dose de verdade, mas passível de inibir qualquer tentativa de ajudar alguém cujo comportamento fuja aos bons costumes.
Um dos problemas de Jesus dizia respeito às críticas dos fariseus, sempre dispostos a encontrar chifre em cabeça de cavalo, buscando comprometê-lo.
Certa feita, perguntaram aos seus discípulos por que ele se relacionava com cobradores de impostos e pecadores.
Ouvindo a conversa, o Mestre fez um comentário antológico (Mateus, 9:12):
Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes.
A chance dos maus superarem suas tendências está justamente em não serem discriminados pelos bons, dispostos estes a lhes oferecer referencial adequado com a força do exemplo.

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Há a questão do julgamento, a ser levada em consideração.
No Sermão da Montanha, Jesus proclama que tendemos a enxergar ciscos em olhos alheios e não observamos lascas de madeira em nossos olhos.
Traduzindo: identificamos nos outros o que existe amplamente em nós.
Outro detalhe: se, não obstante a advertência de Jesus, resolvemos “apreciar” o comportamento alheio, imperioso conhecer todos os detalhes, a fim de não incorrermos em injustiça.
O Espírito Hilário Silva, em psicografia de Waldo Vieira, no livro A Vida Escreve, narra ilustrativo episódio ocorrido com diretor de Centro Espírita, preocupado com um companheiro que fora visto, várias vezes, entrando, no dizer discreto do autor, numa casa suspeita, lugar tristemente adornado para encontros clandestinos de casais transviados.
Indo até o local, esperou que ele saísse, por volta de meia-noite, quando o admoestou severamente e, não satisfeito em ouvir que estava ali em missão de paz, procurando recuperar uma jovem inexperiente, dispôs-se a confirmar a informação, ignorando os apelos do companheiro, que lhe implorava não o fizesse.
Enfatiza o autor:
E sem mais nem menos entrou casa a dentro, encontrando, num pequeno salão, sua própria filha chorando ao pé de um cavalheiro desconhecido.
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Há círculos religiosos que revivem as restrições dogmáticas do passado, enfatizando a necessidade de evitar a “contaminação”.
Carnaval – nem pensar!
Festas mundanas – tentação!
Bar – casa do demônio!
Contato com os Espíritos – perdição!
Estendem-se restrições variadas, inibindo a iniciativa.
O Espiritismo, doutrina da consciência livre, não impõe nada, partindo do princípio de que a responsabilidade é uma planta frágil que deve crescer em clima de liberdade.
Podemos entrar onde nos aprouver.
O cuidado, como adverte Emmanuel, está em saber como estaremos ao sair.
Livro Rindo e Refletindo com Chico Xavier
 Richard Simonetti