terça-feira, 20 de maio de 2014

Falar dos Mortos

Chilon (século VI a.C.), magistrado e filósofo espartano, um dos sete sábios da Grécia antiga, ensinava regras singelas de conduta que estariam presentes em qualquer manual de auto-ajuda, gênero literário que faz sucesso nestes dias de carências, dúvidas e temores.
Nas suas máximas, coletadas fragmentariamente em Vida de Ilustres Filósofos, de Diógenes Laércio (século III), recomenda Chilon:
• Controla a língua…
• Cultiva recato no casamento...
• Respeita os mais velhos…
• Vigia a si mesmo…
Como se vê, nada diferente do que conhecemos.
Há um senso comum, conjugando a sabedoria dos séculos.
Exprime-se em máximas que operariam radicais mudanças na sociedade humana, se colocadas em prática.

***
Uma máxima de Chilon, utilíssima, fundamental, é pouco observada. Costuma-se fazer exatamente o contrário.
Recomenda o filósofo:
Não fale mal dos mortos.
Inicialmente, até falamos bem.
Num velório, à falta de ter o que dizer aos familiares, promovemos o finado ao exprimir nossas condolências:
– Coitado! Tão bom… Morreu!
Em breve, no próprio ambiente em que é velado o defunto, mudamos a postura.
Evocamos suas fragilidades, defeitos e episódios menos edificantes que lhe marcaram a existência.
Lamentável desrespeito diante do companheiro de pés juntos, vestindo o “pijama de madeira”.
Geralmente, os Espíritos desencarnados permanecem ligados ao corpo durante o velório.
Carecem de orações, não de críticas.
Em face da turvação mental em que se situam, assimilam as vibrações geradas por observações descaridosas dos presentes. Sentem-se perturbados e aflitos, sem perceber o que está acontecendo.
***
O “defunto”, não raro, reage à maledicência.
O maldizente poderá dar-se mal…
Ocorre principalmente quando o desavisado tece críticas contra alguém de parcas virtudes, que esticou as canelas há algum tempo. Adaptado à vida espiritual, mas não convertido ao Bem, poderá causar-lhe dissabores.
No livro Missionários da Luz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, o Espírito André Luiz reporta-se a um episódio dessa natureza.
O autor e um companheiro foram à casa de certo homem, Vieira, que faltara a uma reunião na espiritualidade. Desejavam saber o que o impedira.
O sono é breve viagem ao mundo dos mortos.
Enquanto o corpo dorme, refazendo energias, transitamos pelas plagas do Além. São ensaios para a transferência definitiva, quando a senhora da foice nos convocar.
Os dois tarefeiros o encontraram em situação difícil.
Afastado do corpo em repouso no leito, Vieira quedava-se apavorado ante a presença de um Espírito que o ameaçava.
O indesejável visitante explicou que durante o jantar, conversando com familiares, o dono da casa tecera considerações desairosas à sua pessoa. Ele captara as vibrações negativas da crítica e viera tirar satisfações.
Vieira tremia, descontrolado, incapaz de uma reação.
Induzido por André Luiz e seu companheiro, despertou assustado, banhado em suor.
Guardava a impressão de que estivera com o dito-cujo. Mas, sem autocrítica, não percebeu que ele viera cobrar-lhe a leviandade.
Definiu a experiência como um pesadelo, que atribuiu a problema digestivo ou algo semelhante, sem perceber que nas fofocas contra o “morto” estava a origem de seu problema.

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Chilon tem razão.
A piedade recomenda que oremos pelos mortos.
Manda a prudência:
Não falemos mal deles!

Do livro Luzes no Caminho