segunda-feira, 31 de março de 2014

Prelúdio da vida

De todas as coisas na vida, nada há mais preciso do que a morte.
Qualquer criatura que goze de vida, tem assinalada, em algum momento, a sua morte.
Imparcial como ninguém, ela arrebata jovens e idosos, desiludidos, sonhadores e idealistas, trabalhadores e ociosos.
Inoportuna, surge em momentos de mágica alegria, transformando o ambiente com seus véus de crepe negro.
Incoerente, leva os mais jovens e saudáveis, deixando no seu rastro pessoas enfermas e de anos incontáveis.
Entretanto, o mais terrível não é a sua ação direta, mas suas consequências, ou seja, o grande vazio que deixa nas vidas dos que prosseguem na Terra.
A incerteza de que haja um depois da morte leva muitas pessoas ao desespero, ao abandono de si mesmas, à depressão.
Walter Lowen foi uma dessas pessoas. Depois de um convívio de trinta e sete anos, foi separado de sua amada Selma, de forma inesperada, pelo espectro da morte.
Ele não sabia como continuar vivendo sem a presença dela. Ela era o seu sol, em torno do qual ele, um pequeno planeta, realizava sua órbita, dia após dia. Ele se sentia como alguém sozinho na escuridão.
O médico, percebendo seu estado emocional desesperador, o fez retornar do mundo de sombras em que se encontrava, dizendo-lhe: Você tornará a vê-la.
Depois de escutar a curta frase, Walter começou a pensar que a separação da esposa era algo temporário.
E tudo ficou mais fácil de ser suportado. No entanto, foi quando lhe chegou uma carta, que ele se sentiu profundamente tocado.
Dizia assim: Eu não conheço a forma da imortalidade. Mas, também, nunca vi o amor, a fé, a integridade ou qualquer das outras qualidades que dão sentido e beleza à vida.
Apesar disso, não ponho em dúvida sua realidade, pois já vivi com elas em ação. A morte não destrói essas qualidades.
Só se pode perder o amor quando é retirado de nós. A morte não o tira, pois o amor não tem limites.
O amor continua conosco, cercando-nos e fortalecendo-nos, uma força ativa e positiva, uma realidade mais profunda do que o som de uma voz ou o toque de uma mão, por mais queridas que sejam essas sensações.
Como é possível, então, descrer da imortalidade da alma?
Sua esposa vive e continua a amá-lo, esperando um dia reencontrá-lo para a continuação dessa convivência que vocês souberam valorizar durante trinta e sete anos, ininterruptamente.
Nesse dia, Walter retornou à vida...
*  *   *
A certeza da Imortalidade é das mais gratificantes revelações. Confere a certeza do reencontro. Permite que aquele que permanece jornadeando pelos caminhos do mundo, tenha robustecida a chama da esperança.
Esperança de que o amor continua, que o amor ama e vela.
Certeza de que não caminha só, no mundo. Que, mesmo que reconstrua a sua vida afetiva, ao lado de outro cônjuge, o amor amado entende e abençoa.
E, afinal, depois de passados os anos, transcorrido o tempo, chegado o momento da sua própria partida, será recebido, no mais Além, por quem lá vive e ficou anos aguardando.
Ao chegar, será recepcionado com um sorriso, um grande abraço e as doces palavras: Que saudade! Há quanto tempo espero você.
Morte, prelúdio da verdadeira vida! Pensemos nisso.
Redação do Momento Espírita, com base no artigoMorte, prelúdio da vida, de José Ferraz, da Revista
Internacional de Espiritismo, de fevereiro de 2014.